A noticia chegou-me pelo jornal Público: uma investigação finlandesa, da universidade de Tampere, que aborda a ligação corpo-mente. Neste caso, a forma como os estados emocionais se manifestam no plano físico. Aqui ficam os resultados, tal como foram publicados na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Our endless numbered days
Faltava algum tempo para a meia-noite. A noite estava
fria e chovia. Na rua, o vaivém dos veículos com ocupantes apressados. Em casa,
as horas eram saboreadas devagar. O felino ronronava, junto ao aquecedor,
enquanto a voz sussurrada de Sam Beam (Iron & Wine)* se fazia ouvir na
sala, com volume baixo. Ela deixou-se embalar até ao último acorde e
deliciou-se, de seguida, com os trilhos fluidos e imprevisíveis das gotas de
água na vidraça.
Ele veio da cozinha com um jarro de vinho e duas
canecas de barro e estendeu-lhe uma. Brindaram então aos momentos que marcaram
o ano: os bons, os assim-assim e os outros, sem os quais não teria sido
possível mudar de rumo e, vendo agora, talvez para melhor.
«O 13 não chegou a ser um 31, mas por vezes pareceu!»,
brincou ela.
«Eu não te dizia que com jeitinho e paciência tudo
acaba por compor-se, no tempo certo?», acrescentou ele. Ela levantou-se do
sofá. «E qual é o tempo certo? Essa é a pergunta que vale milhões!»
O som do relógio de cuco trouxe um toque de suspense
ao momento. O jogo da bisca ainda não tinha acabado. O homem pousou na mesa as
três cartas que tinha na mão, naipes voltados para baixo e, em tom de fado, entoou
a ladainha:
«O tempo
pergunta ao tempo, quanto tempo o tempo tem...»
Ela sorriu. E vai de acompanhá-lo,
à desgarrada: «...O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto
tempo o tempo tem.» Bateram palmas e retomaram o jogo, perdendo-se nas horas. Há
momentos de sorte. Ou presentes de graça. Foi então que os ponteiros do relógio
de cuco se cruzaram, no sentido norte. Abraçaram-se. Estava frio e chovia. Eram os primeiros
acordes de 2014.
*God, give us love in the time that we have
Primeira ficção do ano, em memória do meu pai, que partiu há 4 décadas e com quem aprendi as artes do tempo (e não apenas da relojoaria e do ouro) .
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
«Vai passear!»
O running começa a fazer parte do léxico e dos hábitos dos
portugueses. Há uns tempos era o jogging. E, apetece perguntar, «não pode ser
apenas um walking?
As virtudes do passeio, confirmadas pelos investigadores de
cardiologia e, também, da neuropsicologia, há muito que são uma evidência para
a medicina. Caminhar para arejar as ideias, desenferrujar os músculos e, agora
que se aproxima o inverno, ajuda a combater os sedentarismo e é bom para
fortalecer defesas. Uma prática simples, mas eficaz, ecológica e ‘no cost’.
Ok,
custa um bocado contrariar a inércia, agora que os dias são mais curtos e as
variações climatéricas convidam ao conforto do lar e dos espaços fechados.
Certamente já lhe aconteceu «tropeçar» numa ideia para
aquela questão que ficou o dia todo às voltas, na cabeça, na hora de ir desejar
o lixo? Ou enquanto passeia o cão? O simples caminhar, estar em movimento sem
que seja isso seja um objectivo (o «ter-de-fazer-exercício-entre-as-outras-mil-tarefas-do-dia»),
pode ter um impacto subtil, mas surpreendente.
Alguns dos mais proeminentes filósofos e escritores, de
Rosseau a Kant, passando por Jack Kerouac e Bruce Chatwin, testemunharam os
benefícios da caminhada, desconhecidas que eram, então, as evidências
científicas do «dar corda aos sapatinhos». Além de estimular a coordenação motora e o
hemisfério direito, a parte do cérebro associada à intuição e à criatividade, caminhar
promove a capacidade de autofoco e o «grounding» (que significa enraizamento).
Pés na terra e cabeça nas estrelas, portanto.
Se andar for, para si, uma actividade monótona, há sempre a
possibilidade de repetir a experiência introduzindo alguns ingredientes
estimulantes.
Sugestões:
Caminhar na companhia de alguém (escolher se prefere
caminhar em silencio ou enquanto põe a conversa em dia é um ponto importante)
Escolher um percurso diferente (há quem prefira o paredão,
junto ao mar, e quem prefira paisagens mais desafiadoras e com menos densidade
de transeuntes e poupar-se ao «frete» da passadeira do ginásio)
Optar por uma hora do dia em que não tenha de estar sempre
«on» (ao telemóvel, a combinar detalhes da agenda laboral ou quando está perto
da hora de algum compromisso inadiável);
Se a noite é um ambiente mais
cativante (por estarem «arrumadas» as rotinas do dia, já estar sem vontade de
ver os mesmo programas diante do sofá ou simplesmente porque a seguir vai
dormir melhor, depois de reciclar a «tralha mental» a cada passada), óptimo.
Se
madrugar é o seu registo, nada como começar o dia a clarificar ideias em
movimento, antes de mergulhar na «máquina de lavar» dos afazeres quotidianos.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Psicologia Quotidiana
«Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos».
Annais Nin ficou célebre por estar à frente do seu tempo. Mais do que o estilo inovador da sua escrita erótica, ou a intensidade que acompanhou sempre a sua vida amorosa, no meio literário parisiense (ilustrada na obra, Henri, June and Me, adaptada ao cinema), cativam-me as suas reflexões, o que ela filtrava das experiências quotidianas. Os dias contados à luz da qualidade (e riqueza) singular dessas experiências. A sua marca de água reside na espontaneidade, na intenção e nos afetos.
Nessa altura, ainda não existia a neurociência. A psicanálise sim, e foi um veiculo precioso, afirmou ela, mais tarde, para o seu desenvolvimento pessoal e, consequentemente, para a criatividade e originalidade da sua escrita.
De Freud até hoje, algumas coisas mudaram. O foco das investigações na área da psicologia e outras ciências deslocou-se do Inconsciente - que se enraizou e vulgarizou no senso comum - para a Consciência. Para o que se passa num momento presente (em '3D' ou '4G', poder-se-ia dizer, na gíria tecnológica). É um território com várias dimensões ou camadas (e em combinações neuronais quase infinitas), não confinada ao plano intrapsíquico.
O passado, no sentido psicanalítico, atualiza-se no presente. E o que se passa no momento presente? Quanto dura um momento de experiência significativa, vivido com atenção focada e capaz de mudar o rumo de uma vida em escassos segundos? O que faz acontecer essas «explosões» químicas nos circuitos cerebrais? Como se processam os movimentos das interações (com um outro ou durante uma atividade)? Que leitura se vai fazendo delas, em tempo real?
A investigação neste domínio (Experience Flutuaction Model) sugere que existe um estado de consciência descrito por experiência ótima (ou de 'fluxo'), caracterizado pela sintonia entre desejos, sentimentos e ação, na relação com o mundo. Esse estado de consciência (gratificante e pleno) produz elevados níveis de bem-estar psicológico (Nakamura & Csikszentmihalyi, 2002) e pode ser alcançado pelo envolvimento e concentração no que se está a viver enquanto se interage, num dado momento e circunstância.
No meio de tantos gestos e rotinas, aparentemente insignificantes, faz-se um 'click'. Num instante, tudo muda. O significado da experiência subjetiva que emerge nos contextos naturais de vida é que vai determinar os pontos de viragem e transformação. As pesquisas centram-se agora nas flutuações da qualidade das experiências vividas, na tomada de consciência do que nos faz sentir vivos (presentes/conscientes) na relação com o mundo. Entrar em 'fluxo' e promovê-lo, numa perspetiva salutogénica.
No seu tempo, Freud marcou a diferença e deixou um legado revolucionário: a ele se deve o foco no mundo mental e suas «prisões», que estão na base do sintoma. Não é por acaso que uma das suas obras mais icónicas seja A Psicopatologia da Vida Quotidiana. Hoje, a Bíblia das Perturbações Mentais (DSM) continua a ser revista (e a incluir sempre novas «disfunções», para as quais haverá uma nova molécula para prescrever), quase sem reservar espaço para aquilo que chamamos «normalidade»: o ser humano, nas suas singularidades e diversidade.
Um novo paradigma começa a ganhar forma (ou massa crítica): se é em (na) relação que a «doença» (ou o sintoma) se forja, é em (na) relação que ela se pode «curar». Com outros protagonistas, ou em contextos relacionais mais user friendly (como acontece, por exemplo, num processo psicoterapêutico, mas também noutras formas de envolvimento significativas, onde têm lugar todas as formas de arte e de encontro, onde a empatia e o sentido de si têm lugar para existir).
As plataformas tecnológicas parecem ter um papel decisivo neste processo, por serem pontos de partida e criarem oportunidades (mesmo que temporárias ou experimentais) de contacto, descoberta e, eventualmente, de encontro, promotor de mudança (pela qualidade das experiências ótimas, que promovem «insight» e valem por si).
Annais iria gostar de saber.
Psicologia Quotidiana
No Consultório Social da Visão Solidária, tem um espaço para colocar as suas perguntas (visaosolidaria@impresa.pt) e acompanhar as respostas.
Annais Nin ficou célebre por estar à frente do seu tempo. Mais do que o estilo inovador da sua escrita erótica, ou a intensidade que acompanhou sempre a sua vida amorosa, no meio literário parisiense (ilustrada na obra, Henri, June and Me, adaptada ao cinema), cativam-me as suas reflexões, o que ela filtrava das experiências quotidianas. Os dias contados à luz da qualidade (e riqueza) singular dessas experiências. A sua marca de água reside na espontaneidade, na intenção e nos afetos.
Nessa altura, ainda não existia a neurociência. A psicanálise sim, e foi um veiculo precioso, afirmou ela, mais tarde, para o seu desenvolvimento pessoal e, consequentemente, para a criatividade e originalidade da sua escrita.
De Freud até hoje, algumas coisas mudaram. O foco das investigações na área da psicologia e outras ciências deslocou-se do Inconsciente - que se enraizou e vulgarizou no senso comum - para a Consciência. Para o que se passa num momento presente (em '3D' ou '4G', poder-se-ia dizer, na gíria tecnológica). É um território com várias dimensões ou camadas (e em combinações neuronais quase infinitas), não confinada ao plano intrapsíquico.
O passado, no sentido psicanalítico, atualiza-se no presente. E o que se passa no momento presente? Quanto dura um momento de experiência significativa, vivido com atenção focada e capaz de mudar o rumo de uma vida em escassos segundos? O que faz acontecer essas «explosões» químicas nos circuitos cerebrais? Como se processam os movimentos das interações (com um outro ou durante uma atividade)? Que leitura se vai fazendo delas, em tempo real?
A investigação neste domínio (Experience Flutuaction Model) sugere que existe um estado de consciência descrito por experiência ótima (ou de 'fluxo'), caracterizado pela sintonia entre desejos, sentimentos e ação, na relação com o mundo. Esse estado de consciência (gratificante e pleno) produz elevados níveis de bem-estar psicológico (Nakamura & Csikszentmihalyi, 2002) e pode ser alcançado pelo envolvimento e concentração no que se está a viver enquanto se interage, num dado momento e circunstância.
No meio de tantos gestos e rotinas, aparentemente insignificantes, faz-se um 'click'. Num instante, tudo muda. O significado da experiência subjetiva que emerge nos contextos naturais de vida é que vai determinar os pontos de viragem e transformação. As pesquisas centram-se agora nas flutuações da qualidade das experiências vividas, na tomada de consciência do que nos faz sentir vivos (presentes/conscientes) na relação com o mundo. Entrar em 'fluxo' e promovê-lo, numa perspetiva salutogénica.
mindfulyou.com
Um novo paradigma começa a ganhar forma (ou massa crítica): se é em (na) relação que a «doença» (ou o sintoma) se forja, é em (na) relação que ela se pode «curar». Com outros protagonistas, ou em contextos relacionais mais user friendly (como acontece, por exemplo, num processo psicoterapêutico, mas também noutras formas de envolvimento significativas, onde têm lugar todas as formas de arte e de encontro, onde a empatia e o sentido de si têm lugar para existir).
As plataformas tecnológicas parecem ter um papel decisivo neste processo, por serem pontos de partida e criarem oportunidades (mesmo que temporárias ou experimentais) de contacto, descoberta e, eventualmente, de encontro, promotor de mudança (pela qualidade das experiências ótimas, que promovem «insight» e valem por si).
Annais iria gostar de saber.
Psicologia Quotidiana
No Consultório Social da Visão Solidária, tem um espaço para colocar as suas perguntas (visaosolidaria@impresa.pt) e acompanhar as respostas.
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terça-feira, 30 de julho de 2013
Amor Virtual
Li, há dias, um artigo de um jornal canadiano acerca das
novas formas de encontros. A sugestão do título: «Don´t date!» A proposta
resume-se à ideia de que, com tantas formas de conectividade em tempo real, pessoas
na faixa etária dos vintes e trintas parecem não estar a sair com uma pessoa,
mas com várias. Cada uma desempenha um papel específico: amigo para ir a uma
festa, colega de trabalho para fazer confidências e receber conselhos,
ex-e-melhor amigo para partilhar questões que ele testemunhou e tem acompanhado
nos últimos anos, amiga virtual com quem se trocam impressões ao final do dia,
antes de dormir.
E os sites de encontros? O sair-para-jantar-e-programa de cinema ou algo-mais? Não. Não estão em desuso: espelham a necessidade de contacto humano e de novas possibilidades de relacionamento. Porém, este registo afigura-se mais «tradicional» comparado com outros registos que a tecnologia permite, por exemplo, em «second screen experience» (o chat no tablet enquanto se vê um programa de tv, ou um filme ou música na net).
As investigações sobre o cérebro sugerem que a comunicação
mediada pela tecnologia (em tempo real) alteram os circuitos cerebrais e a
condicionar o modo como devemos comunicar. Abreviam-se palavras e ideias, nas
mensagens e mails e os rituais e formalidades foram perdendo espaço e razão de
ser. Tudo se torna mais fluido (ou «líquido» diria o sociólogo Zigmunt Bauman),
mas igualmente mais racional, digital e formatado.
#newyorkcityphotography
Com esta «normalização» das interacções, há quem defenda –
como o psicanalista Velleda C. Ceccoli (colunista da revista online Psychology Tomorrow) – que a erosão
progressiva das interacções face-a-face, em registo presencial, tende a reduzir a tolerância na resposta aos
estímulos que recebemos. Consequência provável: «Alienar a disponibilidade para
a ternura e a generosidade».
Ainda é cedo para avaliar esta trend: os estilos de abordagem do outro e de se dar a conhecer são
mais diversificados que nunca, pela multiplicidade de plataformas. Em si
mesmas, elas potenciam fluxos e oportunidades. Para lá das questões de negócio (dos «mercados de encontros»),
este fenómeno apenas parece amplificar a nossa necessidade e desejo de ir ao
encontro de paisagens humanas e, talvez, encontrar nelas um lugar especial,
seja sonhado como «casa», ou «ponto de encontro». Estar ligado, mesmo que por
tempo incerto ou fugaz, a alguém.
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Amor em Tempos de Cancro
O que deve saber sobre sexo durante o tratamento oncológico e pistas para redescobrir a sensualidade.
Artigo realizado para a revista Visão (nº 1061) - Junho de 2013
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Caminhar sem medo

Se tem entre 40 e 64 anos...
...já deu consigo a pensar «A vida não é fácil». Ou «O que custa é saber viver».
Se a sua economia pessoal está «em crise», e dá por si com escassa liberdade de movimentos, talvez esteja na altura de fazer ajustes, nos planos pessoal e/ou familiar.
Em vez de marcar passo - como no refrão da canção «Try walking in my shoes» - lembre-se que tem o direito de procurar o «sapato» que melhor lhe sirva no pé. Situar-se e aliviar apertos pode passar por:
- Libertar-se de condicionamentos que funcionaram noutras alturas, mas que agora não se aplicam
- Cultivar o equilíbrio entre gerações, sem esquecer o seu
- Sintonizar os planos pessoal, profissional e social
Faça a sua própria checklist para facilitar a tomada de decisões que naturalmente surgem nesta etapa da vida. Aqui ficam alguns tópicos.
Economia familiar
- Crie limites - se não quer ver as suas poupanças a
voar, defina a quota-parte da responsabilidade dos filhos crescidos na educação
(bolsas, trabalhos part-time) e conte com o orçamento dos pais para as
necessidades deles
- Conte com imprevistos - equacione a possibilidade de
ter os descendentes de volta ao ninho, mesmo que temporariamente, e de ter reservas
à mão para socorrer os seus pais, se ficarem dependentes de si por mais anos e
com recursos escassos
- Não fuja das decisões difíceis - conheça os planos dos
pais para o futuro e discuta-os com eles no seio familiar (seguros, depósitos,
onde ficar no fim de vida, decisões legais, cuidados médicos)
Economia individual
- Cuide de si - defina o que é essencial para satisfazer
necessidades pessoais, sem queimar o orçamento com os outros membros do clã e
poupe para a sua própria reforma
- Simplifique - aceite o que não pode mudar (condição
física, mudanças de estatuto profissional, projetos que não deram certo e
outros fatores não esperados)
- Crie a sua rede - mantenha-se em contacto com amigos e
conhecidos, na sua comunidade ou virtualmente, para partilhar interesses e
resolver problemas, sem isolar-se
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segunda-feira, 20 de maio de 2013
Só para Middle Agers
Sente-se «ensanduichado»? Sem espaço para a tal plenitude
que sonhou ter, chegado a meio do caminho da vida? 3 níveis de dificuldade (ou
de complexidade) a ter em conta, porque fazem parte do processo, nas condições
atuais.
Desafio 1:
Longevidade
O aumento da esperança de vida tornou possível coexistirem
até cinco gerações. Uma conquista, sim. E novas questões. Em Portugal, a
geração sanduíche representa 34% da população, com 3,6 milhões de pessoas que,
entradas na meia-idade, se dividem entre as solicitações dos pais, que vivem
mais tempo, e dos filhos, cuja autonomia tarda em chegar. E enfrentam, ao mesmo
tempo, transformações pessoais (estado de saúde, mudanças laborais, separações,
lutos).
Desafio
2: Sustentabilidade
O grande desafio desta etapa, hoje mais
incerta do que era expectável no final do século XX, alterna entre sobreviver
ao papel de âncora da família e voltar a depender dos mais velhos, em tempos de
aperto. Dos cerca de milhão e meio de desempregados, apenas 370 mil recebem
apoios mensais do Estado. O País tem quase 20% de idosos, 3% dos quais dependem
dos descendentes (os que estão na meia idade). Estes e suportam as despesas com
os filhos por mais tempo que o expectável, já que entre os 15 e os 24 anos, 70%
dos jovens portugueses estão a cargo da família.
Desafio
3: Autonomia
Por força das circunstâncias, a ‘crise do ninho vazio’ –
quando os filhos vão à sua vida – está a ser suplantada pela dos ninhos cheios
ou, até, sobrelotados. Na prática, a casa de família pode ficar mais vazia,
para no momento seguinte voltar a encher-se, ao ritmo das mudanças imprevistas,
no mercado do trabalho e no mundo dos afetos. Apoiar-se nas ajudas dos idosos é
algo que começa a ser cada vez mais normal entre os que estão «no meio da
sanduíche». Segundo o último Censos, 10,3% dos que estão na meia-idade vivem a
cargo de familiares, na sequência de divórcio, perda de casa ou do posto de
trabalho. Ou em face de um diagnóstico de doença mental grave (Portugal ocupa o
primeiro lugar na Europa com uma prevalência anual de 23%). Também os seniores,
contando com uma velhice tranquila e uma pensão segura, se vêem confrontados
com a perda de qualidade de vida, se tiverem de ser a base para um filho
adulto, do grupo dos «entas», que deles depende.
A situação pode ser desesperada, mas não é para ser levada tão
a sério. É possível criar pontos de equilíbrio, por mais instáveis que sejam. E
ganhar algum distanciamento e espaço para existir.
(cont.)
Maduros, mas pouco seguros
Se tem entre 40 e 64 anos, este é o tempo para desfrutar a
vida sem pedir licença e por mérito próprio. É o tempo de saborear metas
alcançadas e aspirar, ainda, a realizar plenamente sonhos por cumprir.
O meio
da vida pode ser tudo isto, mas é também um desafio à capacidade de gerir tensões
acrescidas. Na linha do tempo, os middle
agers sentem-se hoje mais entrincheirados do que há duas décadas atrás, entre
os seus filhos e os seus pais.
A tão almejada autonomia tranquila parece ficar
cada vez mais comprometida para a «geração sanduíche», como lhe chamou o
psiquiatra americano Michael Zal, nos anos 1990. Entrar nos «entas» afigura-se
um desafio mais complexo, que requer uma ginástica singular e criativa, a condizer
com os tempos pós modernos, líquidos e, por vezes, com poucas pausas para
respirar. O que fazer?
Um minuto com… o
psiquiatra H. Michael Zal
Ganhou fama mundial com a obra A Geração Sanduíche: Entre Filhos Adolescentes e Pais Idosos (ed.
Difusão Cultural). Tem 71 anos, exerce clínica privada há mais de 40, no Estado
da Pensilvânia.
O que mudou desde
que escreveu o livro?
Há mais tempo de vida. Procura-se ficar ativo pelo maior
tempo possível, também pelo receio de ficar excluído ou à mercê de serviços
assistenciais. O envelhecimento ainda não é socialmente respeitado.
Que dificuldades
são mais comuns hoje, quando se chega ao meio da vida?
Os problemas de emprego, de proteção social e na saúde.
Jovens e seniores estão a voltar para a casa de família quando ficam sem
trabalho. Não é fácil, mas todos encaram a situação como transitória. As
maiores dificuldades são emocionais: deixar sonhos não realizados e ver as
metas atingidas como suficientes.
Como viver ensanduichado no panorama atual e tirar
proveito disso?
Ter expectativas realistas. Respeitar o espaço próprio, sem
esquecer o dos outros, que acontece muito em períodos críticos. Criar
oportunidades de diversão, mesmo na adversidade, porque aproxima as pessoas e
melhora a convivência entre gerações.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Os Segredos da Solidão III
A capacidade de estar só
"Finding Peace in Solitude" by Si2
Há
muitas formas de experimentar o que o psicanalista Donald Winnicott descreveu
como «a capacidade de estar sozinho». Segundo ele, o sentimento de autonomia
resulta da possibilidade que a criança teve de estar só, na presença de alguém
confiável (geralmente a mãe, apesar de poder ser o pai, um familiar próximo ou
uma figura protetora). Assim se pode explicar porque é para uns mais fácil
estar bem na sua própria companhia do que para outros, sem sentir-se ameaçado.
Numa perspectiva existencialista, todos nascemos e morremos sós. Ter isso em mente, mesmo numa sociedade globalizada, revela-se um convite estimulante, mais não seja para sair do frenesim comunicacional e das nossas próprias zonas de conforto. A Lonely Planet, por exemplo, também conhecida por bíblia dos solitários, nasceu do relato da longa viagem de lua-de-mel de Tony e Maureen Wheeler, um casal britânico que, há quatro décadas, se dispôs a percorrer a Europa e a Ásia de carro para acabar na Austrália.
A vontade de renunciar à pressão para manter-se em sintonia com o ritmo social dominante conquista cada vez mais adeptos. Os numerosos blogues com dicas para os viajantes solitários, os retiros em lugares remotos e alguns estilos de vida monástica parecem ser mais que uma moda: traduzem uma necessidade pessoal que vai sendo reconhecida e cultivada por uma imensa minoria.
Aprender a observar os outros, sem defesas excessivas- «tentar colocar-se nos seus sapatos» - e ir ao encontro deles, sem expetativas, pode ser tão gratificante como optar por periodos sabáticos, de tempos a tempos. Génios como Jesus, Buda, Newton e Beethoven tiveram momentos de criatividade em períodos de retiro ou de eremitagem.
A capacidade de estar só fermenta a autonomia e a liberdade de pensamento. O temperamento solitário é um estilo pessoal, mas também uma defesa/sintoma (no segundo caso, é vivido com desconforto). A solidão está associada ao sentimento de vazio e de isolamento (interno ou fruto de contingências: ausencia de amigos, falta de apoio familiar, relacionamentos superficiais ou que envolvem distância geográfica)
Só...
Em doses qb (cada um deve descobrir a sua) (+)
·
Autodescoberta: possibilidade de pensar/sentir sem os filtros externos
·
Desfrute: saborear as etapas superadas sem o
bulício do quotidiano
·
Serenidade: conectar-se com sentimento de
tranquilidade e calma
·
Simplicidade: uma mente não agitada fica mais
clara e liberta
·
Equilíbrio: disponibilidade para sintonizar-se
com o mundo, sem medo
Em demasia (-)
· Sintomas de mal-estar
· Stresse (distúrbios na pressão arterial, sistema hormonal, etc)
· Problemas imunitários
· Alterações cognitivas e neurológicas
· Isolamento, menos anos de vida
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