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terça-feira, 31 de maio de 2016

Snapchat: Identidade Instantânea?


O programa "Central Parque", na RTP 3 (de 28 de maio, 2016), sobre tendências multiplataforma, foi dedicado ao Snapchat. A migração de jovens para redes sociais onde a privacidade e o efémero se conjugam, é uma tendência que está a ser estudada pelos investigadores sociais e pelas marcas, que querem perceber e captar este segmento de mercado.



Os nativos digitais cresceram na sociedade globalizada e sentem-se à vontade a saltar de rede para rede, interagindo em cada uma consoante as preferências do momento. Eles, a geração que valoriza mais o acesso do que a posse, usam os canais de comunicação visual - privada e temporária - como meios para estabelecer contacto, viver o momento e sem o lema "para guardar" ou "para mais tarde recordar".


  • Que impacto tem o uso do Snapchat e outras aplicações de mensagens privadas (ou em grupos restritos) na nossa forma de estar e, até, de ser?  
  • A velocidade e o esquecimento andam de mãos dadas? 
  • Será esta geração uma geração sem memória (ou com uma memória fragmentada)?
  • Que efeitos tem na Identidade o apagamento automático dos conteúdos pessoais partilhados? 
  • E como dar a volta à ansiedade associada ao estar sempre no momento, sem paragens?
  • Será preciso voltar ao modo (ou moda) "slow", para que as experiências vividas tenham alguma espessura, ou seja, algo que permaneça e devolva um sentido se si mais coeso?

   Para saber mais sobre estas e outras questões, assista ao programa, para o qual fui convidada, juntamente com Joana Carravilla Veja o Vídeo

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

'Será que todos precisam de ver o que coloca nas redes sociais ou está só a fazer ruído?'

O especialista em tendências digitais emergentes e colaborador da revista Wired Klint Finley explica como é possível não nos perdermos no caos das tecnologias que nos complicam a vida, quando a ideia é facilitá-la. "É preciso interagir com a tecnologia de forma mais sábia e sustentável", avisa

Publicado na  Visão a 20 de Agosto.2015


Não sabe o que é a consciência digital? Então fixe este nome: Klint Finley. Formado em comunicação e media, o jornalista americano especializou-se em tecnologias de informação enquanto fazia trabalhos em part time num laboratório de computação. Assim que acabou o curso, dedicou-se a escrever sobre temas tão diversos como startups, cultura hacker, Internet das Coisas, privacidade e neutralidade na rede. Colaborador da revista Wired e colunista noutras publicações do género, faz incursões na ficção e na música (noise art) - "a minha catarse pessoal" - assumindo a sua faceta autodidata. "Estou sempre à procura de ideias novas", esclarece o freelance, que vive com a mulher e dois gatos numa pacata zona residencial de Portland, no Oregon.
Fomos ao seu encontro para descodificar o conceito Mindful Cyborgs (ciborges - híbridos com partes orgânicas e cibernéticas - conscientes), título do podcast (programa de rádio online) de que é co-autor. Estabelecido o contacto, via Skype - final da tarde em Lisboa, início do dia em Portland - a primeira impressão foi a de estar na presença de uma mente inquieta: acabado de acordar, caneca de café numa mão e a concluir a ligação de um cabo com a outra. Momentos depois, e no tempo estipulado para a nossa conversa,  Klint deixou pistas para conquistarmos literacia digital e viver com equilíbrio na era da quantificação e da aceleração.   

Como surgiu a ideia do programa?
Quando eu e os outros dois autores (ver caixa) nos conhecemos num evento sobre a relação dos humanos com a parafernália que têm ao dispor para monitorizar as suas vidas. Fizemos um videochat ao vivo, na Wired, e dessa experiência nasceu a ideia de um programa cujo foco fosse questionar o que a tecnologia faz as nossas mentes, como muda a forma de perceber e pensar o mundo e discutir novas formas de lidar com o excesso. Em cada edição, acabamos com mais perguntas que respostas. 

Pode dar alguns exemplos dessas perguntas sem resposta? 
Até que ponto os media sociais contribuem mesmo para termos relacionamentos com mais qualidade ou os torna superficiais. Há 30 anos a relação fazia-se um a um, por carta, telefone. Hoje estamos a toda a hora com outros, que não os que estão a nossa frente, sem ninguém em exclusivo. Se um smartphone nos impede de desfrutar de uma experiência de modo mais pleno ou de pensar mais profundamente. Se devemos viver sem culpa o tempo que estamos online, como defende Alex Pang [tecnoentusiasta da universidade de Stanford, autor do livro Contemplative Computing], e usar a tecnologia como agente de serenidade e não de distração.  

Como pratica o uso consciente da tecnologia na sua vida?
Sou parcimonioso na informação que partilho. Apaguei a aplicação do Twitter do meu telefone, vou lá pelo website. Faço meditação diariamente. É preciso interagir com a tecnologia de forma mais sábia, para gerir a pressão e tomar decisões em ambientes complexos de forma humanamente sustentável. 

Que pistas pode dar para ter uma convivência saudável com o mundo digital
Respeite o espaço mental dos outros, nas redes sociais. Será que todos precisam de ver ou ler o que lá coloca ou só está a fazer ruído? Use uma parte do dia para estar só consigo. Se não consegue moderar o uso da tecnologia, pense numa forma de não depender dela e, em vez de repetir-se, ocupar-se com coisas mais criativas. 
Quem são os Mindful Cyborgs?


Klint Finley, jornalista especializado em tendências e tecnologias emergentes, ficcionista e músico

Sara M. Watson, crítica de tecnologia e investigadora no Berkman Center for Internet and Society (Harvard)

Chris Dancy, vice presidente da empresa Healthways, em Nashville e consultor na área da quantificação do self (conhecido por ser "o homem mais ligado na Terra")

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Self na Era Digital

No passado sábado tive o prazer de participar, como speaker, na terceira edição do TalkABit, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

Trata-se de um evento de palestras sobre o impacto da engenharia de software na sociedade moderna. O tema que apresentei: O Impacto da Tecnologia no Quotidiano: Uma Perspetiva Psicológica




Aqui fica o registo de toda a conferência, organizada por estudantes do seminário Sistemas de Informação e Engenharia de Software. Vale a pena ver e ouvir as comunicações do painel de convidados, em streaming (apesar da qualidade reduzida do som)



Time Code: 1.04.46 - 1.23.44

sábado, 1 de novembro de 2014

Sempre Ligados

Já não sabemos viver sem ele. O telemóvel revolucionou a nossa forma de estar e de ser. É uma extensão das nossas mãos, de nós. Comunicamos sem fronteiras mas distanciando-nos, do que, e de quem, está à nossa frente.
Habituámo-nos tanto a estar ligados a esse portal de acesso ao mundo que comprometemos a segurança na estrada e ficamos alterados, se privados do seu uso. Sabemos mesmo viver com ele?

No artigo que eu e Vânia Maia publicamos nesta edição da revista Visão vai ficar a conhecer o tipo de relação que estabelecemos com a tecnologia, saber mais sobre o phubbing (focar-se no telefone, ignorando pessoas com quem se está) e, ainda, a análise dos especialistas   

terça-feira, 30 de julho de 2013

Amor Virtual

Li, há dias, um artigo de um jornal canadiano acerca das novas formas de encontros. A sugestão do título: «Don´t date!» A proposta resume-se à ideia de que, com tantas formas de conectividade em tempo real, pessoas na faixa etária dos vintes e trintas parecem não estar a sair com uma pessoa, mas com várias. Cada uma desempenha um papel específico: amigo para ir a uma festa, colega de trabalho para fazer confidências e receber conselhos, ex-e-melhor amigo para partilhar questões que ele testemunhou e tem acompanhado nos últimos anos, amiga virtual com quem se trocam impressões ao final do dia, antes de dormir. 


E os sites de encontros? O sair-para-jantar-e-programa de cinema ou algo-mais? Não. Não estão em desuso: espelham a necessidade de contacto humano e de novas possibilidades de relacionamento. Porém, este registo afigura-se mais «tradicional» comparado com outros registos que a tecnologia permite, por exemplo, em «second screen experience» (o chat no tablet enquanto se vê um programa de tv, ou um filme ou música na net).

As investigações sobre o cérebro sugerem que a comunicação mediada pela tecnologia (em tempo real) alteram os circuitos cerebrais e a condicionar o modo como devemos comunicar. Abreviam-se palavras e ideias, nas mensagens e mails e os rituais e formalidades foram perdendo espaço e razão de ser. Tudo se torna mais fluido (ou «líquido» diria o sociólogo Zigmunt Bauman), mas igualmente mais racional, digital e formatado.




#newyorkcityphotography

Com esta «normalização» das interacções, há quem defenda – como o psicanalista Velleda C. Ceccoli (colunista da revista online Psychology Tomorrow) – que a erosão progressiva das interacções face-a-face, em registo presencial,  tende a reduzir a tolerância na resposta aos estímulos que recebemos. Consequência provável: «Alienar a disponibilidade para a ternura e a generosidade».

Ainda é cedo para avaliar esta trend: os estilos de abordagem do outro e de se dar a conhecer são mais diversificados que nunca, pela multiplicidade de plataformas. Em si mesmas, elas potenciam fluxos e oportunidades. Para lá das questões de negócio (dos «mercados de encontros»), este fenómeno apenas parece amplificar a nossa necessidade e desejo de ir ao encontro de paisagens humanas e, talvez, encontrar nelas um lugar especial, seja sonhado como «casa», ou «ponto de encontro». Estar ligado, mesmo que por tempo incerto ou fugaz, a alguém. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A tua cara não me é estranha



E se um dia se cruzar na rua com alguém que lhe sugere familiaridade, isso não é «amor à primeira vista» nem falta de memória. É um sinal dos tempos
Os sistemas operacionais de internet estão a revolucionar a maneira como nos cruzamos com desconhecidos. Nos últimos cinco anos, começou a ser regra interagir virtualmente com pessoas com quem nunca estivemos face a face. Seja por motivos profissionais ou outros, é hoje comum estabelecer contacto sem qualquer registo físico. As redes sociais e os social media estão a implantar-se enquanto novo contexto de comunicação e torna-se difícil, ou praticamente impossível, memorizar com precisão onde, quando e como foram trocadas impressões com alguém.

en.wikisource.org - drawings for beginners

A falta ou o excesso de pistas de referência – contextuais, não-verbais e sensoriais –, aliada à velocidade de processamento das informações partilhadas, altera radicalmente a forma como se armazenam os conteúdos na memória. Funcionar digitalmente enquanto ser analógico, tem que se lhe diga. Sem «auxiliares de memória», ou «cábulas» virtuais incorporadas no cérebro, a comunicação mediada pelas tecnologias portáteis acaba por ser agregada de forma dispersa, fragmentada e volátil.

O paradigma «multi» - multi usos, multitasking, multiplataforma… - pode ser fascinante e desafiador. As pesquisas efetuadas até agora têm resultados controversos. Ora sugerem uma forte associação entre o uso das redes sociais e o sentimento de pertença - os amigos, mesmo que virtuais, fomentam o que hoje se designa por capital social – ora destacam a emergência de emoções negativas, seja pela inveja desencadeada pelo aparente e constante bem-estar dos protagonistas, «em grande estilo», ou pelo efeito de comparação – e competição - social (cada post ou like evoca a mensagem «o meu é maior que o teu»). 


Seja como for, a torrente de mensagens – umas mais personalizadas que outras – deixa sempre uma marca. O grau em que ela se inscreve nos circuitos neuronais e na memória afectiva de cada um parece decisivo na forma como se associa um rosto aos conteúdos (imagens, texto, voz) que dele se apreendem intuitivamente.


www.looah.com 

Alguém com quem falámos (presencialmente, via mail ou por Instant Messaging), alguém que apenas vimos (num evento social, na imprensa, na TV ou nas redes sociais) ou simplesmente ouvimos (ao telefone, na rádio ou num vídeo partilhado). Alguém que fixámos de forma mais imprecisa ainda, por ser em modo «second screen experience» (uma presença fugaz, embora possa ser marcante, num tablet, ipad ou smartphone, enquanto se está simultaneamente «ligado» num dos registos anteriores).  

Com todas estas dimensões em movimento, não há como saber, em pormenor, se aquela cara é de alguém com quem estivemos, de facto, testemunhámos apenas ou, pura e simplesmente é fruto de um sonho, da nossa imaginação… ou da confusão de circuitos desarrumados que não há maneira de colocar em modo «rewind».