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quinta-feira, 19 de junho de 2014

«A cultura ocidental insiste em associar a masculinidade à mente e a feminilidade ao corpo»

A escritora e ensaísta americana Siri Hustvedt desafia-nos a mergulhar no fascinante mundo da complexidade humana, ambígua por natureza, sem medos nem barreiras, incluindo as de género VEJA O VÍDEO 

(texto publicado na VISÃO 1108, de 29 de maio 2014)

«Todo o trabalho intelectual e artístico tem mais sucesso na mente da multidão, quando a multidão sabe que, algures por detrás da grande obra, ou do grande embuste, se encontra uma pila e um par de tomates.» Palavras de Harriet Burden, a personagem central de Mundo Ardente (ed. Dom Quixote, 463 págs., €22,90). O sexto romance de Siri Hustvedt conduz os leitores ao universo de uma artista plástica que, menosprezada no meio intelectual nova-iorquino, põe em marcha um plano arrojado: oculta a identidade e esconde-se por detrás de três homens que assinam e expõem o seu trabalho, com o intuito de desmontar preconceitos vigentes.
Deixemos agora o alter ego da autora e passemos à própria, com quem a VISÃO conversou no Bairro Alto Hotel, em Lisboa. As calças de fazenda, os sapatos de salto raso e a ausência de acessórios conferem-lhe um estilo casual chic e realçam o seu porte alto, magro e, aparentemente, frágil. "Não quero que isto soe como banal, mas gosto muito de cá estar", admitiu, no final da entrevista.
Quando vem a Portugal, sente-se em casa (a última vez foi em novembro, para o Lisbon & Estoril Festival, acompanhada pelo marido, o escritor Paul Auster, e a filha, a cantora Sophie Auster): "Os portugueses têm bom coração, não são nervosos, desagradáveis e competitivos." 
Ao longo de 40 minutos e sem papas na língua, contou-nos o que pensa de mundos que conhece bem. Arte. Escrita. Neurociência. Psicanálise. Temas recorrentes nos seus livros, onde coabitam múltiplas vozes, de forma tão fluida quanto ambígua, por ser assim, acrescenta, "que tocamos a profundidade das coisas".

Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. É este o seu lema?
Quando escrevo, mergulho nas personagens e torno-me nos seus múltiplos eus. Associar um nome masculino a uma criação artística, realça-a. Se a autoria for feminina, denigre-a. Não tenho dúvidas de que isto existe e está longe de acabar. Numa assinatura, as iniciais são uma maneira de esbater o género.

As suas heroínas, ou alter egos, refletem isso?
Escrevi duas vezes como homem. No primeiro romance, Iris (anagrama de Siri) veste-se de homem, é a armadura dela. Em Elegia para um americano, Burton veste-se de mulher e o narrador descreve-o como um homem que está a voltar a si. Os meus livros estão cheios de transformismo (vestir-se como sendo do sexo oposto). Esta é a primeira vez que a história é contada através de vinte vozes.

As heroínas submissas continuam em alta. Basta lembrar o estrondoso sucesso de As Cinquenta Sombras de Grey.
[Altera a expressão e faz uma pausa, antes de responder] O sucesso dessa obra está além da minha compreensão! Neste livro quis criar uma personagem colossal. Um monstro, não no sentido de Frankenstein, antes alguém que não cabe em nenhuma categoria. Harriet (ou Harry) foi antecedida por Margaret Cavendish, a poetisa, encenadora e filósofa naturalista do século XVII, com quem a personagem se identifica, e que foi praticamente rejeitada no seu tempo.

Se vivesse noutro tempo, seria não um monstro mas uma bruxa destinada à fogueira.
No ensaio O Meu Pai/Eu Mesma menciono a relação entre a Bruxa e Joana d'Arc, feita pela antropóloga Mary Douglas. Há um momento [em O Mundo Ardente] em que Harriet diz: "Na vizinhança chamam-me bruxa. Eu aceito."

Lançou a sua obra no atelier de Joana Vasconcelos, o que vê na obra dela?
Gosto particularmente das peças em que usa o croché, muito feminino. Há muita coragem no que ela faz.

Teve um irmão imaginário e fantasiava ser rapaz. Ser mulher ainda é como usar corpete?
[Sorriso enigmático] Surpreende-me como é que a cultura ocidental insiste em associar a masculinidade à mente e a feminilidade ao corpo, na vida pública, doméstica, emocional e pessoal. Não acredito na visão cartesiana, que separa corpo e mente.

Como lidou com isso, durante o longo processo de tratamento da enxaqueca e das convulsões com causa indefinida, após a morte do seu pai?
É um problema crónico que controlo relativamente bem. Aprendi exercícios de relaxamento profundo, para aliviar a dor. As auras são interessantes e não me importo de tê-las. Creio que o envelhecimento e as mudanças hormonais tiveram um efeito positivo nas dores de cabeça. Durante muito tempo eu fui controlada por convulsões, tive uns cinco episódios. A minha neurologista leu A Mulher Trémula ou Uma História dos Meus Nervos (não ficção, 2010), concorda comigo: os diagnósticos foram sempre ambíguos.

Ambiguidade é um termo presente em todas as suas obras. Que valor tem para si?
É o meu chamamento estético e intelectual. Acredito que a complexidade da natureza humana não cabe num único modelo teórico e situa-se em zonas focadas de ambiguidade. O mesmo problema é visto de múltiplas perspetivas e não há uma só resposta, é fascinante.

A psicanálise e a neurociência marcam presença constante no seu trabalho. Porquê?
Sempre me interessei por descobrir como é que as pessoas se tornam, a cada momento, naquilo que são e estes campos lidam com a expressão do Eu.

E consegue dar conta de tudo o que lê e investiga, sem se esgotar?
A memória guarda o que é emocionalmente significativo, por isso não esqueço. Consigo assimilar muita coisa e aprender bastante, porque tenho a sorte de poder passar a maior parte do meu tempo a escrever e a ler em casa. Faço-o durante seis horas e, depois de uma pausa, leio quatro horas à noite. Exercito o corpo quatro vezes por semana com um profissional, vou às compras, faço jardinagem.

"Só vemos a arte quando ela nos altera emocionalmente." Quer explicar?
Não existe uma definição consensual do que é a arte. Ela força o espetador, o leitor ou o ouvinte a reconhecer qualidades maravilhosas na existência mundana. É o caso da pintura de Vermeer, Leitora à Janela: sinto-me transportada. Ele tem a capacidade de tornar uma coisa banal numa realidade transcendente.
A arte é sempre uma dádiva e um diálogo.

Esse diálogo acontece na ficção? Ou fora dela?
Como não há soluções finais para as respostas que procuro, a melhor forma de fazê-lo é na ficção. Posso apresentar ideias, a várias vozes, encenar argumentos que não estão resolvidos. A Mulher Trémula, por exemplo, foi o veículo perfeito para expor a minha obsessão com o fisiológico e o mental. Começa por ser um alienígena e acaba como algo que me pertence, Os Meus Nervos. A jornada faz-se do distanciamento para a proximidade, pela biologia e ritmos do corpo, que se conjugam com a narrativa acerca deles.

Freud estava certo, pelo menos em parte, no seu Projeto [Para uma Psicologia Científica, 1895] da mente?
A teoria da mente que ele não conseguiu validar é hoje confirmada pela neurociência, mas a divisão entre o fisiológico e psicológico não é uma solução satisfatória. Os modelos da psiquiatria biológica têm um problema: não são dinâmicos, os sintomas são tratados com fármacos, sem terem em conta outras abordagens.

Dá aulas de escrita criativa e já o fez com doentes psiquiátricos. O que pode dizer sobre isso?
Fui professora voluntária durante quatro anos e agora, a convite de um amigo, psiquiatra e psicanalista, estou a fazer palestras em Mainz, na Alemanha, sobre o Eu escritor e o doente psiquiátrico. Os pacientes psicóticos têm dificuldades com a narrativa e, sem ter a pretensão de convertê-los em escritores, a ideia é codificar o uso da escrita com fins terapêuticos.

Como vivem dois escritores na mesma casa, com as personagens de ambos?
Temos esta família de seres ficcionais que partilham vidas. Eu e o Paul [Auster] sabemos o que se passa com cada um durante o dia. "Eu escrevi uma página hoje, tive um dia terrível." O outro diz: "Quando é assim, no dia seguinte é melhor." Fazemos isto há décadas e estamos a envelhecer juntos, agora que a nossa filha já tem o apartamento dela.

Mudou alguma coisa com a saída de Sophie?
Não houve propriamente um luto. Ela está bem e eu nunca fui mãe-galinha. A minha mãe também não era. Talvez tenha a ver com as nossas raízes escandinavas, a reserva e o respeito pela privacidade do outro.

O que significa a palavra "casa", para si?
É uma boa pergunta. Continuo a viver em Brooklyn, pelo menos enquanto conseguir subir e descer escadas. É o lugar onde vivo, trabalho e tenciono escrever os romances que tenho em mim.

E não se cansa desse processo?
A única coisa que me cansa e entedia é quando estou no aeroporto à espera das malas, porque não posso ler. Nunca me entedio com as minhas vozes.

Como Fernando Pessoa.
Sim, ele também as tinha, embora um pouco loucas! [Solta uma gargalhada]. Ele e Kierkegaard são exemplos dos múltiplos eus que temos e nos tornam outros.

Para muitos, isso é assustador.
Sim, é verdade, mas também é emocionante! Sem isso, e alguma fluidez interna, raramente se consegue tocar a profundidade das coisas.

BI. ESCRITORA E ENSAÍSTA

Com ascendência norueguesa, nasceu e cresceu nos Estados Unidos e vive em Brooklyn, Nova Iorque, com o escritor Paul Auster: celebram 33 anos de casamento, em junho.
Doutorou-se em Literatura Inglesa, na universidade de Columbia, e experimentou vários ofícios, desde empregada de bar a assistente de investigação médica. 
Decidiu ser escritora aos 13 anos. Aos 59, é uma best seller premiada, na ficção e não ficção, com ensaios, palestras e artigos sobre filosofia, arte e neuropsicanálise.
Esta área levou-a a envolver-se ativamente em grupos de investigação académica e a participar em conferências sobre a consciência, como a realizada há três anos, em Berlim, ao lado do neurocientista António Damásio.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Quem sou Eu (na rede)?

Sexo – Entrevista 

Ana Cristina Santos*
Socióloga no Centro de Estudos Sociais (CES) da universidade de Coimbra



(foto: Elsa Almeida)  
«Não podemos ter vários compartimentos fechados à chave» 

Doutorada em estudos de género, a investigadora aceitou o convite da VISÃO e analisa as implicações da expansão das categorias de género para mais de 50, propostas pela maior rede social do mundo, o Facebook (FB). Será, também ela (ou ele? ou @?), o grande laboratório social que vai revolucionar, outra vez, as nossas vidas?
Clara Soares

A diversidade de género é uma realidade conhecida e aceite em Portugal?
A atribuição do género é feita com base numa avaliação genital e na socialização, numa lógica dicotómica. Não há uma tradição de questionamento, ele só acontece quando o género não coincide com o sexo biológico.

As categorias de género do FB expressam novos fenómenos sociais ou a consciência do que já existia?
Há mais noção de que o modelo dicotómico não conta a história toda. Foi usado pela medicina com o objetivo de classificar, conhecer e controlar a diversidade mas esta não se compadece com modelos restritos. Agora, assistimos à explosão pública do desconforto silenciado há décadas, sobretudo por movimentos sociais que dão voz a estas demandas. A diversidade sempre existiu, a visibilidade que assume é que é nova.  

Este elenco de categorias de género – mais de 50 – é credível?
As categorias não são mutuamente exclusivas. Uma pessoa que seja mulher transexual, pode situar-se na categoria MTF (male to female) mas também na Transgénero. Há algumas designações que já estão a entrar no léxico, como o Cisgénero, mas outras nem tanto, como o Neutrois (sem tradução para português). É uma área em constante expansão, com grande margem para a subjetividade. 

Sem haver uma intenção científica, qual o alcance da proposta do FB?
O elenco foi feito após auscultação de pessoas que trabalham nesta área. Questionar o pensamento dicotómico gera inquietação, que estas categorias visam colmatar, dando nome e legitimidade a realidades que existem, permitindo que as pessoas se vejam descritas como se auto percecionam. O que se passava até aqui era as pessoas encontrarem opções muito limitadas, e com as quais não se identificavam, quando preenchiam o seu perfil.  

Se a funcionalidade do FB chegar a Portugal, há maior risco de se criarem identidades fictícias (avatares)?
O que está pensado pelo FB é alargar a possibilidade de identificação fora do âmbito masculino v.s. feminino a outros países, trabalhando com pessoas noutros contextos geográficos. O pior que podia acontecer era importarmos um modelo globalizado sem levar em conta as geografias variáveis da sexualidade. Quanto às ficções identitárias, isso também acontece com o modelo dicotómico e são situações residuais.

Quais as implicações desta maior liberdade de escolha?
Não podemos ter vários compartimentos fechados à chave. Os seres humanos estão em construção e são sujeitos a múltiplas transformações ao longo da vida. Nascemos com um carimbo que nos é atribuído por outrem. À medida que vamos crescendo vamos construindo a nossa identidade sexual. Por muitas categorias que existam, não são imutáveis. Alargando categorias, alarga-se também a perceção social. As fronteiras ficam mais ténues e ainda bem que assim é. Essa liberdade deve ser aceite e respeitada.  

Ainda se confunde orientação sexual e identidade de género?
A orientação sexual refere-se à atracção, desejo e afetos, independentemente da identidade de género. Esta descreve a forma como cada pessoa se identifica: masculino, feminino, ambos, ou nem uma coisa nem outra. O género não é orientação sexual, descreve expectativas e papéis socialmente atribuídos à pessoa. É esperado, por exemplo, que as mulheres biológicas tenham menos força física que os homens biológicos. São ideias ancoradas em estereótipos, sem sustentação sólida.   

Se combinarmos as duas variáveis vamos ter muitos desfechos possíveis. É um problema?
Tudo isto se vai complexificar. Basta pensarmos que há pessoas que se definem como assexuais. Ou intersexo. São situações de grande vulnerabilidade para as crianças e famílias, que não sabem como lidar com isso. Há uma expectativa cultural, e médica também, no sentido de pressionar para uma decisão, sobre se a criança será construída como menino ou menina. O entendimento, a nível internacional, é que essa decisão não deve ser tomada, antes deixada para mais tarde, quando a pessoa já tiver uma noção sobre si. E poupá-la a situações de grande mal-estar, resultantes de intervenções não autorizadas sobre o seu corpo. Em Portugal, este assunto ainda é pouco discutido. 

E qual seria o nome próprio? Em Portugal não temos praticamente nomes neutros.
Temos leis muito estritas. Elas determinam que o nome não pode suscitar dúvidas em termos de género. Depois há a questão da língua: a inglesa presta-se mais essa neutralidade, mas a portuguesa é muito pouco inclusiva. Há um pensamento binário na língua, na liberdade de dar um nome a uma criança e no regime dominante de género, que se exerce com a cumplicidade das autoridades médicas, entre outras instituições.  

Como se muda esse cenário?
Começando por respeitar a dignidade humana: reportarmo-nos às pessoas pela forma como elas desejam ser designadas, sem entrar em juízos de valor. E assumir que a diversidade é uma mais-valia, um recurso que deve ser protegido, mais do que tolerado.

Há quem veja na proposta do FB uma estratégica dirigida aos jovens que, segundo um estudo, estariam a preterir esta rede em favor de outras. Quer comentar?
Esta é uma iniciativa meritória, sobretudo por permitir uma reflexão sobre algo que nunca é questionado. Basta pensar nos formulários preenchidos nas finanças, num consultório médico, que só têm duas opções e nem contemplam a possibilidade de «outros» [géneros]. À boleia do FB, há toda uma perplexidade que emerge: o que antes era considerado uma disforia de género, fica agora em pé de igualdade com outras categorias. O patamar que as torna equiparáveis é a auto identidade e isso tem um poder tremendo. Deixa de haver as legítimas e as outras. Simbolicamente, é um bom passo.


* coordenadora do projeto INTIMATE— Citizenship, Care and Choice: The Micropolitics of Intimacy in Southern Europe

Entrevista publicada na Visão online

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Stresse? É preciso ter calma...

I Diário de alguém 'stressado' 


«Estava a enviar uma mensagem e tocou o telefone. Era o miúdo a dizer que perdeu o comboio e vai chegar atrasado à escola. Vesti-me à pressa e fui buscá-lo à estação, levei-o para não levar falta. De novo o telefone. Já não vou à ginástica, senão chego atrasada à reunião da empresa. Falta comprara prenda de aniversário do marido. Estou com má cara e a sentir-me nervosa.»
(...)
O que é que eu estava a escrever na mensagem? Oh, não! O carro não pega. Já não chegava o facto de ter de levar trabalho para casa e agora isto. O melhor é comprar um bolo, não vou a tempo de fazer o jantar. Queria ter ido às finanças mas não houve tempo. E ainda fiquei de passar em casa dos meus sogros para os trazer para o jantar. Chamo um táxi. Telefone, de novo. É a colega de trabalho a dizer que me esqueci da carteira em cima da mesa. Que dia infernal.»
(...)
Podia ter corrido melhor, o jantar. O meu marido achou que eu estava com má cara. Deve pensar que já não lhe ligo como antes. Não admira, estou a ficar com mais peso, voltei a fumar, esqueço-me de tudo e só me apetece ficar no meu canto e que me deixem em paz. Doem-me as costas e tive uma quebra de tensão. Ando nisto há meses. E tempo para ir ao médico? As vitaminas que comprei não estão a funcionar. E o pior é que o meu chefe diz que ando a produzir menos. Se ao menos conseguisse dormir como deve ser...»

II 'Pssst, está na hora de parar e refocar'

No artigo publicado esta semana, na Revista Visão, fui ao encontro de cinco portugueses que contam quais os ajustes que fizeram para tornar as suas vidas mais leves e compatíveis com o seu modo de ser. Uns optaram por ganhar menos, em troca de mais tempo, outros apostaram numa profissão com horário e local de trabalho flexível. Há ainda os que preferiram investir na sua saúde, disciplinando rotinas - pessoais, conjugais e familiares - para ficaram com algum tempo de qualidade. Sem esquecer os que passaram a incluir no seu quotidiano alguns minutos diários de exercício físico, meditação e treino da atenção plena.
Um investigador da Universidade de Coimbra explica porque é que quando estamos tensos e com emoções negativas, acabamos por ter pensamentos que não correspondem à realidade e, apesar disso, nos afetam negativamente. Ou como o treino mental (atenção plena, ou mindfulness) nos permite restaurar a segurança e a paz de espírito, no meio da adversidade e dos momento difíceis. E aceitar o que não podemos controlar, em vez de sermos reativos e ficarmos piores do que estávamos antes.

Uma médica explica como a compaixão e os afetos conseguem fazer muito mais que a farmacologia, porque nem tudo se resolve com comprimidos, por melhores que eles sejam para nos facilitar a vida. Às vezes, é preciso ter uma experiência limite, como aconteceu com ela, e ir «ao tapete» para mudar de filosofia e investir no que é essencial, sem complicar. ´

Na dose certa, o stresse pode ser positivo, dando-nos o «empurrão» necessário para fazer o que precisamos ou desejamos fazer. Em demasia, desregula, produz sintomas e, se nada fizermos, acaba por trazer dissabores e até contribuir para a emergência de doenças crónicas, incapacitando-nos e atrofiando a nossa qualidade de vida.

III Dicas AntiStresse


Anda com dores ou picadas no peito? Não consegue concentrar-se? Tem dificuldades a relacionar-se com os outros e fica irritável ou frustrado com pequenas coisas? Sente que a sua vida escapa ao seu controlo e tem carga a mais para a sua camioneta? Tem momentos em que se sente em baixo e só lhe apetece fugir ou bater na primeira pessoa que lhe aparecer à frente? Tem reações que não reconhece como suas? Ou desliga a toda a hora, perdendo-se nas preocupações quanto ao futuro ou a ruminar no que já passou?  Não está a ter prazer na sua vida?

Talvez esteja no momento de fazer um ponto da situação e perceber o que pode fazer para «arrumar a casa». Comece por si: reduzir a velocidade, fazer pausas e respirar fundo, até sentir o corpo «arrefecer» facilita bastante e faz com que não entre em piloto automático. A mente também precisa de um «recycle bin». Que tal encontrar um momento do dia para sintonizar no seu próprio comprimento de onda? O que quer que lhe venha à cabeça, pode entrar e sair como entrou, desde que se coloque no papel de observador e, mais importante que tudo, sem tecer juizos de valor. Afinal, se aceitar as emoções negativas sem fazer nada, elas acabam por ser «escoadas» e a carga emocional tende a ficar reduzida.

Investir num passatempo, fazer um pequeno passeio a pé, quando vai despejar o lixo ou passear o cão, pode funcionar como um dois-em-um, ou seja, traz benefícios para o corpo e a mente. Se conseguir fazê-lo depois com um amigo, tanto melhor. Estar atento às suas necessidades é meio caminho andado para fazer o mesmo em relação aos outros e, a boa noticia, desenvolve-se com o treino.

Aos poucos, pequenos gestos que nem precisam de recursos financeiros, podem mudar a sua vida. Isto aplica-se à capacidade de estar presente no aqui-e-agora, ao colocar em pratica a disciplina e a gestão do tempo (delimitar/distribuir com  parcimónia o tempo dedicado aos mails, redes sociais, trabalho, família, etc). Se é um fervoroso adepto dos smartphones, saiba que pode valer-se ainda das aplicações para medir o seu nivel de stresse e outras que lhe permitem aprender a reduzi-lo, em momentos sos. Por fim, qualquer atividade que lhe faça bem ao espírito (da leitura a encontros com gente que partilha os seus ideais), só porque sim, será uma mais-valia para a sua saúde e bem-estar.    

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domingo, 10 de março de 2013

O Meu Corpo e Eu


Encontrar significado para sintomas pouco comuns é um exercício de descoberta pessoal, que a ciência só parcialmente explica e a sociedade nem sempre aceita

Duas mulheres famosas, uma romancista e outra activista, entenderam ter uma palavra a dizer sobre o que se passava no estranho mundo dos seus corpos, aos quais «aconteciam coisas». Dessas, que as ciências médicas diagnosticam e tratam, e de outras, menos óbvias. É humano: o sintoma tem sempre razão. Descobri-la é outra história. A ser bem contada, pode acabar nas páginas de um livro.    
«Em Maio de 2006, sob um céu azul e sem nuvens, ali estava eu [Minnesota, EUA] para discursar sobre o meu pai, que morrera dois anos antes. Assim que abri a boca, comecei a tremer violentamente. Tremi nesse dia e tremi outra vez, noutros dias. Eu sou a mulher que treme.» Assim termina o ensaio The Shaking Woman or A History of My Nerves (2010), da autoria da escritora americana Siri Hustved, companheira do também escritor Paul Auster. A experiência, aos 51 anos, abalou-a profundamente. Tudo correra bem na elegia fúnebre: «Quando chegou a hora, li o que tinha preparado, numa voz forte, sem lágrimas.» Agora, diante de uma plateia de convidados, no lugar onde o pai tinha sido professor universitário durante quatro décadas, também conseguiu ler o discurso até ao fim, mas incapaz de controlar o seu corpo a tremer, da zona do pescoço para baixo.
Durante dois anos, Siri dedicou-se, com afinco, à procura da explicação para o «estranho» que habitava nela, qual «duplo», que podia manifestar-se à revelia da sua vontade, do seu Eu. Procurou ajuda na medicina convencional e complementou a sua investigação com memórias e episódios biográficos marcantes.

 A sensação de «ser outra» não era nova. A escritora começou por aprender a falar norueguês, apesar de ter nascido em solo americano. Uma de quatro irmãs, cresceu na companhia de um irmão imaginário, chamado Erik, que viria a ter o papel de psicanalista, num romance seu. Com frequência, tinha episódios de enxaqueca, ataques febris e perturbações sensoriais. Em adulta, foi-lhe diagnosticada neuropatia periférica, comum em pacientes com enxaqueca. Siri convivia relativamente bem com tudo isto. Até entrar em cena «A Mulher que treme».
A hipótese de luto tardio estava fora de questão. Freud poderia diagnosticar histeria (hoje, perturbação de conversão). O psiquiatra equacionou uma desordem de pânico. O neurologista quis despistar a possibilidade de epilepsia. 
http://sirihustvedt.net/

57 anos, ascendência norueguesa
Doutorada em literatura inglesa, nos Estados Unidos
Romancista e ensaísta
Traduzida em 29 línguas, recebeu vários prémios
Casada com o escritor Paul Auster, a viver em Nova Iorque
Insight: «Ser doente depende do temperamento, história pessoal e cultura em que vivemos» 



As ressonâncias magnéticas que não acusaram nada. A solução para manter os malditos «ataques» sob controlo era tomar medicamentos beta-bloqueantes. A certa altura, a autora confessa ao leitor: «Fui seguida por uma psicanalista e uma neurologista, mas nenhuma me disse quem era a mulher que treme.»
Siri foi à procura dela. Frequentou, até, um grupo de neuropsicanálise e conheceu as pesquisas sobre neurónios-espelho, responsáveis pela empatia (sentir-se na pele do outro). Aí estaria, segundo ela, a chave do enigma. Na última semana de vida do pai, Siri pensava nele, antes de dormir, quando foi invadida pela sensação física de alguém com enfisema pulmonar. «Como ele, senti a proximidade da morte.» O pai autorizara que ela usasse memórias suas no livro As Tristezas de um Americano (2008). A filha chegou a teclar cartas dele, combatente na II Guerra, para interiorizar fisicamente o sentimento dos flashbacks descritos.
O envolvimento emocional intenso com a escrita paterna pode ter estado na origem do «ataque». Quando ela se preparava para dar voz às palavras, deu-lhes corpo. «A história da mulher que treme é a narrativa de um evento que se repete e vai ganhando, ao longo do tempo, múltiplos sentidos, consoante a perspectiva.» Podemos não controlar o que nos acontece, mas faz toda a diferença ligar pontas soltas do «Eu» nessa história, e conta-la, de forma articulada, a um «Tu». 

Um dia, a mente deixa de responder ao que se passa no corpo e tudo parece perdido. Ou ganho, depois de passar pela experiência, com uma visão renovada. Para a activista política Naomi Wolf, autora do best seller O Mito da Beleza, nos anos 90, o «click» deu-se aos 46 anos. «Enquanto fazia amor, e nos momentos seguintes, deixei de sentir-me física e emocionalmente conectada e, em vez disso, sentia uma dormência interna». Este foi o ponto de partida para o seu novo livro, Vagina: A Cultural History. Num artigo ao jornal britânico The Sunday Times, Naomi afirmou que o seu problema foi uma oportunidade para ganhar uma nova consciência sexual, com a ajuda clínica, mas não só.   
A jornada começou no gabinete de ginecologia. Os testes ditaram o diagnóstico: doença degenerativa na lombar, pela compressão vertebral nos pontos L6 e S1. A lesão, originada por uma queda, duas décadas antes, nunca tinha dado dores, até bloquear parte do nervo pélvico (que envia impulsos ao cérebro, activando a química do prazer e do amor). Daí a dormência e falta daquela euforia pós-sexo. A cirurgia era parte da solução. Na consulta com o especialista Jeffrey Cole, Naomi ficou a conhecer algo novo: «Cada mulher tem um nervo pélvico diferente; algumas ramificações centram-se mais na vagina, outras no clítoris ou, ainda, no períneo, o que explica as diferenças individuais da resposta sexual feminina.»
Sem estar à espera, Naomi encontrou a resposta para o clássico drama da insatisfação feminina. Se as diferenças nas terminações nervosas pélvicas são puramente físicas, deixa de haver discussão sobre orgasmos de primeira e de segunda. O mistério está na anatomia e circuitos neurais de cada mulher. Isto é algo que devem gostar de saber as 30% de mulheres ocidentais que referem não ter prazer com o sexo. «Em vez de julgar-se ou culpar-se por algo não funcionar consigo, explore as suas ligações neurais e deixe-se guiar por elas.»

O prazer de fazer amor e o sentimento de êxtase 2-em-1, voltaram. Depois do alinhamento das vértebras, Naomi recuperou, em alguns meses, a sensibilidade que julgava perdida. Durante esse tempo, quis aprofundar o assunto e frequentou os cursos de Mike Lousada, um terapeuta de sexo tântrico. «Os tântricos abordam a sexualidade feminina com respeito, como se fosse sagrada», revelou à imprensa. Na sua obra, disserta sobre o potencial do órgão sexual feminino, uma porta de entrada para o autoconhecimento e a comunhão mística.  
As críticas não se fizeram esperar. Numa edição do The Guardian, por exemplo, ironizava-se com a mulher em crise da meia-idade que usava a ciência a gosto, para legitimar questões de ego.
naomiwolf.org

50 anos, ascendência americana e romena
Formou-se em Artes e Literatura Inglesa, nos Estados unidos
Autora, jornalista e defensora da liderança e libertação sexual das mulheres
Foi consultora de Al Gore e Bill Clinton nas suas campanhas presidenciais 
Vive com o produtor de cinema Avram Ludwig
Insight: «As mulheres americanas têm sido tão controladas por ideais e estereótipos como por limitações materiais»


Naomi Wolf, a mulher que personificou o movimento feminista de terceira geração, nunca escondeu as suas posições acerca do corpo, da vida privada e das questões de consciência social, por mais controversas que fossem. O gigante Apple também não escondeu que, em pleno século XXI, censura palavras como a que titula o livro. Na sinopse pode ler-se: «V****a. Um trabalho surpreendente que muda radicalmente a forma como pensamos acerca da v****a». Ironicamente, o texto termina com a autora a interrogar «porque é que, mesmo num mundo cada vez mais sexualizado, a v****a é vista como uma ameaça, ou se pensa nela como algo ligeiramente vergonhoso».
Nas redes sociais, alguns dos comentários destacaram o paradoxo: se é de um termo médico que estamos a falar, como querem, afinal, que lhe chamemos?  

Texto publicado na Revista Máxima (Fev 2013)