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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Farta de ser a má da fita?

As mães ditam as regras, fazem cara de má, e mandam arrumar o quarto. Os pais jogam computador e levam a passear. Há forma de mudar isto.

(Excerto de artigo assinado por Catarina Fonseca.)
Ler o artigo completo em - Revista Activa)

No tempo dos nossos avós, ao papel de mau da fita cabia ao pai, que era tradicionalmente a fonte da autoridade. Com a maior autonomia das mães, estas passaram a assumir o papel de disciplinadoras.
A situação acontece tradicionalmente quando pai e mãe se divorciam, mas também é comum em muitos casais: a mãe é que impõe as regras, manda fazer os trabalhos e arrumar o quarto, e o pai joga Playstation, dá presentes e leva as crianças a passear. Os sites (e a vida) estão cheios de desabafos de mães fartas deste papel de ‘polícia familiar’.
Ser a ‘má da fita’ é uma situação que, também tradicionalmente, se intensificava com o divórcio: à mãe, que ficava com a criança no dia a dia, cumpria o ingrato papel de polícia. Ao pai de fim de semana, os presentes, as saídas, e os cinemas.

Desde 2008, quando a Lei do Divórcio mudou, que o regime da guarda partilhada passou a ser a regra, e a autoridade cabe... à pessoa que estiver na altura com a criança. “Ou seja, a autoridade acaba por ser quem está mais à mão”, nota Clara Soares, psicóloga, jornalista e autora de vários artigos sobre o divórcio. “Os homens deixaram de ser pais de fim de semana e passaram mesmo a ter de ser pais a tempo inteiro. Portanto, o esquema tradicional em que o pai impunha a autoridade morreu, mas o esquema seguinte em que era o pai que dava os presentes também já vai pelo mesmo caminho.”
Por outro lado, estamos numa sociedade de consumo, onde os filhos podem ser mais facilmente subornáveis. “É inevitável que as regras sejam diferentes em cada casa”, nota Clara Soares. “Se o tempo for de qualidade não é necessário dar alguma coisa para impor uma coisa que já tem, tipo ‘vou-te dar um telemóvel para compensar o pouco tempo que eu passo contigo’. Os miúdos percebem quando estão a ser subornados, e podem fazer chantagem: ‘Vou pedir ao pai para me dar o telemóvel porque tu és má e não dás.’”
Mesmo que seja a nível de dinheiro, estamos sempre a falar da atenção dispensada. “Mas os filhos só exigem alguma coisa quando não se sentem suficientemente ambientados, e quando ninguém estabelece limites”, nota Clara Soares.

Quando falta autoridade aos dois pais, o que acontece é que os presentes substituem uma relação, e as próprias crianças podem começar a exigi-las como compensação para o que não têm. “As crianças, se não têm o que é essencial, agarram-se ao acessório”, explica a psicóloga. “E mais tarde começam a odiar as pessoas à volta delas porque repetem o ponto de fuga que está automatizado.”
Por exemplo: um rapaz que foi ‘comprado’ com presentes por pai ou mãe, habitua-se a resolver a vida nessa base. “Imaginemos um rapaz que está sempre a fazer de homenzinho da casa para chamar a atenção da mãe. Quando passa o tempo a chamar a atenção da miúda e ela o ignora, ele dá-lhe coisas com medo de a perder mas sem necessariamente saber se gosta dela. Então, pode estar a repetir a operação de charme que foi obrigado a desenvolver para sobreviver em casa. Foi uma projeção para o exterior do seu ponto de fuga, o seu ângulo cego, aquela área que não vemos porque estamos demasiado próximos.”
Ou seja, em conclusão, hoje em dia já não há esquemas definidos para a definição de autoridade numa família.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Só para Middle Agers


Sente-se «ensanduichado»? Sem espaço para a tal plenitude que sonhou ter, chegado a meio do caminho da vida? 3 níveis de dificuldade (ou de complexidade) a ter em conta, porque fazem parte do processo, nas condições atuais.

Desafio 1: Longevidade
O aumento da esperança de vida tornou possível coexistirem até cinco gerações. Uma conquista, sim. E novas questões. Em Portugal, a geração sanduíche representa 34% da população, com 3,6 milhões de pessoas que, entradas na meia-idade, se dividem entre as solicitações dos pais, que vivem mais tempo, e dos filhos, cuja autonomia tarda em chegar. E enfrentam, ao mesmo tempo, transformações pessoais (estado de saúde, mudanças laborais, separações, lutos).

Desafio 2: Sustentabilidade
O grande desafio desta etapa, hoje mais incerta do que era expectável no final do século XX, alterna entre sobreviver ao papel de âncora da família e voltar a depender dos mais velhos, em tempos de aperto. Dos cerca de milhão e meio de desempregados, apenas 370 mil recebem apoios mensais do Estado. O País tem quase 20% de idosos, 3% dos quais dependem dos descendentes (os que estão na meia idade). Estes e suportam as despesas com os filhos por mais tempo que o expectável, já que entre os 15 e os 24 anos, 70% dos jovens portugueses estão a cargo da família.

Desafio 3: Autonomia
Por força das circunstâncias, a ‘crise do ninho vazio’ – quando os filhos vão à sua vida – está a ser suplantada pela dos ninhos cheios ou, até, sobrelotados. Na prática, a casa de família pode ficar mais vazia, para no momento seguinte voltar a encher-se, ao ritmo das mudanças imprevistas, no mercado do trabalho e no mundo dos afetos. Apoiar-se nas ajudas dos idosos é algo que começa a ser cada vez mais normal entre os que estão «no meio da sanduíche». Segundo o último Censos, 10,3% dos que estão na meia-idade vivem a cargo de familiares, na sequência de divórcio, perda de casa ou do posto de trabalho. Ou em face de um diagnóstico de doença mental grave (Portugal ocupa o primeiro lugar na Europa com uma prevalência anual de 23%). Também os seniores, contando com uma velhice tranquila e uma pensão segura, se vêem confrontados com a perda de qualidade de vida, se tiverem de ser a base para um filho adulto, do grupo dos «entas», que deles depende.

A situação pode ser desesperada, mas não é para ser levada tão a sério. É possível criar pontos de equilíbrio, por mais instáveis que sejam. E ganhar algum distanciamento e espaço para existir.
(cont.)