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segunda-feira, 18 de março de 2013

Hello darkness, my old friend

No ano em que eu nasci, 1964, The Sound of Silence era a música do momento. O clássico de folk-rock da dupla americana Simon & Garfunkel, sobre as dificuldades de comunicação entre humanos, foi escrito ao ritmo de uma linha por dia, numa altura em que a América recuperava do choque do assassinato de John F. Kennedy (1963).

«A canção era sobre a angústia pós-adolescente», explicou Paul Simon à imprensa, «mas por conter uma boa dose de verdade, fez com que muita gente se identificasse com ela». Não apenas nessa altura, mas noutras, como após o trágico evento de 11/9. 

Hoje, o descontentamento (desencanto? perplexidade?) globalizou-se e permanece atual. A melodia apela à emergência da uma qualquer luz, no meio da escuridão. E, talvez, ao desejo de um outro amanhã. Ao fim desse silêncio «ensurdecedor» nos tempos sombrios que atravessam, velhos e novos, ávidos de sonho. 
Aqui ficam alguns excertos.

Ver clip: O som do silêncio

«Olá escuridão, minha velha amiga
Vim conversar contigo de novo
(…)
Em sonhos agitados, caminhei só
Nas ruas estreitas da calçada
Sob a luz dos candeeiros de rua
(…)
E na luz nua eu vi
Dez mil pessoas, talvez mais
(…)
Pessoas a escreverem canções
Que as vozes jamais partilham
E ninguém ousa
Perturbar o som do silêncio

"Tolos", disse eu, "vocês não sabem
Silêncio é como um cancro que cresce
Ouçam as palavras que eu vos posso ensinar
Aceitem os braços para que vos possa alcançar"
Mas as minhas palavras caíam como gotas silenciosas de chuva
E ecoaram num poço do silêncio
(…)

segunda-feira, 28 de março de 2011

O lado obscuro do amor

A essência do amor tem muitas formas de expressão. As mais tempestuosas reflectem a faceta sombria da nossa natureza sempre que nos atormentamos com aqueles que mais amamos.

Clara Soares
(publicado em http://mulher.pt.msn.com/relacoesefamilia/)

(imagem do blog China VillaMellera)

Houve tempos em que Isabel Aguiar, de 39 anos, se levava demasiado a sério. Mas chegou o dia em que se deu conta de certas situações que se repetiam de forma sistemática na sua vida. O marido, a melhor amiga, a sócia do negócio de pronto-a-vestir, pessoas que prezava e de quem não prescindia para a sua felicidade e bem-estar, tinham sido, primeiro que tudo… suas inimigas ou rivais!

“Percebi isto numa altura em que tudo me irritava, nada estava bem, faltava sempre alguma coisa”, lembra a empresária. Faltava o desafio, aquela luta que só o confronto do tipo cão-e-gato permitem. Em todas as ocasiões que tal se proporcionou, a resposta ao apelo foi sempre “sim”. Partiria dela esse rastilho de conflito e rebeldia, que resultava em emoções fortes e atitudes corrosivas?


Admitir fraquezas e defeitos de carácter é um assunto tabu, que remete para uma realidade escondida porque inaceitável, em geral. A questão era familiar para o psicólogo suíço Carl Jung, que dedicou parte da sua vida a estudar os enigmas da personalidade humana, tendo construído uma teoria em que defende que o inconsciente se manifesta de duas formas opostas: os aspectos aceitáveis da pessoa, e as partes obscuras, como os instintos primitivos e animais, herdados no processo evolutivo da espécie. Jung apelidou de Persona e Sombra estas duas facetas do Self. Nas sessões de psicoterapia, tinha como meta facilitar aos seus pacientes a fascinante, por vezes árdua, tarefa de trazer ao plano consciente estas dimensões do inconsciente. Uma das vias para o efeito era pedir aos alunos para pensarem em alguém de quem não gostassem ou odiassem até. Depois, era preciso fazer uma descrição escrita dos aspectos reprováveis dos visados. No final da tarefa, bastava que escrevessem no topo da página “A minha sombra”.


Numa perspectiva clínica, tendemos a ver nos outros partes de nós que não conhecemos, que tememos e por isso condenamos. Aforismos como “Quem desdenha quer comprar” ilustram verdades partilhadas pelo mais comum dos mortais, que nos lembram por que nos é tão natural reconhecermo-nos em alguém que detestamos sem saber o motivo. Esta teoria explica por que escolhemos por vezes para parceiros ou amigos do peito justamente os que nos levam a perder a razão.

No quotidiano, existem outras formas de viver este lado oculto, comum a cada um de nós. “Este lado revela-se na forma como conduzimos ou estacionamos o carro, mas também através de comportamentos agressivos, de atitudes dispersas.” Para a astróloga humanista Conceição Espada, os estilos de vida que as pessoas adoptam permitem identificar desequilíbrios entre os lados racional e emocional, entre as facetas da personalidade que são vividas como positivas e reconhecidas socialmente, e as outras, menos aceitáveis ou reprimidas. Só através da tomada de consciência dos aspectos latentes do ser é possível conhecer-se profundamente. O sistema desenvolvido por Conceição permite a vivência de aspectos menos explorados da personalidade.


Com a duração de dois dias, o workshop de astrodança/astrodrama combina os conceitos Jungianos com a interpretação dos quatro elementos naturais e dos planetas nas cartas astrológicas. Cada significado simbólico atribuído a um planeta, por exemplo, assume a forma de exercícios individuais ou em grupos, com recurso a técnicas teatrais, expressão corporal, dança, relaxamento e desenho. Após dois anos de experiência neste projecto, a astróloga reconhece que o trabalho não podia ser mais gratificante. “A pessoa é confrontada psicológica, física e emocionalmente com os seus medos e dificuldades de relacionamento.”

Que o diga Madalena O´Neill, de 40 anos, mãe de duas filhas, e até há pouco tempo recepcionista num campo de golfe. O curso permitiu-lhe ver-se ao espelho a partir de vários ângulos e mudar a sua vida, actualmente orientada para as artes.


www.maxima.pt

terça-feira, 8 de junho de 2010

A Sombra

A Sombra




É a nossa mais fiel companheira e contudo pouco sabemos dela. A sombra exerce por isso um forte poder de atracção sobre nós. O filósofo Platão conhecia o poder dessa entidade «fantasma», alcunhada, com alguma propriedade, de «controladora». Na Alegoria da Caverna, o mestre da Antiguidade Clássica fala de prisioneiros que nunca saíram de uma gruta, vendo as sombras de homens no exterior, projectadas pelo fogo, na parede da caverna, e tomando-as por reais.

Quem nunca chega a Ver a essência das coisas – à luz do dia - permanece na ilusão sobre si e o mundo. Na escuridão, na cegueira. No crepúsculo, ficamos mais vulneráveis ao poder da sombra, como sugerem as histórias sobre vampiros, lobisomens e outras figuras cinzentas (agentes secretos, que lidam com coisas ocultas ou informações confidenciais, que não podem vir à superfície). Elas falam de coisas universais e humanas, que se passam «às escuras» e fora do controlo da mente consciente.

O cérebro humano processa 2,000,000 unidades de informação por segundo, mas boa parte desse material não está acessível (não apreendido, intuído). Desejos e medos, memórias, competências que aprendemos, crenças acerca de nós e do mundo, e padrões de comportamento são armazenados no «chip», e surgem, frequentemente, sob a forma de respostas automáticas (temo-las sem dar conta).

Há momentos em que essa sombra - sempre à espera de uma brecha, um ponto de fuga qualquer no sistema de defesas – ganha força e contornos diante de nós: assume o comando e não temos mão nela. O confronto enfurece e intimida, mas traz consigo a possibilidade de despertar. O médico suíço Carl Jung costumava aplicar um exercício nas suas aulas, que consistia em «conhecer a sombra». Os alunos eram convidados a pensar, durante alguns segundos, em alguém de quem não gostassem ou com quem não se dessem bem. De seguida, era-lhes pedido que fizessem uma lista de características desconfortáveis associadas a essa pessoa. Após esta tarefa, as pessoas liam em voz alta as suas anotações. No final, era-lhes dito que esse grupo de tópicos eram, nada mais, nada menos, que o retrato do «lado sombra» de cada um.

Aspectos que detestamos nos outros e nos tiram do sério são muitas vezes aqueles que não conseguimos assumir – ou negamos – em nós. Mas estão lá e são reconhecidos – e projectados – nos outros. Assim se explica, no ponto de vista Junguiano, o facto de manter, por exemplo, uma relação conflituosa ou insatisfatória com alguém, a coincidência de atrair sempre o mesmo tipo de parceiro, de chefe ou de situações problemáticas, quando isso se quer evitar a todo o custo.

Os protagonistas desses «infernos» espelham, afinal, coisas que, sendo também nossas, rejeitamos e «empurramos» para fora de portas, como se nunca nos tivessem pertencido. «O mal são os outros», «Eu sou bom, tu é que não me mereces, porque és mau (ou fraco, etc)», são apenas variações da dualidade humana, tão bem ilustrada na lenda clássica da época Vitoriana, Dr Jekyll & Hyde, ou na saga que envolve o sinistro Joker e o heróico Batman.

O lema «já que não o podes vencer, alia-te a ele» aplica-se ao inconsciente. Aceitar a sua própria sombra é reconhecer o poder (do inconsciente) que habita em nós. Conhecê-la, tratá-la por «tu», e descobrir os segredos que encerra, é a chave para a transformação pessoal.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Homens

De: Daniel Faria, Homens que São como Lugares Mal Situados


«Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Como são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs

Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados

Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas

Homens encarcerados abrindo-se com facas


Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries

Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxaguar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior».