Foto: Gonçalo Rosa da Silva
Siri Hustvedt é uma escritora e ensaísta americana, de ascendência norueguesa, premiada na ficção e não ficção, apesar de ser conhecida, ainda, como «a mulher do escritor Paul Auster». De regresso a Portugal, para lançar o seu sexto livro de ficção, Mundo Ardente, ela explica porque é preciso quebrar barreiras - ideológicas, sociais e de género - para nos tornarmos naquilo que somos. Saiba mais na próxima edição da revista Visão.
terça-feira, 27 de maio de 2014
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Segredos familiares
Se lhe pedissem, com uma câmara apontada, para contar a historia da sua vida, do principio ao fim, como seria?
Depois de ver o filme da canadiana Sarah Polley, Stories we tell, fiquei a pensar no assunto. A proposta era tentadora. Mais ainda, porque se refere à vida da autora que, aos 28 anos, ficou a saber que o seu pai não era o biológico.
Desde criança, ela suspeitava que algo estava mal contado na sua família. Ou pouco claro, para não dizer difuso. Alguns anos depois, foi confrontada com os fantasmas que, secretamente, a perseguiam. A mãe morrera quando Sarah tinha 11 anos. A adolescência fora passada com o pai, depois de os irmãos mais velhos já não viverem em casa. Era uma relação invulgar, a deles, mas não sabiam o quanto se intensificaria, pela vida adulta. E como iria transformar, para sempre, o modo de se verem como uma família.
Dizem que é quando se passa a trintão que certas fichas do passado começam a aparecer, como do nada, e a assombrar os dias. E se muitos se convencem de que há coisas que não devem ser remexidas, outros só conseguem continuar se mergulharem a fundo nas suas heranças familiares e forem ao encontro das suas raízes. Da sua verdade. Mas também da dos outros.
Que força foi essa, tsunâmica, que a levou a viver para investigar e contar o que nunca fora dito, apenas subentendido e disfarçado? Ela, a única da fratria que «saiu misteriosamente ruiva», sendo esse um tema de família, convocou todos os protagonistas, após um laborioso trabalho de pesquisa pessoal, para que fossem a jogo num projeto arrojado: fazer a sua própria narrativa biográfica, na relação com uma mulher que os unia a todos, a mãe de Sarah.
Não querendo ser uma «spoiler» (apesar de o filme ser datado de 2012), apenas quero dizer que o visionamento do documentário me deixou uma impressão que me é «familiar»: a realidade supera a ficção. Mesmo depois de tudo ter sido lembrado, contado, encenado e, também, imaginado, as heranças familiares permanecem um enigma da natureza humana, na sua expressão química (as leis da atração, a vida em dna) e alquímica (a singularidade, a interpretação, a emoção, as pontes que o amor tece, com toda a dor e alegria).
Coragem ou compulsão? Sadismo ou exercício de redenção? as perguntas referem-se ao posicionamento dos protagonistas e, em especial, a Polley e seus dois pais, sendo a mãe o vértice do triângulo. A sua morte e «ressurreição», no mundo dos vivos que se inscrevem na sua biografia (pelas vias do coração, da memória e da reconstrução da narrativa, que é caleidoscópica), abriu novos trilhos no universo pessoal e (in)transmissivel dos que a viveram.
«Se for boa (uma história), queremos partilhá-la». Por mais que custem, os trabalhos de escavação (ou imersão nos segredos de família) valerem - para eles, e para mim - a pena. A capacidade de olhar, sem desviar os olhos, de abrir mão das defesas, expondo-as à luz (à câmara, ao microfone, em face a face com os que nos são íntimos) não é para todos.
Prefiro interpretar este exercício como um ato de coragem, já que envolveu o risco de o psicodrama familiar acabar por deitá-los, a todos, por terra. Eventualmente, isso também terá acontecido, nas margens do rio (rodagem). Mas terá sido transcendido.
«Accept the sentence» diz, perto do final, o homem introvertido que nos conduz na leitura da sua história (entrelaçada com todas as outras). Ele gostava de contemplar as moscas solitárias. Contrariamente a elas (que nunca saberão o que significa «o porquê» do que acontece no seu ciclo de vida) fala connosco e, mais importante que tudo, testemunha-se a si mesmo, de uma forma renovada. «I will continue».
Quantos de nós seriamos capazes de sair inteiros de tamanha odisseia?
Depois de ver o filme da canadiana Sarah Polley, Stories we tell, fiquei a pensar no assunto. A proposta era tentadora. Mais ainda, porque se refere à vida da autora que, aos 28 anos, ficou a saber que o seu pai não era o biológico.
Desde criança, ela suspeitava que algo estava mal contado na sua família. Ou pouco claro, para não dizer difuso. Alguns anos depois, foi confrontada com os fantasmas que, secretamente, a perseguiam. A mãe morrera quando Sarah tinha 11 anos. A adolescência fora passada com o pai, depois de os irmãos mais velhos já não viverem em casa. Era uma relação invulgar, a deles, mas não sabiam o quanto se intensificaria, pela vida adulta. E como iria transformar, para sempre, o modo de se verem como uma família.
Dizem que é quando se passa a trintão que certas fichas do passado começam a aparecer, como do nada, e a assombrar os dias. E se muitos se convencem de que há coisas que não devem ser remexidas, outros só conseguem continuar se mergulharem a fundo nas suas heranças familiares e forem ao encontro das suas raízes. Da sua verdade. Mas também da dos outros.
Que força foi essa, tsunâmica, que a levou a viver para investigar e contar o que nunca fora dito, apenas subentendido e disfarçado? Ela, a única da fratria que «saiu misteriosamente ruiva», sendo esse um tema de família, convocou todos os protagonistas, após um laborioso trabalho de pesquisa pessoal, para que fossem a jogo num projeto arrojado: fazer a sua própria narrativa biográfica, na relação com uma mulher que os unia a todos, a mãe de Sarah.
Não querendo ser uma «spoiler» (apesar de o filme ser datado de 2012), apenas quero dizer que o visionamento do documentário me deixou uma impressão que me é «familiar»: a realidade supera a ficção. Mesmo depois de tudo ter sido lembrado, contado, encenado e, também, imaginado, as heranças familiares permanecem um enigma da natureza humana, na sua expressão química (as leis da atração, a vida em dna) e alquímica (a singularidade, a interpretação, a emoção, as pontes que o amor tece, com toda a dor e alegria).
Coragem ou compulsão? Sadismo ou exercício de redenção? as perguntas referem-se ao posicionamento dos protagonistas e, em especial, a Polley e seus dois pais, sendo a mãe o vértice do triângulo. A sua morte e «ressurreição», no mundo dos vivos que se inscrevem na sua biografia (pelas vias do coração, da memória e da reconstrução da narrativa, que é caleidoscópica), abriu novos trilhos no universo pessoal e (in)transmissivel dos que a viveram.
«Se for boa (uma história), queremos partilhá-la». Por mais que custem, os trabalhos de escavação (ou imersão nos segredos de família) valerem - para eles, e para mim - a pena. A capacidade de olhar, sem desviar os olhos, de abrir mão das defesas, expondo-as à luz (à câmara, ao microfone, em face a face com os que nos são íntimos) não é para todos.
Prefiro interpretar este exercício como um ato de coragem, já que envolveu o risco de o psicodrama familiar acabar por deitá-los, a todos, por terra. Eventualmente, isso também terá acontecido, nas margens do rio (rodagem). Mas terá sido transcendido.
«Accept the sentence» diz, perto do final, o homem introvertido que nos conduz na leitura da sua história (entrelaçada com todas as outras). Ele gostava de contemplar as moscas solitárias. Contrariamente a elas (que nunca saberão o que significa «o porquê» do que acontece no seu ciclo de vida) fala connosco e, mais importante que tudo, testemunha-se a si mesmo, de uma forma renovada. «I will continue».
Quantos de nós seriamos capazes de sair inteiros de tamanha odisseia?
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Quem quer um terapeuta de «linha branca»?
Aprendi no jornalismo que de nada serve ser um bom
profissional (e pessoa), se não se é lido, ouvido ou visto (por alguns, idealmente vários, e há quem só se contente com muitos). E na psicologia (saúde mental e psicoterapias)? Parece que sim, que esta máxima também se aplica. Sinto-me tentada a chamar-lhe «saída à americana» (das politicas de austeridade /espetro do desemprego dos terapeutas). De acordo com um artigo publicado há ano e meio, no The New York Times, assinado por Lori Gottlieb, não ter uma marca no mercado livre
pode ser uma falha irreparável. O artigo questiona o papel e o posicionamento dos
psicólogos que, sem o guarda-chuva das seguradoras e dos sistemas públicos de
saúde, se vêem forçados a adaptar-se às leis do marketing, se quiserem viver da
profissão.
Até há uma década, pelo menos nos EUA, bastava um diploma e supervisão
para exercer a clinica privada e construir uma carteira de clientes. Agora não. Segundo a APA, que
representa o setor, as intervenções clínicas sofreram uma quebra na procura em
cerca de 30%, num período de tempo de 11 anos (análise de dados até ao ano de 2008),
na proporção inversa do que sucedeu na indústria farmacêutica. Se os comprimidos podem ser anunciados e ter gigantescas
campanhas de marketing, o mesmo não se pode dizer das sessões de terapia.
Quem
procura ajuda para as suas questões mais privadas quer profissionalismo e confidencialidade.
E publicidade (também popularidade e exposição), quererá? O artigo faz querer que sim. À luz da economia global, os terapeutas também são marcas e, como tal,
não dispensam os serviços de consultores comerciais para se posicionarem no
mercado de trabalho ou minimizarem o risco de ter o consultório às moscas. É
que os psicoterapeutas generalistas já «não vendem», pelo menos sem um «sound
byte» que apele à cura rápida em questões muito específicas.
Num cenário de expansão de aplicações para dispositivos
móveis, os terapeutas que querem viver do seu ofício terão de moldar-se às
necessidades dos potenciais consumidores e oferecer /anunciar soluções rápidas para
problemas, quase como os técnicos de uma oficina automóvel. Mais: o cartão-de-visita
só tem a mesma função que tinha (antes da web 2.0) se for ancorado num site interactivo
e com uma boa dose de exposição pessoal. A explicação de Alison Roth,
consultora de sites de profissionais de ajuda, a este respeito é esclarecedora:
«A relação terapêutica é uma experiência íntima. As pessoas precisam de
conhecer aquele(a) com quem vão estar, quando teclam o nome no Google. Querem sentir
uma ligação pessoal e imediata.» Querem saber um pouco da história de quem está
do outro lado: se foi filho de um divórcio, se passou por um trauma, se tem uma
doença crónica.
Que lugar ocupa a postura empática e o insight do paciente, nesta nova lógica (metodologia / paradigma)? «Mostrar (ou demonstrar?) o caminho», de forma persuasiva, será terapia? Ou Consultoria (mentoria)? Se o cartão de visita diz que é um «promotor da felicidade» - há uns anos atrás, seria rotulado como banha da cobra - o seu detentor terá mais gente a consultá-lo do que optar pelo descritivo «psicoterapeuta» - hoje associado a «processo que envolve tempo, esforço e lágrimas»
Que lugar ocupa a postura empática e o insight do paciente, nesta nova lógica (metodologia / paradigma)? «Mostrar (ou demonstrar?) o caminho», de forma persuasiva, será terapia? Ou Consultoria (mentoria)? Se o cartão de visita diz que é um «promotor da felicidade» - há uns anos atrás, seria rotulado como banha da cobra - o seu detentor terá mais gente a consultá-lo do que optar pelo descritivo «psicoterapeuta» - hoje associado a «processo que envolve tempo, esforço e lágrimas»
No final da prosa, fiquei ainda a saber que quem deseja navegar nos mares da saúde mental deverá criar a sua própria almofada de recursos complementares (lançamento de livros, eventos de divulgação, sessões de formação temáticas, dicas online) e, assim, manter – ou aumentar – o seu rendimento. Seja.
Adeus,
«linha branca» (ou terapeuta «tela em branco» para o paciente projectar / e
consciencializar, por essa via, as suas fantasias e conflitos e ensaiar, em
terapia, um modo diferente de estar numa relação de proximidade com alguém).
O meio é a mensagem, como dizia Marshall McLuhan. Na hora de causar uma boa impressão (ou uma ligação simbiótica) junto do destinatário (e numa economia de escala), o embrulho é fundamental. Para quem entra na corrida da comunicação de marca, o «problema» é saber quando parar. Quanto ao ofício propriamente dito, correm os terapeutas o risco de perder-se, entre papéis e laços?
O meio é a mensagem, como dizia Marshall McLuhan. Na hora de causar uma boa impressão (ou uma ligação simbiótica) junto do destinatário (e numa economia de escala), o embrulho é fundamental. Para quem entra na corrida da comunicação de marca, o «problema» é saber quando parar. Quanto ao ofício propriamente dito, correm os terapeutas o risco de perder-se, entre papéis e laços?
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sexta-feira, 11 de abril de 2014
Do Divã para a Cidade
quinta-feira, 10 de abril de 2014
A importância da atenção II
A funcionar em 20 escolas públicas do País, este programa de «treino» é realizado em sessões semanais. A funcionar há quatro anos, realiza-se em sessões semanais. Para os filhos, mas também para os pais, estas sessões têm benefícios na promoção da auto estima e na regulação de emoções.
Nesta sessão, foi dado destaque ao tema da atenção, que o rendimento escolar não dispensa. A capacidade de foco, aliada à empatia, é decisiva para uma comunicação eficaz e revela-se útil na realização de tarefas que envolvem planeamento e cooperação.
Veja o vídeo: Clube de Inteligência Emocional para Pais e Filhos
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Atenção!
«Está sempre distraído, pouco atento ao que se diz e mal se lembra do que deu nas aulas.» A queixa é comum a muitos encarregados de educação, também eles a braços com problemas de atenção («O que é que eu estava a dizer há pouco?» é a sequência provável de qualquer conversa, após mais uma notificação de mensagem no telemóvel).
A dispersão mental é consequência natural – embora indesejada – das múltiplas exigências quotidianas (tecnológicas incluídas) ou a ponta do iceberg do grupo de perturbações do desenvolvimento, que vieram para ficar, como «marca de desadaptação» da espécie?
O tema mereceu a análise de especialistas e a visita a uma das escolas onde existe um clube de inteligência emocional para alunos e pais, iniciado há quatro anos e a que 20 escolas já aderiram.
A Visão falou ainda, em exclusivo, com Daniel Goleman, sobre o seu novo livro, Foco.
Para saber mais, leia o artigo desta edição, que lhe apresenta dicas para aliar a capacidade de foco à criatividade.
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domingo, 30 de março de 2014
A Vida em Exame
Entrevista com Stephen Grosz, psicanalista americano
'A paranóia é uma defesa contra o sentimento de que ninguém pensa em nós'
Clara Soares
(Foto: Bettina von Zwehl)
|
Publicado na Revista Visão
Aos 60 anos, escreveu o seu primeiro livro e converteu-se num bestseller mundial, traduzido em mais de 19 línguas. O segredo está na forma de contar histórias, inspiradas nos seus casos clínicos
Nasceu e cresceu nos Estados Unidos mas escolheu a Europa para trabalhar e viver. O segundo de três irmãos, todos terapeutas, confessa-se apaixonado pela natureza humana.
Casado e pai tardio, entendeu legar aos seus filhos, de sete e dez anos, as lições que aprendeu ao longo de mais de 50 mil horas de consultas. O timing não foi ao acaso: com a sua idade, o seu pai teve dois ataques cardíacos (a mãe morreu aos 64).
"Estava na hora de partilhar as lições que aprendi".
A vida em Exame(Temas e debates, €16,60, 240 págs.) é o relato de 31 momentos singulares na relação entre analisando e analista. Com artigos científicos e participações nos media (Granta incluída), Grosz apresenta-se ao mundo num estilo comparável ao dos grandes repórteres e contadores de histórias.
Em entrevista exclusiva à VISÃO, ele partilha vislumbres de viagens em terras desconhecidas. As nossas e as dele, mediadas por um divã. Para, no final, chegarmos às nossas próprias conclusões
Casado e pai tardio, entendeu legar aos seus filhos, de sete e dez anos, as lições que aprendeu ao longo de mais de 50 mil horas de consultas. O timing não foi ao acaso: com a sua idade, o seu pai teve dois ataques cardíacos (a mãe morreu aos 64).
"Estava na hora de partilhar as lições que aprendi".
A vida em Exame(Temas e debates, €16,60, 240 págs.) é o relato de 31 momentos singulares na relação entre analisando e analista. Com artigos científicos e participações nos media (Granta incluída), Grosz apresenta-se ao mundo num estilo comparável ao dos grandes repórteres e contadores de histórias.
Em entrevista exclusiva à VISÃO, ele partilha vislumbres de viagens em terras desconhecidas. As nossas e as dele, mediadas por um divã. Para, no final, chegarmos às nossas próprias conclusões
O que o levou a transpor a experiência clínica de uma vida em 31 narrativas curtas?
Cresci numa família de contadores de histórias. Elas são a melhor maneira de comunicar uma verdade ou realidade psicológica. Na minha casa sempre se cultivou a curiosidade e o interesse genuíno pelas pessoas. Perceber como elas se tornam naquilo que são, a partir da experiência com elas, no aqui e no agora. Quis revisitar alguns estudos de caso que me permitissem ilustrar temas comuns a todos nós.
Não é comum um 'catedra' despojar-se dos termos técnicos, nem adotar um estilo literário.
Há uma tendência a trairmo-nos com o rótulo de especialistas. Por isso pus de lado o jargão especializado e abordei os problemas que encontrei - e procurei entender - através dos meus pacientes. Acredito que a psicanálise é uma forma de não saber. Só se sabe quando se faz o caminho em conjunto, com aquele que desconhecemos.
Afirma que podemos perder-nos nas nossas histórias pessoais. Porquê?
A vida funciona assim. A todos sucede ficar num impasse com outros: o marido com a mulher, os pais com os filhos, o terapeuta com o paciente. E vice-versa. É a partir do impasse, do equívoco, que se pode estabelecer uma ponte e chegar à compreensão e aprendizagem mútua do que não se sabia até aí.
O que faz quando os pacientes lhe pedem para mudar, mas sem que nada altere as suas vidas?
Mudar implica deixar algo para trás. Ir para a escola, para o banco da universidade, iniciar uma profissão ou uma família, são etapas novas que nos retiram do conforto das anteriores. Ganhar o jogo implica sempre perder alguma coisa. Mas isso nem sempre é claro.
Num dos capítulos menciona a vantagem de nos sentirmos um pouco loucos, paranóicos até.
A paranóia é uma defesa contra o sentimento de que ninguém pensa em nós. Por mais trágico que seja sentirmo-nos traídos, perseguidos ou não gostados, é sempre melhor do que a ideia de não estarmos no pensamento de alguém. Essa tendência evidencia-se à medida que se envelhece. Homens que foram poderosos e mulheres que foram bonitas ou com influência descobrem que o mundo os vota à indiferença.
Como interpreta a teoria da conspiração, tão enraizada na psique colectiva dos EUA?
Partilho a tese de um amigo meu, aqui do Reino Unido, [David Aaronovitch]. No livro Voodoo Histories, ele explica que as grandes conspirações modernas em torno de eventos dramáticos, como o 11 de Setembro ou o assassinato de JFK, são demasiado dolorosos e intoleráveis para serem admitidos, tal como aconteceram.
Por contraste, cultiva-se a imagem de estar sempre bem e em alta. O que acha disso?
Há uma diferença entre estar excitado e vivo. Na sociedade actual, espera-se que estejamos sempre alegres e a fazer muitas coisas, para não sermos vistos como tristes ou chatos. Ser pensativo é hoje sinónimo de estar deprimido. Tenho acompanhado pessoas, muitas delas jovens, que não conseguem sair da medicação, incapazes de sentir. De chorar. De tomar decisões. Parte do meu trabalho é acompanhá-las nesse processo, ajuda-las a viver como são, a sentirem-se vivos, presentes, merecedores de serem pensados.
Uma das críticas apontadas à psicanálise é ser um processo lento e dispendioso.
Em Londres existem profissionais que fazem preços sociais a uma minoria dos seus pacientes. Reconheço que é pouco e há quem nunca chegue a considerar esta via. Por razões culturais, por não ter tempo, dinheiro ou ambos. O livro é, também, a pensar naqueles para quem a psicanálise não está acessível.
Nenhum dos seus pacientes se queixou de ter sido reconhecido no material que publica?
Não, porque os casos são alterados em pormenores identificáveis e costumo mostrá-los aos pacientes antes de publicar. Mesmo quando se trata de alguém que já morreu, a preservação da identidade e o sigilo são a regra.
Dada a sua fama, acompanha pessoas à distância?
Pontualmente, sim. Faço algumas consultas e supervisões por telefone e também já atendi no meu consultório alguns portugueses. Confesso que gostava de ir a Portugal, que associo a uma cultura de grandes contadores de histórias.
Que diferenças há entre um estudo de caso e a narrativa literária?
Há quem defenda que são registos distintos. Muita coisa mudou desde Freud, Klein e Winnicott, mas há algo que se mantém. Escrever é, essencialmente, editar, ter a capacidade de vislumbrar um instante e captar o essencial, tal como um jornalista faz. Este livro tem 50 mil palavras e chegou a ter 150 mil. O psicanalista entra numa viagem, como os antropologistas Levi Strauss e Margaret Mead, ou o grande repórter Ryszard Kapuscinski. O que une os grandes contadores de histórias é a partilha de uma verdade única, onde a vivência tem muita força.
Refere-se ao exercício de estar na pele do outro?
Exatamente. Por vezes, enquanto clínico, sinto que sou penetrado pelos outros, ou a penetrar neles. Sento-me a escrever uma experiência intensa que tive com alguém diferente. Descrevo o que testemunhei, os detalhes e emoções que captei, porque estive lá. O propósito é sempre o mesmo: Se o leitor tivesse lá estado, tiraria as mesmas conclusões que eu?
sexta-feira, 21 de março de 2014
Autónomos ou autómatos?
O perigo do passado era que os homens se tornassem escravos. O perigo do futuro é que os homens se tornem autómatos.
A afirmação é da autoria de um psicanalista alemão que ficou famoso por obras como Escape From Freedom e Ter ou Ser. Erich Fromm não é do tempo da web 2.0. Morreu em 1980 e, bons anos antes, intuiu o que a sociologia designa por «modernidade líquida», em que tudo é volátil e carece de consistência.
A vida corre em cliques vários e parte do nosso tempo (e atenção) é passado a gerir logística. Acordamos com gadgets, falamos e comemos com gadgets, socializamos (e até podemos mediar atividades intimas) com gadgets. Por fim, adormecemos ligados à tecnologia. A ela devemos a liberdade de circulação no mercado livre, a ela somos fiéis e, desamparados ficamos, se nos privarem dela.
Há praticamente um século, Fromm descodificou o que hoje é bastante óbvio: temos necessidade de fugir da liberdade sempre que ela ameaça o nosso sentido de segurança. Mais depressa submetemos a nossa autonomia para decidir livremente a um Outro (organização, ideologia, etc) que nos proporcione um sentimento de conforto e proteção, mesmo que ilusórios.
Na pós modernidade, global e tecnológica, o lema «para a vida» deixou de ter lugar. Empregos, ideologias, amigos e amores flutuam ao sabor dos mercados. Tudo o que TEMOS agora, pode esfumar-se no minuto seguinte.
Estamos todos ligados, mas também mais isolados. SEREMOS mais livres, ou tornar-se-á insustentável tamanha leveza do SER?
sexta-feira, 7 de março de 2014
Quem sou Eu (na rede)?
Sexo –
Entrevista
Ana Cristina
Santos*
Socióloga no
Centro de Estudos Sociais (CES) da universidade de Coimbra
(foto: Elsa
Almeida)
«Não podemos
ter vários compartimentos fechados à chave»
Doutorada em estudos de género, a investigadora aceitou o convite da VISÃO e
analisa as implicações da expansão das categorias de género para mais de 50,
propostas pela maior rede social do mundo, o Facebook (FB). Será, também ela
(ou ele? ou @?), o grande laboratório social que vai revolucionar, outra vez,
as nossas vidas?
Clara Soares
A
diversidade de género é uma realidade conhecida e aceite em Portugal?
A atribuição
do género é feita com base numa avaliação genital e na socialização, numa
lógica dicotómica. Não há uma tradição de questionamento, ele só acontece
quando o género não coincide com o sexo biológico.
As categorias
de género do FB expressam novos fenómenos sociais ou a consciência do que já
existia?
Há mais
noção de que o modelo dicotómico não conta a história toda. Foi usado pela
medicina com o objetivo de classificar, conhecer e controlar a diversidade mas
esta não se compadece com modelos restritos. Agora, assistimos à explosão
pública do desconforto silenciado há décadas, sobretudo por movimentos sociais
que dão voz a estas demandas. A diversidade sempre existiu, a visibilidade que
assume é que é nova.
Este elenco
de categorias de género – mais de 50 – é credível?
As categorias
não são mutuamente exclusivas. Uma pessoa que seja mulher transexual, pode
situar-se na categoria MTF (male to female) mas também na Transgénero. Há
algumas designações que já estão a entrar no léxico, como o Cisgénero, mas
outras nem tanto, como o Neutrois (sem tradução para português). É uma área em
constante expansão, com grande margem para a subjetividade.
Sem haver
uma intenção científica, qual o alcance da proposta do FB?
O elenco foi
feito após auscultação de pessoas que trabalham nesta área. Questionar o
pensamento dicotómico gera inquietação, que estas categorias visam colmatar,
dando nome e legitimidade a realidades que existem, permitindo que as pessoas
se vejam descritas como se auto percecionam. O que se passava até aqui era as
pessoas encontrarem opções muito limitadas, e com as quais não se
identificavam, quando preenchiam o seu perfil.
Se a
funcionalidade do FB chegar a Portugal, há maior risco de se criarem identidades
fictícias (avatares)?
O que está
pensado pelo FB é alargar a possibilidade de identificação fora do âmbito
masculino v.s. feminino a outros países, trabalhando com pessoas noutros
contextos geográficos. O pior que podia acontecer era importarmos um modelo
globalizado sem levar em conta as geografias variáveis da sexualidade. Quanto
às ficções identitárias, isso também acontece com o modelo dicotómico e são
situações residuais.
Quais as
implicações desta maior liberdade de escolha?
Não podemos
ter vários compartimentos fechados à chave. Os seres humanos estão em
construção e são sujeitos a múltiplas transformações ao longo da vida. Nascemos
com um carimbo que nos é atribuído por outrem. À medida que vamos crescendo
vamos construindo a nossa identidade sexual. Por muitas categorias que existam,
não são imutáveis. Alargando categorias, alarga-se também a perceção social. As
fronteiras ficam mais ténues e ainda bem que assim é. Essa liberdade deve ser
aceite e respeitada.
Ainda se
confunde orientação sexual e identidade de género?
A orientação
sexual refere-se à atracção, desejo e afetos, independentemente da identidade
de género. Esta descreve a forma como cada pessoa se identifica: masculino,
feminino, ambos, ou nem uma coisa nem outra. O género não é orientação sexual,
descreve expectativas e papéis socialmente atribuídos à pessoa. É esperado, por
exemplo, que as mulheres biológicas tenham menos força física que os homens
biológicos. São ideias ancoradas em estereótipos, sem sustentação sólida.
Se
combinarmos as duas variáveis vamos ter muitos desfechos possíveis. É um
problema?
Tudo isto se
vai complexificar. Basta pensarmos que há pessoas que se definem como
assexuais. Ou intersexo. São situações de grande vulnerabilidade para as
crianças e famílias, que não sabem como lidar com isso. Há uma expectativa
cultural, e médica também, no sentido de pressionar para uma decisão, sobre se
a criança será construída como menino ou menina. O entendimento, a nível
internacional, é que essa decisão não deve ser tomada, antes deixada para mais
tarde, quando a pessoa já tiver uma noção sobre si. E poupá-la a situações de
grande mal-estar, resultantes de intervenções não autorizadas sobre o seu
corpo. Em Portugal, este assunto ainda é pouco discutido.
E qual seria
o nome próprio? Em Portugal não temos praticamente nomes neutros.
Temos leis
muito estritas. Elas determinam que o nome não pode suscitar dúvidas em termos
de género. Depois há a questão da língua: a inglesa presta-se mais essa
neutralidade, mas a portuguesa é muito pouco inclusiva. Há um pensamento
binário na língua, na liberdade de dar um nome a uma criança e no regime
dominante de género, que se exerce com a cumplicidade das autoridades médicas,
entre outras instituições.
Como se muda
esse cenário?
Começando
por respeitar a dignidade humana: reportarmo-nos às pessoas pela forma como
elas desejam ser designadas, sem entrar em juízos de valor. E assumir que a
diversidade é uma mais-valia, um recurso que deve ser protegido, mais do que
tolerado.
Há quem veja
na proposta do FB uma estratégica dirigida aos jovens que, segundo um estudo, estariam
a preterir esta rede em favor de outras. Quer comentar?
Esta é uma
iniciativa meritória, sobretudo por permitir uma reflexão sobre algo que nunca
é questionado. Basta pensar nos formulários preenchidos nas finanças, num
consultório médico, que só têm duas opções e nem contemplam a possibilidade de
«outros» [géneros]. À boleia do FB, há toda uma perplexidade que emerge: o que
antes era considerado uma disforia de género, fica agora em pé de igualdade com
outras categorias. O patamar que as torna equiparáveis é a auto identidade e
isso tem um poder tremendo. Deixa de haver as legítimas e as outras.
Simbolicamente, é um bom passo.
* coordenadora do projeto INTIMATE— Citizenship, Care and Choice: The
Micropolitics of Intimacy in Southern Europe
Entrevista publicada na Visão online
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
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