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domingo, 10 de março de 2013

O Meu Corpo e Eu


Encontrar significado para sintomas pouco comuns é um exercício de descoberta pessoal, que a ciência só parcialmente explica e a sociedade nem sempre aceita

Duas mulheres famosas, uma romancista e outra activista, entenderam ter uma palavra a dizer sobre o que se passava no estranho mundo dos seus corpos, aos quais «aconteciam coisas». Dessas, que as ciências médicas diagnosticam e tratam, e de outras, menos óbvias. É humano: o sintoma tem sempre razão. Descobri-la é outra história. A ser bem contada, pode acabar nas páginas de um livro.    
«Em Maio de 2006, sob um céu azul e sem nuvens, ali estava eu [Minnesota, EUA] para discursar sobre o meu pai, que morrera dois anos antes. Assim que abri a boca, comecei a tremer violentamente. Tremi nesse dia e tremi outra vez, noutros dias. Eu sou a mulher que treme.» Assim termina o ensaio The Shaking Woman or A History of My Nerves (2010), da autoria da escritora americana Siri Hustved, companheira do também escritor Paul Auster. A experiência, aos 51 anos, abalou-a profundamente. Tudo correra bem na elegia fúnebre: «Quando chegou a hora, li o que tinha preparado, numa voz forte, sem lágrimas.» Agora, diante de uma plateia de convidados, no lugar onde o pai tinha sido professor universitário durante quatro décadas, também conseguiu ler o discurso até ao fim, mas incapaz de controlar o seu corpo a tremer, da zona do pescoço para baixo.
Durante dois anos, Siri dedicou-se, com afinco, à procura da explicação para o «estranho» que habitava nela, qual «duplo», que podia manifestar-se à revelia da sua vontade, do seu Eu. Procurou ajuda na medicina convencional e complementou a sua investigação com memórias e episódios biográficos marcantes.

 A sensação de «ser outra» não era nova. A escritora começou por aprender a falar norueguês, apesar de ter nascido em solo americano. Uma de quatro irmãs, cresceu na companhia de um irmão imaginário, chamado Erik, que viria a ter o papel de psicanalista, num romance seu. Com frequência, tinha episódios de enxaqueca, ataques febris e perturbações sensoriais. Em adulta, foi-lhe diagnosticada neuropatia periférica, comum em pacientes com enxaqueca. Siri convivia relativamente bem com tudo isto. Até entrar em cena «A Mulher que treme».
A hipótese de luto tardio estava fora de questão. Freud poderia diagnosticar histeria (hoje, perturbação de conversão). O psiquiatra equacionou uma desordem de pânico. O neurologista quis despistar a possibilidade de epilepsia. 
http://sirihustvedt.net/

57 anos, ascendência norueguesa
Doutorada em literatura inglesa, nos Estados Unidos
Romancista e ensaísta
Traduzida em 29 línguas, recebeu vários prémios
Casada com o escritor Paul Auster, a viver em Nova Iorque
Insight: «Ser doente depende do temperamento, história pessoal e cultura em que vivemos» 



As ressonâncias magnéticas que não acusaram nada. A solução para manter os malditos «ataques» sob controlo era tomar medicamentos beta-bloqueantes. A certa altura, a autora confessa ao leitor: «Fui seguida por uma psicanalista e uma neurologista, mas nenhuma me disse quem era a mulher que treme.»
Siri foi à procura dela. Frequentou, até, um grupo de neuropsicanálise e conheceu as pesquisas sobre neurónios-espelho, responsáveis pela empatia (sentir-se na pele do outro). Aí estaria, segundo ela, a chave do enigma. Na última semana de vida do pai, Siri pensava nele, antes de dormir, quando foi invadida pela sensação física de alguém com enfisema pulmonar. «Como ele, senti a proximidade da morte.» O pai autorizara que ela usasse memórias suas no livro As Tristezas de um Americano (2008). A filha chegou a teclar cartas dele, combatente na II Guerra, para interiorizar fisicamente o sentimento dos flashbacks descritos.
O envolvimento emocional intenso com a escrita paterna pode ter estado na origem do «ataque». Quando ela se preparava para dar voz às palavras, deu-lhes corpo. «A história da mulher que treme é a narrativa de um evento que se repete e vai ganhando, ao longo do tempo, múltiplos sentidos, consoante a perspectiva.» Podemos não controlar o que nos acontece, mas faz toda a diferença ligar pontas soltas do «Eu» nessa história, e conta-la, de forma articulada, a um «Tu». 

Um dia, a mente deixa de responder ao que se passa no corpo e tudo parece perdido. Ou ganho, depois de passar pela experiência, com uma visão renovada. Para a activista política Naomi Wolf, autora do best seller O Mito da Beleza, nos anos 90, o «click» deu-se aos 46 anos. «Enquanto fazia amor, e nos momentos seguintes, deixei de sentir-me física e emocionalmente conectada e, em vez disso, sentia uma dormência interna». Este foi o ponto de partida para o seu novo livro, Vagina: A Cultural History. Num artigo ao jornal britânico The Sunday Times, Naomi afirmou que o seu problema foi uma oportunidade para ganhar uma nova consciência sexual, com a ajuda clínica, mas não só.   
A jornada começou no gabinete de ginecologia. Os testes ditaram o diagnóstico: doença degenerativa na lombar, pela compressão vertebral nos pontos L6 e S1. A lesão, originada por uma queda, duas décadas antes, nunca tinha dado dores, até bloquear parte do nervo pélvico (que envia impulsos ao cérebro, activando a química do prazer e do amor). Daí a dormência e falta daquela euforia pós-sexo. A cirurgia era parte da solução. Na consulta com o especialista Jeffrey Cole, Naomi ficou a conhecer algo novo: «Cada mulher tem um nervo pélvico diferente; algumas ramificações centram-se mais na vagina, outras no clítoris ou, ainda, no períneo, o que explica as diferenças individuais da resposta sexual feminina.»
Sem estar à espera, Naomi encontrou a resposta para o clássico drama da insatisfação feminina. Se as diferenças nas terminações nervosas pélvicas são puramente físicas, deixa de haver discussão sobre orgasmos de primeira e de segunda. O mistério está na anatomia e circuitos neurais de cada mulher. Isto é algo que devem gostar de saber as 30% de mulheres ocidentais que referem não ter prazer com o sexo. «Em vez de julgar-se ou culpar-se por algo não funcionar consigo, explore as suas ligações neurais e deixe-se guiar por elas.»

O prazer de fazer amor e o sentimento de êxtase 2-em-1, voltaram. Depois do alinhamento das vértebras, Naomi recuperou, em alguns meses, a sensibilidade que julgava perdida. Durante esse tempo, quis aprofundar o assunto e frequentou os cursos de Mike Lousada, um terapeuta de sexo tântrico. «Os tântricos abordam a sexualidade feminina com respeito, como se fosse sagrada», revelou à imprensa. Na sua obra, disserta sobre o potencial do órgão sexual feminino, uma porta de entrada para o autoconhecimento e a comunhão mística.  
As críticas não se fizeram esperar. Numa edição do The Guardian, por exemplo, ironizava-se com a mulher em crise da meia-idade que usava a ciência a gosto, para legitimar questões de ego.
naomiwolf.org

50 anos, ascendência americana e romena
Formou-se em Artes e Literatura Inglesa, nos Estados unidos
Autora, jornalista e defensora da liderança e libertação sexual das mulheres
Foi consultora de Al Gore e Bill Clinton nas suas campanhas presidenciais 
Vive com o produtor de cinema Avram Ludwig
Insight: «As mulheres americanas têm sido tão controladas por ideais e estereótipos como por limitações materiais»


Naomi Wolf, a mulher que personificou o movimento feminista de terceira geração, nunca escondeu as suas posições acerca do corpo, da vida privada e das questões de consciência social, por mais controversas que fossem. O gigante Apple também não escondeu que, em pleno século XXI, censura palavras como a que titula o livro. Na sinopse pode ler-se: «V****a. Um trabalho surpreendente que muda radicalmente a forma como pensamos acerca da v****a». Ironicamente, o texto termina com a autora a interrogar «porque é que, mesmo num mundo cada vez mais sexualizado, a v****a é vista como uma ameaça, ou se pensa nela como algo ligeiramente vergonhoso».
Nas redes sociais, alguns dos comentários destacaram o paradoxo: se é de um termo médico que estamos a falar, como querem, afinal, que lhe chamemos?  

Texto publicado na Revista Máxima (Fev 2013)




domingo, 17 de fevereiro de 2013

Entrevista


Mariela Michelena, Psicanalista e escritora

'As mulheres repetem erros vezes sem conta'

O fim de um amor obriga-nos sempre a fazer o luto e a atravessar um deserto, para que possamos seguir em frente, diz a autora de É Possível Esquecer-te, num aviso, sobretudo, ao género feminino

Publicado na revista Visão em 21 de Janeiro de 2013 (excertos)



A incapacidade de alguém de se desligar de um mau relacionamento é iliteracia emocional?
Sim. Porque se ignoram necessidades próprias e se repetem, vezes sem conta, os mesmos erros, sem nunca se encontrar o que se procura. É, sobretudo, o caso das mulheres, para quem a vida afetiva é mais importante, embora haja alguns homens que também passam por isso.

Quem deixa tem o fardo aliviado?
Não é bem assim, porque carrega nos ombros a responsabilidade em relação ao passado e ao futuro. A vantagem é levar o luto meio feito, por ter vivido antes o sentimento de culpa, o sofrimento de mal-estar, numa relação defunta, a decisão de concretizar o funeral.

Mas há formas, menos óbvias, de colocar o ponto final...
O registo "esquece-me tu que eu não consigo" é frequente nos homens, por terem um vocabulário afetivo mais pobre e lhes custar pôr as cartas na mesa, lidar com as discussões. Isto significa trabalho a dobrar para elas, chamar as coisas pelos nomes. "As coisas não estão bem, assim não pode ser", dizem, servindo-lhes, a eles, o pretexto: "Já que é isso que queres, vou-me embora."

Que implicações resultam de uma pessoa desaparecer da vida da outra, sem aviso prévio?
Numa situação difícil, as pessoas dão a cara. Discutem e fazem acusações, na tentativa de entender o que está a passar-se. Evaporar-se sem aviso é bastante cruel e narcisista, porque se fica mais presente do que nunca na vida mental do outro - pela ausência -, forçando-o a colocar na história as palavras jamais ditas por ambos.

O que pode impedir um luto amoroso? 
A negação. "Não pode ser", "dou-te um tempo". Incapaz de aceitar um não como resposta, o abandonado insiste em manter tudo na mesma. A gota nunca transborda do copo. É uma espera inútil, que adia o luto.

Quanto tempo é preciso para mudar padrões doentios de relacionamento?
Não se faz em dois meses. A experiência de psicanalista diz-me que é preciso mais tempo. O inconsciente existe e há muitas coisas que não controlamos. Quem me procura já passou por outros tipos de terapias e não encontrou o que buscava. Refiro-me à compreensão do sofrimento humano, do que nos acontece.

Discorda das terapias rápidas?
Vendem mais a ideia de que todos podemos e conseguimos pensar positivo. É como pintar uma casa de branco e pôr almofadas novas, quando a canalização continua por arranjar. Há muita gente que não se sente identificada com este discurso e que só encontra consolo em algo mais profundo

O que diz a quem a procura, após tudo o que experimentou ter falhado?
É necessário passar pelo túnel para ver a luz. Se o medo for muito, há que pedir a mão a um terapeuta. Este meu livro pretende ser essa mão que acompanha a passagem pelo luto.

Misturar o tom académico e o "registo pop" de autoajuda já lhe trouxe dissabores?
É um erro comum os psicanalistas viverem fechados no seu mundo e falarem numa linguagem cifrada. A Psicanálise descreve a vida. Freud falava do quotidiano e escrevia livros de divulgação. Se fosse vivo, estaria no Facebook e teria um programa de TV.

Ler mais em: Revista Visão

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sexo no feminino

Jornalista, casada há 18 anos e com um filho, Sylvia de Béjar publicou mais de uma centena de artigos sobre relações de casal, sexualidade e psicologia em diversas revistas.
O seu livro é um convite à descoberta de si, nos relacionamentos íntimos.
Por Clara Soares

O que a motivou a escrever, num estilo tão directo e pessoal?
Li muito, consultei vários sexólogos e ginecologistas, falei com mulheres e escutei-me a mim mesma. Foi um ano e meio de trabalho que me absorveu completamente, a escrever e reescrever conteúdos, para ficar compreensível e sem falhas.

Quais foram as reacções ao livro?
Médicos e psicólogos têm-no recomendado aos clientes e chegaram a perguntar-me: “Como sabe isto?” Com conhecimento de causa, respondi: porque já experimentei com o meu marido. A resposta dos leitores – os homens também o leram! – não podia ser melhor. Para mim, também foi bom. Compensei tanto tempo de trabalho com uma semana de férias a dois num barco, em Ibiza, com muito amor e, claro, bom sexo (risos).

O que é o bom sexo?
A parte lúdica, que se joga por divertimento, de forma criativa e experimental. Como em qualquer jogo, só depois de se jogar – de se provar, no caso do sexo – é que se descobre do que se gosta e não se gosta, e se pode escolher modalidades, sem ter de repetir as que não agradam!

Isso não acontece na prática?
Acontece muito menos do que deveria acontecer. Muitas mulheres com quem falei levam muitas coisas para a cama e, quando estão a fazer amor, não tiram o devido partido do momento. Porque não se sentem à vontade e pensam no que está errado com elas, porque ficam ansiosas por poderem transpirar, por não terem as medidas que acham que deviam ter, entre outros detalhes. Com isso esquecem o lado divertido. Comportam--se como se não tivessem direito ao prazer. A atitude delas contrasta com a do sexo masculino, muito mais focado no gozo do que na mente.

As mulheres continuam prisioneiras da imagem?
É um facto. Quanto mais preocupadas, menos atentas à sua satisfação sexual. Por exemplo, uma mulher preocupada em esconder uns quilos a mais, quando se despe, não está totalmente presente. O parceiro sente e isso não é agradável. Gostaria que um homem que está a fazer amor consigo lhe dissesse: “Já viste a minha barriga?” Eles não vêem a celulite como nós, os pêlos, as estrias, querem alguém que esteja ali, envolvida no que está a fazer. Eles sentem-se valorizados com uma mulher que consegue entregar-se com gosto.

A falta de desejo delas tem a ver com o facto de os homens ignorarem aquilo que as satisfaz na intimidade? Numa sondagem feita em Espanha, verificou-se que 10% dos homens, independentemente da idade, afirmavam que procuravam dar prazer às suas parceiras. Perceberam que existem outros tipos de estimulação além do coito. O tempo que dura e as vezes que se faz são aspectos secundários.

A corrida ao orgasmo não é obrigatória...
O melhor é o durante. Muitas mulheres preferem satisfazer-se sozinhas porque não se satisfazem com os parceiros que já tiveram.

A monotonia conjugal é incontornável?
A sedução é uma capacidade que todos temos e requer inovação. Às vezes, basta passar a noite num lugar diferente, outras pode-se ficar pelo prazer de uma simples massagem, sem ter de fazer mais nada. Mas há também o dia em que um pode tocar mas o outro não. Quando se introduz um elemento de diferença, fazer amor ganha um sabor especial.

O que pode comprometer a espontaneidade no sexo?
Já pensou porque é que mais de metade das mulheres não deseja ter sexo com o cônjuge? Porque não se divertem. Nunca aprenderam, não sabem. A vida sexual é um processo que se aperfeiçoa ao longo da vida. Eu mesma, aos 40, gosto de coisas que antes não apreciava e de outras que nem sabia que existiam ou não me atrevia a dizer.

Por exemplo?
As fantasias. Muitas mulheres temem assumir que gostam de se sentir dominadas pelo homem quando fazem amor. Outras até o confessam às amigas, mas não a ele, por recearem que ele fique intimidado. Outras ainda por vergonha.

Que pensa do sexo sem envolvimento afectivo?
O sexo vale a pena se for feito com consciência e se tiver qualidade. Em nome do amor, muitas mulheres têm uma vida sexual sem qualidade. Amor e sexo não são a mesma coisa. O sexo com amor é a melhor coisa. Mas amor com mau sexo não é a mesma coisa.

Que sugere às mulheres que não se sentem sexualmente realizadas?
Que apostem numa atitude mais activa. Não adianta trocar de parceiro, imaginar que vai aparecer o Príncipe Encantado com a fórmula do prazer. A liberdade também é uma conquista pessoal a fazer, aprender a desfrutar-se, a tirar partido de si, e não apenas cuidar do lado cosmético.

Sylvia dixit
• O sexo começa no cérebro (a imaginação é um afrodisíaco)
• Prazer e autocensura não combinam
• A reconciliação com o espelho é vital para se sentir sexy
• Sexo e coito não são sinónimos
• A penetração vaginal não é suficiente (na maioria das mulheres) para alcançar o clímax
• 7 em cada 10 mulheres atingem o orgasmo pela estimulação do clítoris
• A estimulação manual (masturbação) é tão importante como outras práticas sexuais
• Sem conhecer bem o corpo (e o que o satisfaz) não se é dona da sua sexualidade
• Orgasmo e ejaculação masculina não são sinónimos (eles podem ejacular sem ter orgasmo ou alcançá-lo sem ejacular)
• Não há modelos sexuais ideais: cada mulher (e cada homem) deve criar o seu
• No sexo, querer controlar tudo é o mesmo que não se permitir desfrutar e aprender
• Pornografia, brinquedos sexuais, cibersexo e fantasias não são interditos, mas complementos saudáveis do prazer
• O bom sexo (oral, anal, coital) não é algo que lhe acontece mas algo que fazemos com que aconteça

Excerto de entrevista publicada na revista Máxima (2002)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Sou Bissexual. É normal!

A cortina de ferro entre heterossexuais e homossexuais está a ruir.


"Sou bi. E daí?”

Clara Soares
Há quatro anos, a cantora brasileira Ana Carolina revelou publicamente a sua preferência por ambos os sexos, garantindo ser mais feliz assim. A cantora canadiana Alanis Morissette já o havia feito, pouco tempo antes, e a onda de revelações começou a ganhar corpo. Na música, Ricky Martin, Pink, Netinho. No cinema, Angelina Jolie, Lindsey Lohan, Tila, Megan Fox. Esta terceira via, que desconcerta a mentalidade dominante – “É-se uma coisa (hetero) ou outra (gay)” –, começa a conquistar um espaço próprio nas conversas, nos fóruns virtuais, nas vidas privadas e nas mentalidades. Séries (Anatomia de Grey, Letra L, Sexo e a Cidade) e filmes (Henry & June, Batman, Matrix, Vicky Cristina Barcelona) não dispensam personagens sexualmente ambíguas. A bissexualidade é um fenómeno passageiro, um problema de identidade ou o reflexo de uma nova atitude nos relacionamentos?


Desde a Antiguidade Clássica que há registo desta forma de relacionar-se. Nos anos 40, o primeiro grande estudo sobre sexualidade humana, liderado pelo investigador Alfred Kinsey, revelou que nove por cento dos americanos eram bissexuais. E desde 1993 que estas orientações deixaram de constar na Classificação Internacional de Doenças, como transtornos de personalidade. O que antes se considerava desviante é hoje uma opção comportamental, decorrente daquilo que uma pessoa sente (mais do que o que faz e com quem). Após a emancipação das mulheres e a conquista de direitos dos gays, a ambiguidade sexual é a nova fronteira a explorar. Ou a temer, constituindo uma ameaça à ordem social estabelecida. Apesar dos movimentos activistas e do Dia da Celebração Bissexual (23 de Setembro), sentir envolvimento físico ou emocional sem a barreira do género é ainda uma ficção para o comum dos mortais.


Homens e mulheres parecem ter representações mentais distintas acerca da sua identidade sexual, tida como mais ampla. O psiquiatra Júlio Machado Vaz admite que nenhuma teoria é satisfatória neste campo e esclarece: “Sim, a bissexualidade existe, mas é normal que angustie; não é por acaso que, até há algum tempo, certos grupos homossexuais consideravam que os bissexuais eram gays não assumidos.” Membro da Sociedade de Sexologia Clínica, Machado Vaz adianta que esta orientação é menos angustiante e ameaçadora para a identidade no caso das mulheres. Camille Paglia, autora de Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson (1990), refere que existem mais mulheres bi do que homens: elas têm maior apetência para integrar sexo e afecto e com menos traumas.

Independentemente das diferenças de trajectória, o número de homens e mulheres que optam pela ambiguidade sexual está a ganhar visibilidade e há quem assegure tratar-se de uma nova revolução (e não de uma mera tendência): a da flexibilidade e da abrangência, afectiva ou sexual. Maria del Mar, psicóloga e terapeuta holística, em Lisboa, refere que nos últimos oito anos tem acompanhado homens e mulheres de 30 e 40 anos que descobriram a sua bissexualidade, geralmente na sequência de fracassos amorosos. “Começam por viver [mais elas do que eles] uma relação homossexual intensa que dura, em média, três a cinco anos; aí encontram uma forma de satisfazer necessidades que não conseguiam preencher, até então, com o sexo oposto (nem no seio da família de origem).” Uma opção compensatória natural que, embora enriquecedora, leva tempo a ser admitida e vivida com harmonia e maturidade no quotidiano, acrescenta.


A última tendência na comunidade científica encaminha-se para a hipótese de estarmos a assistir, globalmente, a uma postura mais aberta face à atracção, ao amor e aos relacionamentos. Em entrevista à BBC, o médico e ex-ministro da Saúde italiano, Umberto Veronesi, considerou que “será, em três gerações, apenas uma demonstração de afecto, rumo à bissexualidade.

www.maxima.pt

Amizades coloridas

“Queres sair comigo hoje?” Há algumas décadas, a pergunta poderia abrir caminho a uma sequência de expectativas que, na melhor das hipóteses, levaria a um hipotético compromisso futuro e, na pior, se ficaria por uma amizade com futuro incerto.



Por Clara Soares
Amizades coloridas
Fernando e Glória, dois trintões bem-dispostos, livres e urbanos, decidiram sair juntos, sem o grupo de amigos ou colegas de trabalho, para tomar um copo ao final da tarde. Ela, mais cautelosa, sugeriu uma esplanada que sabia não ser frequentada por pessoas conhecidas, “para evitar mexericos”. “Logo ali, dei-me conta de um quê de clandestinidade implícito, mesmo que, conscientemente, não tivesse a intenção de um encontro romântico”, lembra Glória. Repetiram a dose uma semana depois e gostaram daquele novo ritual nas rotinas de ambos, feito de trocas de impressões dos respectivos locais de trabalho, histórias e gostos pessoais, pormenores do quotidiano.


Já lá vão três anos de uma sólida amizade, sem haver propriamente regras definidas. “Às vezes, passava-se um mês em que não nos víamos e tínhamos por hábito manter uma certa leveza nos encontros”, explica Glória. E finalmente, a confissão: “Por três ou quatro vezes, tivemos sexo casual.” Glória já teve dois compromissos duradouros e admite que, de momento, não tem em vista uma pessoa suficientemente interessante para partilhar o quarto. Porém, isso parece não incomodá-la particularmente. “Vivo o momento e sei que ele também faz o mesmo. Ambos sabemos que é só sexo e não queremos mais do que isso – nem passar de amigos a namorados, porque nunca foi esse o registo.”

Este “registo”, que vive das (in)certezas de cada dia, marca cada vez mais uma progressiva faixa de pessoas, que não se privam de ter prazer só porque não têm uma relação (como manda – ou mandava – a regra). E se um deles encontrar um parceiro fixo? Estes encontros “em aberto” terão os dias contados? “Não sei”, responde Glória. A verdade é que não pensa sequer nisso, deixando que o momento dite a regra e aceitando, como até agora, as vontades de cada um, sem se forçar ou forçar o outro. “Às vezes, não é fácil”, conclui. “Mas pior seria se nos privássemos de todo, quando nos apetecer a ambos.”

Há ainda quem vaticine o fim do mito da monogamia – não faltam livros sobre o assunto – e a tónica desloca-se agora para um fenómeno emergente, que dá pelo nome de amizades coloridas. O termo nasceu no Brasil e aplica-se para designar relações em que o compromisso fica de fora. “No strings attached”, dizem os americanos. “Sexo com companhia”, dizem os que conhecem por dentro a experiência, mas que ainda não ousam falar disso abertamente ou usando o nome verdadeiro, como os casos anteriores. Afinal, trata-se de uma minoria que nem sequer foi alvo de estudo estatístico ou qualitativo. Porém, revela-se nas conversas de bastidores com pessoas de confiança, que “não vão dar com a língua nos dentes”, por assim dizer.

As regras do jogo são tácitas e nem todos terão perfil para jogá-las. Uma delas é não assumir, à boa maneira do adultério. Talvez por isso sejam mais comuns em faixas etárias superiores aos 30, quando já se tem uma noção de si mais diferenciada, com mais “calo”, e se passou pela turbulência de amores e desamores.

O médico Pedro de Freitas, especializado em Saúde Mental e Sexologia Clínica, confirma este fenómeno. Nas consultas de psicoterapia a que se dedica há vários anos, alguns dos pacientes mencionam "en passant" este tipo de amizades, que funcionam, no entender dos visados, como complemento de uma vida que se quer bem vivida e sem culpas.

“Não posso traçar um perfil, mas consigo afirmar que são mais frequentes em pessoas entre os 35 e os 40 anos, com percursos profissionais bem sucedidos, que já tiveram um ou mais relacionamentos estáveis e não pretendem continuar nesse registo.” Ao clínico, admitem que se sentem confortáveis em amizades, de longa data ou recentes, que por vezes evoluem para “cenas de cama, frescas, discretas e sem segundos pensamentos” (neste caso, de afectos ou compromisso futuro). A leitura que o médico faz deste padrão “não formal” é a seguinte: o medo de um novo fracasso leva-os – homens e mulheres – a fugir do envolvimento, mantendo a actividade sexual sem amarras, com pessoas que conhecem bem.

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Auto-estima: o que ela pode fazer por si


Não estar a par do vocábulo é estar out. Para que serve e por que se fala tanto nela, como de um parceiro para a vida? ...
Por Clara Soares

Publicado na revista Máxima, Agosto de 2010

http://www.maxima.xl.pt/Conhecerse/DetalheConhecer/tabid/313/itemId/412/Default.aspx