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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

'Será que todos precisam de ver o que coloca nas redes sociais ou está só a fazer ruído?'

O especialista em tendências digitais emergentes e colaborador da revista Wired Klint Finley explica como é possível não nos perdermos no caos das tecnologias que nos complicam a vida, quando a ideia é facilitá-la. "É preciso interagir com a tecnologia de forma mais sábia e sustentável", avisa

Publicado na  Visão a 20 de Agosto.2015


Não sabe o que é a consciência digital? Então fixe este nome: Klint Finley. Formado em comunicação e media, o jornalista americano especializou-se em tecnologias de informação enquanto fazia trabalhos em part time num laboratório de computação. Assim que acabou o curso, dedicou-se a escrever sobre temas tão diversos como startups, cultura hacker, Internet das Coisas, privacidade e neutralidade na rede. Colaborador da revista Wired e colunista noutras publicações do género, faz incursões na ficção e na música (noise art) - "a minha catarse pessoal" - assumindo a sua faceta autodidata. "Estou sempre à procura de ideias novas", esclarece o freelance, que vive com a mulher e dois gatos numa pacata zona residencial de Portland, no Oregon.
Fomos ao seu encontro para descodificar o conceito Mindful Cyborgs (ciborges - híbridos com partes orgânicas e cibernéticas - conscientes), título do podcast (programa de rádio online) de que é co-autor. Estabelecido o contacto, via Skype - final da tarde em Lisboa, início do dia em Portland - a primeira impressão foi a de estar na presença de uma mente inquieta: acabado de acordar, caneca de café numa mão e a concluir a ligação de um cabo com a outra. Momentos depois, e no tempo estipulado para a nossa conversa,  Klint deixou pistas para conquistarmos literacia digital e viver com equilíbrio na era da quantificação e da aceleração.   

Como surgiu a ideia do programa?
Quando eu e os outros dois autores (ver caixa) nos conhecemos num evento sobre a relação dos humanos com a parafernália que têm ao dispor para monitorizar as suas vidas. Fizemos um videochat ao vivo, na Wired, e dessa experiência nasceu a ideia de um programa cujo foco fosse questionar o que a tecnologia faz as nossas mentes, como muda a forma de perceber e pensar o mundo e discutir novas formas de lidar com o excesso. Em cada edição, acabamos com mais perguntas que respostas. 

Pode dar alguns exemplos dessas perguntas sem resposta? 
Até que ponto os media sociais contribuem mesmo para termos relacionamentos com mais qualidade ou os torna superficiais. Há 30 anos a relação fazia-se um a um, por carta, telefone. Hoje estamos a toda a hora com outros, que não os que estão a nossa frente, sem ninguém em exclusivo. Se um smartphone nos impede de desfrutar de uma experiência de modo mais pleno ou de pensar mais profundamente. Se devemos viver sem culpa o tempo que estamos online, como defende Alex Pang [tecnoentusiasta da universidade de Stanford, autor do livro Contemplative Computing], e usar a tecnologia como agente de serenidade e não de distração.  

Como pratica o uso consciente da tecnologia na sua vida?
Sou parcimonioso na informação que partilho. Apaguei a aplicação do Twitter do meu telefone, vou lá pelo website. Faço meditação diariamente. É preciso interagir com a tecnologia de forma mais sábia, para gerir a pressão e tomar decisões em ambientes complexos de forma humanamente sustentável. 

Que pistas pode dar para ter uma convivência saudável com o mundo digital
Respeite o espaço mental dos outros, nas redes sociais. Será que todos precisam de ver ou ler o que lá coloca ou só está a fazer ruído? Use uma parte do dia para estar só consigo. Se não consegue moderar o uso da tecnologia, pense numa forma de não depender dela e, em vez de repetir-se, ocupar-se com coisas mais criativas. 
Quem são os Mindful Cyborgs?


Klint Finley, jornalista especializado em tendências e tecnologias emergentes, ficcionista e músico

Sara M. Watson, crítica de tecnologia e investigadora no Berkman Center for Internet and Society (Harvard)

Chris Dancy, vice presidente da empresa Healthways, em Nashville e consultor na área da quantificação do self (conhecido por ser "o homem mais ligado na Terra")

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Self na Era Digital

No passado sábado tive o prazer de participar, como speaker, na terceira edição do TalkABit, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

Trata-se de um evento de palestras sobre o impacto da engenharia de software na sociedade moderna. O tema que apresentei: O Impacto da Tecnologia no Quotidiano: Uma Perspetiva Psicológica




Aqui fica o registo de toda a conferência, organizada por estudantes do seminário Sistemas de Informação e Engenharia de Software. Vale a pena ver e ouvir as comunicações do painel de convidados, em streaming (apesar da qualidade reduzida do som)



Time Code: 1.04.46 - 1.23.44

terça-feira, 30 de julho de 2013

Amor Virtual

Li, há dias, um artigo de um jornal canadiano acerca das novas formas de encontros. A sugestão do título: «Don´t date!» A proposta resume-se à ideia de que, com tantas formas de conectividade em tempo real, pessoas na faixa etária dos vintes e trintas parecem não estar a sair com uma pessoa, mas com várias. Cada uma desempenha um papel específico: amigo para ir a uma festa, colega de trabalho para fazer confidências e receber conselhos, ex-e-melhor amigo para partilhar questões que ele testemunhou e tem acompanhado nos últimos anos, amiga virtual com quem se trocam impressões ao final do dia, antes de dormir. 


E os sites de encontros? O sair-para-jantar-e-programa de cinema ou algo-mais? Não. Não estão em desuso: espelham a necessidade de contacto humano e de novas possibilidades de relacionamento. Porém, este registo afigura-se mais «tradicional» comparado com outros registos que a tecnologia permite, por exemplo, em «second screen experience» (o chat no tablet enquanto se vê um programa de tv, ou um filme ou música na net).

As investigações sobre o cérebro sugerem que a comunicação mediada pela tecnologia (em tempo real) alteram os circuitos cerebrais e a condicionar o modo como devemos comunicar. Abreviam-se palavras e ideias, nas mensagens e mails e os rituais e formalidades foram perdendo espaço e razão de ser. Tudo se torna mais fluido (ou «líquido» diria o sociólogo Zigmunt Bauman), mas igualmente mais racional, digital e formatado.




#newyorkcityphotography

Com esta «normalização» das interacções, há quem defenda – como o psicanalista Velleda C. Ceccoli (colunista da revista online Psychology Tomorrow) – que a erosão progressiva das interacções face-a-face, em registo presencial,  tende a reduzir a tolerância na resposta aos estímulos que recebemos. Consequência provável: «Alienar a disponibilidade para a ternura e a generosidade».

Ainda é cedo para avaliar esta trend: os estilos de abordagem do outro e de se dar a conhecer são mais diversificados que nunca, pela multiplicidade de plataformas. Em si mesmas, elas potenciam fluxos e oportunidades. Para lá das questões de negócio (dos «mercados de encontros»), este fenómeno apenas parece amplificar a nossa necessidade e desejo de ir ao encontro de paisagens humanas e, talvez, encontrar nelas um lugar especial, seja sonhado como «casa», ou «ponto de encontro». Estar ligado, mesmo que por tempo incerto ou fugaz, a alguém. 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

«Não pense num Ferrari Amarelo»

Um paradoxo em quatro atos


I.PARTIR

«Nunca voltes ao lugar onde ja foste feliz». É o que se diz.

Alternativas (temporariamente) positivas:
Versão Comum: Fugir para bem longe (como fez a autora do livro Comer, Orar, Amar, depois do divórcio);
Versão Zen: Ficar onde se está (quando não se sabe o que fazer, o melhor é não fazer nada);
Versão Pop: Fazer de conta que não se passou nada e passar à frente (pode ser com um copo na frente, com comprimidos, como muito boa gente, e liftings sociais vários, do gadget digital ao «tanto faz, que é normal»)

II.SENTIR
O «vírus» quer-se em banho-maria (ou manel), mas é como a meteorologia. Um dia chove e nada fica como se queria.
A pedra no sapato volta a moer o calo e não há podologista que lhe valha. Não, o «plot» volta a circular na rede neuronal, hormonal e visceral. Tanto que até faz mal.

III.VOLTAR
O fim nunca é o fim. É um abandono temporário.
Um dia, num acaso qualquer ou coincidência improvável, alguém «demasiado familiar» reaparece do nada e abala as defesas que se julgavam «à prova de bala».
Mergulha-se numa foto, tropeça-se num mail, descobre-se com choque, durante uma conversa banal com um colega de trabalho que é, ou foi também, parte da história do tal Outro (o lugar que um dia habitámos e fomos - supomos - felizes).

IV.REFORMAR
O passado volta sempre, instala-se no presente, porque habita nos lugares mais escondidos em nós.
O problema não são, afinal, as emoções vulcânicas, mas o facto de não gostarmos delas.
Depois de tudo perdido, anestesiado, queimado, esquecido, resta o óbvio facto de que nada se perde para sempre.
Ninguem se deixa para sempre. Para trás ou para a frente, o filme é mesmo com a gente. Sem «final cuts» nem personagens ausentes. É quando percebemos que não deixamos nunca de ser protagonistas, mas podemos fazer qualquer coisa como ... guionistas.