segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Decisões de ano novo



À entrada num novo ano, a situação repete-se: é desta que se vai perder peso, deixar de fumar ou fazer mais desporto. Até que ponto somos capazes de por em prática as resoluções tomadas?

Na 1ª edição deste ano da Revista Visão, pode ficar a conhecer histórias de portugueses que, em diferentes idades e etapas de vida, contam como levaram as suas resoluções a bom porto, confirmando os resultados de investigações cientificas neste âmbito. Em sintese, a motivação para mudar conta, mas não chega; é preciso ter em conta quatro fatores:

Automotivação
Controlo Cognitivo (mental)
Regulação Emocional
Aceitação da Ambiguidade



domingo, 7 de dezembro de 2014

Quinta Dimensão


Hans Zimmer é um nome incontornável no universo dos compositores de bandas sonoras. Fã incondicional dos seus trabalhos, cativa-me a evolução que ele vai fazendo, obra atrás de obra, surpreendendo-me sempre. A última surpresa resulta da parceria feliz com o realizador Christopher Nolan, no filme Interstellar (ver mais em The Story Of How Hans Zimmer Wrote The Interstellar no Business Insider, a partir de um artigo do The Guardian, assinado por Tom Shone).

Já em Inception (do mesmo realizador), sobre o sonho dentro do sonho (e as dimensões do real), o Tempo teve direito a uma faixa, Time, na banda sonora, que inclui ainda uma versão mais alargada do tema. Em Interstellar, o Tempo é uma presença que vai sendo explorada ao longo de todo o filme e volta a merecer destaque numa das faixas, Afraid of Time.

Existir é um processo solitário, que ganha sentido quando é vivido através do olhar de um outro e na relação com ele, o que nos torna plenamente humanos. Finitos numa dimensão, infinitos numa outra: os sonhos e as singularidades de hoje transformam-se nas memórias futuras de nós, em outros, amanhã. No espaço intergaláctico e nos trilhos vivos do nosso ADN.

Tanto em Inception como em Interstellar, o dilema dos protagonistas só começa a deixar de o ser quando eles desafiam os limites do que concebem como possível ou real, saindo então do paradoxo. 
A parceria Zimmer-Nolan tem o mérito de veicular, na perfeição, esta possibilidade de conceber o impossível e mergulhar numa nova dimensão.


O poema de Dylan Thomas, Do Not Go Gentle Into That Good Night, pano de fundo do épico espacial Interstellar – e já não via um filme de ficção assim desde 2011 Odisseia no Espaço – transporta-nos para essa quinta dimensão, O que tiver de acontecer, acontecerá. Mas que não seja gentil e conformada (desesperançada, até) a longa viagem de uma estrela. Ou a evolução de uma espécie. 

Nem a curta jornada de um homem, que abre os olhos à luz sabendo que caminha para o sono e a escuridão. Sabendo também, e por fim, que a matéria não existe sem o coração dos buracos negros (a singularidade, assim se designa, na Física), onde o tempo do relógio para e o espaço deixa de existir. A quinta dimensão tem um som e Zimmer soube captá-lo.


domingo, 2 de novembro de 2014

Crescer no Ecrã



indiwire.com

Em Boyhood (Momentos de Uma Vida), acompanhamos a trajetória pessoal de um rapaz, desde a infância até ao final da adolescência e a evolução da sua relação com os pais.

Richard Linklater surpreende com esta ficção, escrita e filmada ao longo de 12 anos. «Entrar» no universo dos protagonistas e olhar o momento presente - pessoal e social - pelos olhos deles, é a grande valia da obra, premiada no festival de cinema de Berlim.



Cada momento, cada transição de vida, são oportunidades para revelar e atualizar a natureza e espessura dos vínculos, dos papeis, dos talentos e das vulnerabilidades de cada um.

Um filme sobre a continuidade humana - medos, frustrações, incertezas e sonhos - na descontinuidade dos dias. 

O trabalho dos atores e a banda sonora valem por si. «To be continued»,..

Estreia a 27 de novembro, nas salas de cinema portuguesas, Veja o Trailer

sábado, 1 de novembro de 2014

Sempre Ligados

Já não sabemos viver sem ele. O telemóvel revolucionou a nossa forma de estar e de ser. É uma extensão das nossas mãos, de nós. Comunicamos sem fronteiras mas distanciando-nos, do que, e de quem, está à nossa frente.
Habituámo-nos tanto a estar ligados a esse portal de acesso ao mundo que comprometemos a segurança na estrada e ficamos alterados, se privados do seu uso. Sabemos mesmo viver com ele?

No artigo que eu e Vânia Maia publicamos nesta edição da revista Visão vai ficar a conhecer o tipo de relação que estabelecemos com a tecnologia, saber mais sobre o phubbing (focar-se no telefone, ignorando pessoas com quem se está) e, ainda, a análise dos especialistas   

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Self é acerca de Nós. O Nós são os Outros, com quem nos identificamos

Jesse Prinz é um neurofilósofo nova iorquino. Dá aulas inovadoras, com caráter essencialmente prático. Dedica-se a investigar o cérebro e escreve artigos científicos e livros acerca do que nos define enquanto humanos e os seus posts geram debate e controvérsia. E, espelhando a tradição familiar, ainda lhe sobra espaço para a veia artística, patente nos desenhos de cérebros humanos e de outros animais, que publica no seu site. A sua passagem por Lisboa foi o pretexto para uma conversa, para acompanhar, com texto, fotos e vídeo, no site da Revista Visão  


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Os ´novos filhos' de estimação


Os bichos estão a tornar-se, cada vez mais, 'parte da familia', com direitos e necessidades. Destacam-se nas nossas conversas quotidianas, em fotos e vídeos que se tornam virais, disputam lugar nos media e nas redes sociais. Os animais que habitam nas nossas casas têm registo de nascimento, cédula de saúde, constam cada vez mais nas opções estratégicas de espaços comerciais e estabelecimentos turísticos – vulgarizando o slogan «pet friendly» – e dispõem de uma oferta de produtos, acessórios, serviços clínicos e de estética praticamente tão sofisticados como os nossos.
Queremos dar-lhes o melhor pelo tempo de qualidade que passamos com eles, sem os encarar como animais para trabalho ou como simples objetos? Ou por lhes reconhecermos, na prática, o que a ciência agora confirma – a existência de substratos neurológicos que geram estados de consciência – e que Charles Darwin defendia há dois séculos?

Saiba mais nesta edição da Visão, já nas bancas.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O segredo para a crise está na comunidade




À conversa com Fernando Alves, em mais uma edição de Portugueses Excelentíssimos, na TSF, Moisés de Lemos Martins é um homem que merece a pena ouvir. O professor catedrático da Universidade do Minho e fundador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade tem uma firme convicção:
«O meu compromisso tem que estar com a comunidade. A comunidade é outra coisa que não a tribo. O tribalismo é um outro nome para o individualismo, 'sou eu e aqueles que são como eu'. A comunidade é outra coisa. É misturando o passado, o presente e o futuro de nós mesmos que fazemos a comunidade. A crise da comunidade é também a crise humana.» Ouvir a entrevista aqui

quinta-feira, 3 de julho de 2014

«O que conta é ter uma vida mais livre e autêntica»

(publicado na VISÃO 1110 de 12 de Junho)

 O psicanalista Carlo Strenger diz, em entrevista à VISÃO, que a existência só ganha sentido pela aceitação dos limites próprios e na gestão das crises, sem embarcar na ilusão da imortalidade.
Veja o Vídeo

É israelita. É psicanalista. E tem um cão chamado Freud. Um ano depois de ter lançado, em Portugal, O Medo da Insignificância (Ed. Lua de papel, 295pág., €14,90), que já vendeu três mil exemplares, o autor acolheu a VISÃO, via Skype, em Telavive, onde reside com a mulher, psicóloga política. Na sala de estar, com paredes «forradas» de livros, o professor universitário disserta sobre o impacto da globalização na identidade. O pânico existencial e o sentido da vida são temas de eleição nos seus livros, artigos e colunas publicadas na imprensa, mas também nas palestras internacionais (incluindo a famosa TEDxJaffa, sobre cidadania global, com mais de um milhão de visualizações). Aos 55 anos, define-se como um epicurista que não acredita em Deus. Prefere que o vejam como um liberal secular e tem fé na capacidade do Homo Globalis para cooperar e reduzir abismos forjados por visões do mundo fechadas, que não passam de «uma estratégia de defesa contra a consciência da morte.»

Começo por citá-lo: «Não existem garantias de que a nossa vida corra bem». Porque tememos a insignificância?
Os avanços tecnológicos levaram-nos a cultivar, erradamente, a noção de que temos controlo pleno das nossas vidas e do que acontece à nossa volta, mas continuamos a ser tão frágeis, talvez um pouco menos, do que éramos na Grécia Antiga. 

Isso quer dizer que a psicologia positiva tem os dias contados?
Não estou a questionar esse campo do saber, bem fundamentado cientificamente. Refiro-me à psicologia pop, que cria falsas esperanças com ideias simplistas e omnipotentes. Por exemplo, se acreditar em si, será rico, famoso e belo. Se tal não sucede, fica-se a pensar: «Algo profundamente errado está a passar-se comigo.»  

Alcançar o sucesso global é hoje um imperativo. Se não se for célebre, é-se um Zé Ninguém?
Isso acontece porque estamos numa cultura de informação-entretenimento, assente na tecnologia. Ela democratizou o conhecimento – basta pensar no Google – mas trouxe algum caos. Ficámos sem as referências que davam, até então, um valor às nossas vidas e substituímo-las pela fama: na música, no empreendedorismo, no futebol.

Confundimos o ter uma carreira com o ter uma vida com sentido?
A questão é que precisamos ter mais consciência da nossa mortalidade. Essa evidência torna-se clara quando atingimos a maturidade, mas pode acontecer antes. É o caso do jovem bem-sucedido, que tem o curso, o emprego de sonho, a casa e o carro, mas falta-lhe significado.

A sua carreira, por exemplo. Que significa para si e em que medida tem a ver consigo?
Encaro-a como uma espécie de chamamento. Sinto-me um sortudo por fazer algo que me apaixona. Uma das experiencias mais marcantes da minha vida foi ter crescido numa família judia ultra ortodoxa. Na adolescência comecei a ter sérias dúvidas acerca do judaísmo e da religião em geral. Tornei-me num secularista liberal, o que não foi nada fácil de aceitar para os meus pais. Inclusivamente, chegaram a não querer relacionar-se comigo. Isto mudou a minha vida de forma profunda, porque prezo muito a liberdade individual e de pensamento, bem como o uso da razão crítica. Tornou-se um tema central da minha vida pessoal e converti isso numa profissão.

Como define o significado existencial do Homo Globalis, ou cidadão do século XXI?
O que conta é que a pessoa consiga ter uma vida mais livre e autêntica. Há quem pense que a liberdade é ter tudo o que se quer. Para mim, é sobre o que é a essência humana, que implica escolhas difíceis. Por exemplo, a ideia de liberdade para conduzir uma certa forma de vida traduziu-se na escolha, minha e da minha mulher, de não sermos pais.

Defende que só podemos ser livres quando aceitamos os nossos limites. Porquê?
Refiro-me ao aceitar ativamente o que não somos, à tomada de consciência dos nossos limites, em vez de nos agarrarmos á ideia de que temos um potencial ilimitado, a lógica do «Just do it». Erradamente, pensa-se que o dinheiro, a fama e o poder trazem significado à existência, sem questionar se essa vida é, realmente, a nossa.

Esse dilema surge com frequência no seu consultório?
Sem dúvida. Quem chega ao topo não afasta de cena a procura de sentido. Perceber estes limites liberta-nos da ansiedade e da culpa pelas oportunidades perdidas na cultura orientada para o sucesso. Um dos meus pacientes acabou por enriquecer rapidamente e, quando acordava de manhã, pensava: «Conquistei tudo o queria… e agora? O que vou fazer?»

Como se faz esta mudança de paradigma ao nível coletivo?
É preciso algum treino para entender que a meta de um cidadão do mundo não é ser conhecido por todos, mas contribuir para um projeto que envolva a humanidade como um todo. Somos um sistema complexo e especializado, que pressupõe, para evoluir, cooperação e interdependência, para que todas as partes ganhem.

Defende que o desdém civilizado é preferível ao politicamente correto. Porquê?
Quando estava num programa de entrevistas sobre política na estação de radio mais ultra ortodoxa de Israel, houve um debate em que usei esse termo. Quando o tema é, por exemplo, a pena de morte ou os direitos dos homossexuais, faz para mim mais sentido discordar civilizadamente com alguém que respeito como ser humano, mas sem ter de fingir que não me incomodam as suas ideias, que vão contra os meus valores e consciência.

Como ex membro do Painel de Monitorização do Terrorismo na Federação Mundial de Cientistas (WFS), está otimista quanto ao fim do conflito israelo-palestiniano, entre outros?
Segundo a teoria dos jogos, trata-se de um jogo de soma zero: ambas as partes perdem. Estamos a assistir à batalha pela cultura dominante e não posso prever como vai acabar este confronto civilizacional. A primavera árabe converteu-se num caos e a luta entre sunitas e xiitas é dramática. Podiam ter ganhos mútuos – principio não zero, um conceito do meu colega Robert Wright – mas ficam reféns de sistemas de crenças irracionais. Para os cidadãos, é uma história de horror.







quinta-feira, 19 de junho de 2014

«A cultura ocidental insiste em associar a masculinidade à mente e a feminilidade ao corpo»

A escritora e ensaísta americana Siri Hustvedt desafia-nos a mergulhar no fascinante mundo da complexidade humana, ambígua por natureza, sem medos nem barreiras, incluindo as de género VEJA O VÍDEO 

(texto publicado na VISÃO 1108, de 29 de maio 2014)

«Todo o trabalho intelectual e artístico tem mais sucesso na mente da multidão, quando a multidão sabe que, algures por detrás da grande obra, ou do grande embuste, se encontra uma pila e um par de tomates.» Palavras de Harriet Burden, a personagem central de Mundo Ardente (ed. Dom Quixote, 463 págs., €22,90). O sexto romance de Siri Hustvedt conduz os leitores ao universo de uma artista plástica que, menosprezada no meio intelectual nova-iorquino, põe em marcha um plano arrojado: oculta a identidade e esconde-se por detrás de três homens que assinam e expõem o seu trabalho, com o intuito de desmontar preconceitos vigentes.
Deixemos agora o alter ego da autora e passemos à própria, com quem a VISÃO conversou no Bairro Alto Hotel, em Lisboa. As calças de fazenda, os sapatos de salto raso e a ausência de acessórios conferem-lhe um estilo casual chic e realçam o seu porte alto, magro e, aparentemente, frágil. "Não quero que isto soe como banal, mas gosto muito de cá estar", admitiu, no final da entrevista.
Quando vem a Portugal, sente-se em casa (a última vez foi em novembro, para o Lisbon & Estoril Festival, acompanhada pelo marido, o escritor Paul Auster, e a filha, a cantora Sophie Auster): "Os portugueses têm bom coração, não são nervosos, desagradáveis e competitivos." 
Ao longo de 40 minutos e sem papas na língua, contou-nos o que pensa de mundos que conhece bem. Arte. Escrita. Neurociência. Psicanálise. Temas recorrentes nos seus livros, onde coabitam múltiplas vozes, de forma tão fluida quanto ambígua, por ser assim, acrescenta, "que tocamos a profundidade das coisas".

Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. É este o seu lema?
Quando escrevo, mergulho nas personagens e torno-me nos seus múltiplos eus. Associar um nome masculino a uma criação artística, realça-a. Se a autoria for feminina, denigre-a. Não tenho dúvidas de que isto existe e está longe de acabar. Numa assinatura, as iniciais são uma maneira de esbater o género.

As suas heroínas, ou alter egos, refletem isso?
Escrevi duas vezes como homem. No primeiro romance, Iris (anagrama de Siri) veste-se de homem, é a armadura dela. Em Elegia para um americano, Burton veste-se de mulher e o narrador descreve-o como um homem que está a voltar a si. Os meus livros estão cheios de transformismo (vestir-se como sendo do sexo oposto). Esta é a primeira vez que a história é contada através de vinte vozes.

As heroínas submissas continuam em alta. Basta lembrar o estrondoso sucesso de As Cinquenta Sombras de Grey.
[Altera a expressão e faz uma pausa, antes de responder] O sucesso dessa obra está além da minha compreensão! Neste livro quis criar uma personagem colossal. Um monstro, não no sentido de Frankenstein, antes alguém que não cabe em nenhuma categoria. Harriet (ou Harry) foi antecedida por Margaret Cavendish, a poetisa, encenadora e filósofa naturalista do século XVII, com quem a personagem se identifica, e que foi praticamente rejeitada no seu tempo.

Se vivesse noutro tempo, seria não um monstro mas uma bruxa destinada à fogueira.
No ensaio O Meu Pai/Eu Mesma menciono a relação entre a Bruxa e Joana d'Arc, feita pela antropóloga Mary Douglas. Há um momento [em O Mundo Ardente] em que Harriet diz: "Na vizinhança chamam-me bruxa. Eu aceito."

Lançou a sua obra no atelier de Joana Vasconcelos, o que vê na obra dela?
Gosto particularmente das peças em que usa o croché, muito feminino. Há muita coragem no que ela faz.

Teve um irmão imaginário e fantasiava ser rapaz. Ser mulher ainda é como usar corpete?
[Sorriso enigmático] Surpreende-me como é que a cultura ocidental insiste em associar a masculinidade à mente e a feminilidade ao corpo, na vida pública, doméstica, emocional e pessoal. Não acredito na visão cartesiana, que separa corpo e mente.

Como lidou com isso, durante o longo processo de tratamento da enxaqueca e das convulsões com causa indefinida, após a morte do seu pai?
É um problema crónico que controlo relativamente bem. Aprendi exercícios de relaxamento profundo, para aliviar a dor. As auras são interessantes e não me importo de tê-las. Creio que o envelhecimento e as mudanças hormonais tiveram um efeito positivo nas dores de cabeça. Durante muito tempo eu fui controlada por convulsões, tive uns cinco episódios. A minha neurologista leu A Mulher Trémula ou Uma História dos Meus Nervos (não ficção, 2010), concorda comigo: os diagnósticos foram sempre ambíguos.

Ambiguidade é um termo presente em todas as suas obras. Que valor tem para si?
É o meu chamamento estético e intelectual. Acredito que a complexidade da natureza humana não cabe num único modelo teórico e situa-se em zonas focadas de ambiguidade. O mesmo problema é visto de múltiplas perspetivas e não há uma só resposta, é fascinante.

A psicanálise e a neurociência marcam presença constante no seu trabalho. Porquê?
Sempre me interessei por descobrir como é que as pessoas se tornam, a cada momento, naquilo que são e estes campos lidam com a expressão do Eu.

E consegue dar conta de tudo o que lê e investiga, sem se esgotar?
A memória guarda o que é emocionalmente significativo, por isso não esqueço. Consigo assimilar muita coisa e aprender bastante, porque tenho a sorte de poder passar a maior parte do meu tempo a escrever e a ler em casa. Faço-o durante seis horas e, depois de uma pausa, leio quatro horas à noite. Exercito o corpo quatro vezes por semana com um profissional, vou às compras, faço jardinagem.

"Só vemos a arte quando ela nos altera emocionalmente." Quer explicar?
Não existe uma definição consensual do que é a arte. Ela força o espetador, o leitor ou o ouvinte a reconhecer qualidades maravilhosas na existência mundana. É o caso da pintura de Vermeer, Leitora à Janela: sinto-me transportada. Ele tem a capacidade de tornar uma coisa banal numa realidade transcendente.
A arte é sempre uma dádiva e um diálogo.

Esse diálogo acontece na ficção? Ou fora dela?
Como não há soluções finais para as respostas que procuro, a melhor forma de fazê-lo é na ficção. Posso apresentar ideias, a várias vozes, encenar argumentos que não estão resolvidos. A Mulher Trémula, por exemplo, foi o veículo perfeito para expor a minha obsessão com o fisiológico e o mental. Começa por ser um alienígena e acaba como algo que me pertence, Os Meus Nervos. A jornada faz-se do distanciamento para a proximidade, pela biologia e ritmos do corpo, que se conjugam com a narrativa acerca deles.

Freud estava certo, pelo menos em parte, no seu Projeto [Para uma Psicologia Científica, 1895] da mente?
A teoria da mente que ele não conseguiu validar é hoje confirmada pela neurociência, mas a divisão entre o fisiológico e psicológico não é uma solução satisfatória. Os modelos da psiquiatria biológica têm um problema: não são dinâmicos, os sintomas são tratados com fármacos, sem terem em conta outras abordagens.

Dá aulas de escrita criativa e já o fez com doentes psiquiátricos. O que pode dizer sobre isso?
Fui professora voluntária durante quatro anos e agora, a convite de um amigo, psiquiatra e psicanalista, estou a fazer palestras em Mainz, na Alemanha, sobre o Eu escritor e o doente psiquiátrico. Os pacientes psicóticos têm dificuldades com a narrativa e, sem ter a pretensão de convertê-los em escritores, a ideia é codificar o uso da escrita com fins terapêuticos.

Como vivem dois escritores na mesma casa, com as personagens de ambos?
Temos esta família de seres ficcionais que partilham vidas. Eu e o Paul [Auster] sabemos o que se passa com cada um durante o dia. "Eu escrevi uma página hoje, tive um dia terrível." O outro diz: "Quando é assim, no dia seguinte é melhor." Fazemos isto há décadas e estamos a envelhecer juntos, agora que a nossa filha já tem o apartamento dela.

Mudou alguma coisa com a saída de Sophie?
Não houve propriamente um luto. Ela está bem e eu nunca fui mãe-galinha. A minha mãe também não era. Talvez tenha a ver com as nossas raízes escandinavas, a reserva e o respeito pela privacidade do outro.

O que significa a palavra "casa", para si?
É uma boa pergunta. Continuo a viver em Brooklyn, pelo menos enquanto conseguir subir e descer escadas. É o lugar onde vivo, trabalho e tenciono escrever os romances que tenho em mim.

E não se cansa desse processo?
A única coisa que me cansa e entedia é quando estou no aeroporto à espera das malas, porque não posso ler. Nunca me entedio com as minhas vozes.

Como Fernando Pessoa.
Sim, ele também as tinha, embora um pouco loucas! [Solta uma gargalhada]. Ele e Kierkegaard são exemplos dos múltiplos eus que temos e nos tornam outros.

Para muitos, isso é assustador.
Sim, é verdade, mas também é emocionante! Sem isso, e alguma fluidez interna, raramente se consegue tocar a profundidade das coisas.

BI. ESCRITORA E ENSAÍSTA

Com ascendência norueguesa, nasceu e cresceu nos Estados Unidos e vive em Brooklyn, Nova Iorque, com o escritor Paul Auster: celebram 33 anos de casamento, em junho.
Doutorou-se em Literatura Inglesa, na universidade de Columbia, e experimentou vários ofícios, desde empregada de bar a assistente de investigação médica. 
Decidiu ser escritora aos 13 anos. Aos 59, é uma best seller premiada, na ficção e não ficção, com ensaios, palestras e artigos sobre filosofia, arte e neuropsicanálise.
Esta área levou-a a envolver-se ativamente em grupos de investigação académica e a participar em conferências sobre a consciência, como a realizada há três anos, em Berlim, ao lado do neurocientista António Damásio.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Siri Hustvedt. As suas histórias, ela própria.

     Foto: Gonçalo Rosa da Silva
Siri Hustvedt é uma escritora e ensaísta americana, de ascendência norueguesa, premiada na ficção e não ficção, apesar de ser conhecida, ainda, como «a mulher do escritor Paul Auster». De regresso a Portugal, para lançar o seu sexto livro de ficção, Mundo Ardente, ela explica porque é preciso quebrar barreiras - ideológicas, sociais e de género - para nos tornarmos naquilo que somos. Saiba mais na próxima edição da revista Visão.