sexta-feira, 11 de abril de 2014

Do Divã para a Cidade


Psicólogo americano traz a Lisboa documentário sobre cenários de trauma. Seguir em frente sem ficar perdido nos escombros, em Detroit ou noutro lugar do planeta, só é possível quando se criam pontes entre o fim e o princípio

Como se superam experiências de desmoronamento, que abalam o sentido de permanência? Camuflar ou passar uma esponja nos sentimentos de dor, perda, nostalgia pelo que não vai voltar a ser como antes, impede a transição, o estar bem com o depois, sem resistir às mudanças. No próximo sábado, dia 12, no encontro anual da AP (Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica), dedicado ao trauma, o psicólogo e psicanalista americano Richard Raubolt vai partilhar histórias de reconstrução humana que, ao longo de 35 anos, foram tendo lugar no gabinete de consulta (narrativas terapêuticas em forma de livro, Cenários Psicanalíticos do Trauma, Coisas de Ler, €17) e, mais recentemente, na paisagem urbana. 

Richard vive em Grand Rapids, no Estado de Michigan, a duas horas e meia de Detroit, cidade que conheceu e com a qual se envolveu (ali passou os tempos de liceu e esteve nos motins de 1967). Confrontado com o impacto visual da cidade fantasma e as reportagens fotográficas de edifícios sem gente, Richard entendeu que era preciso levar o olhar terapêutico ao bairro, à periferia e dar a ver outras realidades. "Abordei residentes, artistas e activistas, nos mesmos moldes em que o faço em contexto clínico, para os protagonistas expressarem os sentimentos e as histórias por que passaram, e do que estão a fazer com isso."
Detroit: In Between é uma viagem de 34 minutos, com a voz e os rostos de seis pessoas que habitam - e intervêm - na cidade em transição. Os espaços renovam-se, ganham outras funcionalidades, sem abandonar as que as antecederam, ou melhor, reconhecendo-lhes valor. Como a casa cortada a meio por uma nova estrada em construção que, em vez de demolida, é parcialmente usada para iniciativas culturais. "Os rituais de luto individuais e a expressão criativa permitem criar algo intermédio, onde o velho e o novo possam coabitar", explica o terapeuta /realizador. "Eliminar ou negar o que foi traumático impede que a mudança aconteça, que tenha direito a um lugar."      
Os fantasmas do passado das vítimas representam assuntos não resolvidos e intergeracionais, que merecem, segundo o autor, uma abordagem terapêutica mais ampla, "que se guia menos pelas interpretações académicas e se aproxima mais do paciente, sem temer a intensidade emocional que isso envolve". Na sala de consulta e no tecido urbano: "Precisamos de entrar na cidade, vê-la a partir de dentro e usar as competências clínicas em projetos com um alcance direto, que tragam significado à vida das pessoas."
C.S.
(publicado no site da Visão, a 11.04.2013)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A importância da atenção II


No Clube de Inteligência Emocional na Escola - Aprender a Ser Feliz, desenvolvido pela professora Manuela Queirós, os participantes aprendem a desenvolver competências emocionais e fazem exercícios de consciência corporal.

A funcionar em 20 escolas públicas do País, este programa de «treino» é realizado em sessões semanais. A funcionar há quatro anos, realiza-se em sessões semanais. Para os filhos, mas também para os pais, estas sessões têm benefícios na promoção da auto estima e na regulação de emoções.

Nesta sessão, foi dado destaque ao tema da atenção, que o rendimento escolar não dispensa. A capacidade de foco, aliada à empatia, é decisiva para uma comunicação eficaz e revela-se útil na realização de tarefas que envolvem planeamento e cooperação.

Veja o vídeo: Clube de Inteligência Emocional para Pais e Filhos




quarta-feira, 2 de abril de 2014

Atenção!


«Está sempre distraído, pouco atento ao que se diz e mal se lembra do que deu nas aulas.» A queixa é comum a muitos encarregados de educação, também eles a braços com problemas de atenção («O que é que eu estava a dizer há pouco?» é a sequência provável de qualquer conversa, após mais uma notificação de mensagem no telemóvel). 

A dispersão mental é consequência natural – embora indesejada – das múltiplas exigências quotidianas (tecnológicas incluídas) ou a ponta do iceberg do grupo de perturbações do desenvolvimento, que vieram para ficar, como «marca de desadaptação» da espécie?



O tema mereceu a análise de especialistas e a visita a uma das escolas onde existe um clube de inteligência emocional para alunos e pais, iniciado há quatro anos e a que 20 escolas já aderiram. 

A Visão falou ainda, em exclusivo, com Daniel Goleman, sobre o seu novo livro, Foco

Para saber mais, leia o artigo desta edição, que lhe apresenta dicas para aliar a capacidade de foco à criatividade.



domingo, 30 de março de 2014

A Vida em Exame

Entrevista com Stephen Grosz, psicanalista americano

'A paranóia é uma defesa contra o sentimento de que ninguém pensa em nós'

Publicado na Revista Visão


Aos 60 anos, escreveu o seu primeiro livro e converteu-se num bestseller mundial, traduzido em mais de 19 línguas. O segredo está na forma de contar histórias, inspiradas nos seus casos clínicos

Nasceu e cresceu nos Estados Unidos mas escolheu a Europa para trabalhar e viver. O segundo de três irmãos, todos terapeutas, confessa-se apaixonado pela natureza humana. 
Casado e pai tardio, entendeu legar aos seus filhos, de sete e dez anos, as lições que aprendeu ao longo de mais de 50 mil horas de consultas. O timing não foi ao acaso: com a sua idade, o seu pai teve dois ataques cardíacos (a mãe morreu aos 64). 
"Estava na hora de partilhar as lições que aprendi". 
A vida em Exame(Temas e debates, €16,60, 240 págs.) é o relato de 31 momentos singulares na relação entre analisando e analista. Com artigos científicos e participações nos media (Granta incluída), Grosz apresenta-se ao mundo num estilo comparável ao dos grandes repórteres e contadores de histórias. 
Em entrevista exclusiva à VISÃO, ele partilha vislumbres de viagens em terras desconhecidas. As nossas e as dele, mediadas por um divã. Para, no final, chegarmos às nossas próprias conclusões 

O que o levou a transpor a experiência clínica de uma vida em 31 narrativas curtas?
Cresci numa família de contadores de histórias. Elas são a melhor maneira de comunicar uma verdade ou realidade psicológica. Na minha casa sempre se cultivou a curiosidade e o interesse genuíno pelas pessoas. Perceber como elas se tornam naquilo que são, a partir da experiência com elas, no aqui e no agora. Quis revisitar alguns estudos de caso que me permitissem ilustrar temas comuns a todos nós.

Não é comum um 'catedra' despojar-se dos termos técnicos, nem adotar um estilo literário.
Há uma tendência a trairmo-nos com o rótulo de especialistas. Por isso pus de lado o jargão especializado e abordei os problemas que encontrei - e procurei entender - através dos meus pacientes. Acredito que a psicanálise é uma forma de não saber. Só se sabe quando se faz o caminho em conjunto, com aquele que desconhecemos.

Afirma que podemos perder-nos nas nossas histórias pessoais. Porquê?  
A vida funciona assim. A todos sucede ficar num impasse com outros: o marido com a mulher, os pais com os filhos, o terapeuta com o paciente. E vice-versa. É a partir do impasse, do equívoco, que se pode estabelecer uma ponte e chegar à compreensão e aprendizagem mútua do que não se sabia até aí.

O que faz quando os pacientes lhe pedem para mudar, mas sem que nada altere as suas vidas?
Mudar implica deixar algo para trás. Ir para a escola, para o banco da universidade, iniciar uma profissão ou uma família, são etapas novas que nos retiram do conforto das anteriores. Ganhar o jogo implica sempre perder alguma coisa. Mas isso nem sempre é claro.

Num dos capítulos menciona a vantagem de nos sentirmos um pouco loucos, paranóicos até. 
A paranóia é uma defesa contra o sentimento de que ninguém pensa em nós. Por mais trágico que seja sentirmo-nos traídos, perseguidos ou não gostados, é sempre melhor do que a ideia de não estarmos no pensamento de alguém. Essa tendência evidencia-se à medida que se envelhece. Homens que foram poderosos e mulheres que foram bonitas ou com influência descobrem que o mundo os vota à indiferença.

Como interpreta a teoria da conspiração, tão enraizada na psique colectiva dos EUA?
Partilho a tese de um amigo meu, aqui do Reino Unido, [David Aaronovitch]. No livro Voodoo Histories, ele explica que as grandes conspirações modernas em torno de eventos dramáticos, como o 11 de Setembro ou o assassinato de JFK, são demasiado dolorosos e intoleráveis para serem admitidos, tal como aconteceram.

Por contraste, cultiva-se a imagem de estar sempre bem e em alta. O que acha disso?
Há uma diferença entre estar excitado e vivo. Na sociedade actual, espera-se que estejamos sempre alegres e a fazer muitas coisas, para não sermos vistos como tristes ou chatos. Ser pensativo é hoje sinónimo de estar deprimido. Tenho acompanhado pessoas, muitas delas jovens, que não conseguem sair da medicação, incapazes de sentir. De chorar. De tomar decisões. Parte do meu trabalho é acompanhá-las nesse processo, ajuda-las a viver como são, a sentirem-se vivos, presentes, merecedores de serem pensados.

Uma das críticas apontadas à psicanálise é ser um processo lento e dispendioso.   
Em Londres existem profissionais que fazem preços sociais a uma minoria dos seus pacientes. Reconheço que é pouco e há quem nunca chegue a considerar esta via. Por razões culturais, por não ter tempo, dinheiro ou ambos. O livro é, também, a pensar naqueles para quem a psicanálise não está acessível.

Nenhum dos seus pacientes se queixou de ter sido reconhecido no material que publica?
Não, porque os casos são alterados em pormenores identificáveis e costumo mostrá-los aos pacientes antes de publicar. Mesmo quando se trata de alguém que já morreu, a preservação da identidade e o sigilo são a regra.

Dada a sua fama, acompanha pessoas à distância?
Pontualmente, sim. Faço algumas consultas e supervisões por telefone e também já atendi no meu consultório alguns portugueses. Confesso que gostava de ir a Portugal, que associo a uma cultura de grandes contadores de histórias.

Que diferenças há entre um estudo de caso e a narrativa literária?
Há quem defenda que são registos distintos. Muita coisa mudou desde Freud, Klein e Winnicott, mas há algo que se mantém. Escrever é, essencialmente, editar, ter a capacidade de vislumbrar um instante e captar o essencial, tal como um jornalista faz. Este livro tem 50 mil palavras e chegou a ter 150 mil. O psicanalista entra numa viagem, como os antropologistas Levi Strauss e Margaret Mead, ou o grande repórter Ryszard Kapuscinski. O que une os grandes contadores de histórias é a partilha de uma verdade única, onde a vivência tem muita força.

Refere-se ao exercício de estar na pele do outro?
Exatamente. Por vezes, enquanto clínico, sinto que sou penetrado pelos outros, ou a penetrar neles. Sento-me a escrever uma experiência intensa que tive com alguém diferente. Descrevo o que testemunhei, os detalhes e emoções que captei, porque estive lá. O propósito é sempre o mesmo: Se o leitor tivesse lá estado, tiraria as mesmas conclusões que eu?

sexta-feira, 21 de março de 2014

Autónomos ou autómatos?


O perigo do passado era que os homens se tornassem escravos. O perigo do futuro é que os homens se tornem autómatos.

A afirmação é da autoria de um psicanalista alemão que ficou famoso por obras como Escape From Freedom e Ter ou Ser. Erich Fromm não é do tempo da web 2.0.  Morreu em 1980 e, bons anos antes, intuiu o que a sociologia designa por «modernidade líquida», em que tudo é volátil e carece de consistência. 

A vida corre em cliques vários e parte do nosso tempo (e atenção) é passado a gerir logística.  Acordamos com gadgets, falamos e comemos com gadgets, socializamos (e até podemos mediar atividades intimas) com gadgets. Por fim, adormecemos ligados à tecnologia. A ela devemos a liberdade de circulação no mercado livre, a ela somos fiéis e, desamparados ficamos, se nos privarem dela.     



Há praticamente um século, Fromm descodificou o que hoje é bastante óbvio: temos necessidade de fugir da liberdade sempre que ela ameaça o nosso sentido de segurança. Mais depressa submetemos a nossa autonomia para decidir livremente a um Outro (organização, ideologia, etc) que nos proporcione um sentimento de conforto e proteção, mesmo que ilusórios. 


Na pós modernidade, global e tecnológica, o lema «para a vida» deixou de ter lugar. Empregos, ideologias, amigos e amores flutuam ao sabor dos mercados. Tudo o que TEMOS agora, pode esfumar-se no minuto seguinte. 

Estamos todos ligados, mas também mais isolados. SEREMOS mais livres, ou tornar-se-á insustentável tamanha leveza do SER?


sexta-feira, 7 de março de 2014

Quem sou Eu (na rede)?

Sexo – Entrevista 

Ana Cristina Santos*
Socióloga no Centro de Estudos Sociais (CES) da universidade de Coimbra



(foto: Elsa Almeida)  
«Não podemos ter vários compartimentos fechados à chave» 

Doutorada em estudos de género, a investigadora aceitou o convite da VISÃO e analisa as implicações da expansão das categorias de género para mais de 50, propostas pela maior rede social do mundo, o Facebook (FB). Será, também ela (ou ele? ou @?), o grande laboratório social que vai revolucionar, outra vez, as nossas vidas?
Clara Soares

A diversidade de género é uma realidade conhecida e aceite em Portugal?
A atribuição do género é feita com base numa avaliação genital e na socialização, numa lógica dicotómica. Não há uma tradição de questionamento, ele só acontece quando o género não coincide com o sexo biológico.

As categorias de género do FB expressam novos fenómenos sociais ou a consciência do que já existia?
Há mais noção de que o modelo dicotómico não conta a história toda. Foi usado pela medicina com o objetivo de classificar, conhecer e controlar a diversidade mas esta não se compadece com modelos restritos. Agora, assistimos à explosão pública do desconforto silenciado há décadas, sobretudo por movimentos sociais que dão voz a estas demandas. A diversidade sempre existiu, a visibilidade que assume é que é nova.  

Este elenco de categorias de género – mais de 50 – é credível?
As categorias não são mutuamente exclusivas. Uma pessoa que seja mulher transexual, pode situar-se na categoria MTF (male to female) mas também na Transgénero. Há algumas designações que já estão a entrar no léxico, como o Cisgénero, mas outras nem tanto, como o Neutrois (sem tradução para português). É uma área em constante expansão, com grande margem para a subjetividade. 

Sem haver uma intenção científica, qual o alcance da proposta do FB?
O elenco foi feito após auscultação de pessoas que trabalham nesta área. Questionar o pensamento dicotómico gera inquietação, que estas categorias visam colmatar, dando nome e legitimidade a realidades que existem, permitindo que as pessoas se vejam descritas como se auto percecionam. O que se passava até aqui era as pessoas encontrarem opções muito limitadas, e com as quais não se identificavam, quando preenchiam o seu perfil.  

Se a funcionalidade do FB chegar a Portugal, há maior risco de se criarem identidades fictícias (avatares)?
O que está pensado pelo FB é alargar a possibilidade de identificação fora do âmbito masculino v.s. feminino a outros países, trabalhando com pessoas noutros contextos geográficos. O pior que podia acontecer era importarmos um modelo globalizado sem levar em conta as geografias variáveis da sexualidade. Quanto às ficções identitárias, isso também acontece com o modelo dicotómico e são situações residuais.

Quais as implicações desta maior liberdade de escolha?
Não podemos ter vários compartimentos fechados à chave. Os seres humanos estão em construção e são sujeitos a múltiplas transformações ao longo da vida. Nascemos com um carimbo que nos é atribuído por outrem. À medida que vamos crescendo vamos construindo a nossa identidade sexual. Por muitas categorias que existam, não são imutáveis. Alargando categorias, alarga-se também a perceção social. As fronteiras ficam mais ténues e ainda bem que assim é. Essa liberdade deve ser aceite e respeitada.  

Ainda se confunde orientação sexual e identidade de género?
A orientação sexual refere-se à atracção, desejo e afetos, independentemente da identidade de género. Esta descreve a forma como cada pessoa se identifica: masculino, feminino, ambos, ou nem uma coisa nem outra. O género não é orientação sexual, descreve expectativas e papéis socialmente atribuídos à pessoa. É esperado, por exemplo, que as mulheres biológicas tenham menos força física que os homens biológicos. São ideias ancoradas em estereótipos, sem sustentação sólida.   

Se combinarmos as duas variáveis vamos ter muitos desfechos possíveis. É um problema?
Tudo isto se vai complexificar. Basta pensarmos que há pessoas que se definem como assexuais. Ou intersexo. São situações de grande vulnerabilidade para as crianças e famílias, que não sabem como lidar com isso. Há uma expectativa cultural, e médica também, no sentido de pressionar para uma decisão, sobre se a criança será construída como menino ou menina. O entendimento, a nível internacional, é que essa decisão não deve ser tomada, antes deixada para mais tarde, quando a pessoa já tiver uma noção sobre si. E poupá-la a situações de grande mal-estar, resultantes de intervenções não autorizadas sobre o seu corpo. Em Portugal, este assunto ainda é pouco discutido. 

E qual seria o nome próprio? Em Portugal não temos praticamente nomes neutros.
Temos leis muito estritas. Elas determinam que o nome não pode suscitar dúvidas em termos de género. Depois há a questão da língua: a inglesa presta-se mais essa neutralidade, mas a portuguesa é muito pouco inclusiva. Há um pensamento binário na língua, na liberdade de dar um nome a uma criança e no regime dominante de género, que se exerce com a cumplicidade das autoridades médicas, entre outras instituições.  

Como se muda esse cenário?
Começando por respeitar a dignidade humana: reportarmo-nos às pessoas pela forma como elas desejam ser designadas, sem entrar em juízos de valor. E assumir que a diversidade é uma mais-valia, um recurso que deve ser protegido, mais do que tolerado.

Há quem veja na proposta do FB uma estratégica dirigida aos jovens que, segundo um estudo, estariam a preterir esta rede em favor de outras. Quer comentar?
Esta é uma iniciativa meritória, sobretudo por permitir uma reflexão sobre algo que nunca é questionado. Basta pensar nos formulários preenchidos nas finanças, num consultório médico, que só têm duas opções e nem contemplam a possibilidade de «outros» [géneros]. À boleia do FB, há toda uma perplexidade que emerge: o que antes era considerado uma disforia de género, fica agora em pé de igualdade com outras categorias. O patamar que as torna equiparáveis é a auto identidade e isso tem um poder tremendo. Deixa de haver as legítimas e as outras. Simbolicamente, é um bom passo.


* coordenadora do projeto INTIMATE— Citizenship, Care and Choice: The Micropolitics of Intimacy in Southern Europe

Entrevista publicada na Visão online

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

VI Encontro Anual da AP dedicado ao Trauma

Mais informações no site da AP

Detroit: Living In Between





O autor deste documentário é americano, psicólogo e psicanalista e vai estar em Portugal, no VI Congresso Anual da AP dedicado ao Trauma.  Chama-se Richard Raubolt e desafia-nos a olhar a «meca das ruínas urbanas» pelo lado humano, dando destaque às vozes dos seus habitantes. A Detroit que eles contam como foi, como é e como pode vir a ser, é a homenagem que desejou prestar-lhes.


Saiba mais sobre ele AQUI

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Farta de ser a má da fita?

As mães ditam as regras, fazem cara de má, e mandam arrumar o quarto. Os pais jogam computador e levam a passear. Há forma de mudar isto.

(Excerto de artigo assinado por Catarina Fonseca.)
Ler o artigo completo em - Revista Activa)

No tempo dos nossos avós, ao papel de mau da fita cabia ao pai, que era tradicionalmente a fonte da autoridade. Com a maior autonomia das mães, estas passaram a assumir o papel de disciplinadoras.
A situação acontece tradicionalmente quando pai e mãe se divorciam, mas também é comum em muitos casais: a mãe é que impõe as regras, manda fazer os trabalhos e arrumar o quarto, e o pai joga Playstation, dá presentes e leva as crianças a passear. Os sites (e a vida) estão cheios de desabafos de mães fartas deste papel de ‘polícia familiar’.
Ser a ‘má da fita’ é uma situação que, também tradicionalmente, se intensificava com o divórcio: à mãe, que ficava com a criança no dia a dia, cumpria o ingrato papel de polícia. Ao pai de fim de semana, os presentes, as saídas, e os cinemas.

Desde 2008, quando a Lei do Divórcio mudou, que o regime da guarda partilhada passou a ser a regra, e a autoridade cabe... à pessoa que estiver na altura com a criança. “Ou seja, a autoridade acaba por ser quem está mais à mão”, nota Clara Soares, psicóloga, jornalista e autora de vários artigos sobre o divórcio. “Os homens deixaram de ser pais de fim de semana e passaram mesmo a ter de ser pais a tempo inteiro. Portanto, o esquema tradicional em que o pai impunha a autoridade morreu, mas o esquema seguinte em que era o pai que dava os presentes também já vai pelo mesmo caminho.”
Por outro lado, estamos numa sociedade de consumo, onde os filhos podem ser mais facilmente subornáveis. “É inevitável que as regras sejam diferentes em cada casa”, nota Clara Soares. “Se o tempo for de qualidade não é necessário dar alguma coisa para impor uma coisa que já tem, tipo ‘vou-te dar um telemóvel para compensar o pouco tempo que eu passo contigo’. Os miúdos percebem quando estão a ser subornados, e podem fazer chantagem: ‘Vou pedir ao pai para me dar o telemóvel porque tu és má e não dás.’”
Mesmo que seja a nível de dinheiro, estamos sempre a falar da atenção dispensada. “Mas os filhos só exigem alguma coisa quando não se sentem suficientemente ambientados, e quando ninguém estabelece limites”, nota Clara Soares.

Quando falta autoridade aos dois pais, o que acontece é que os presentes substituem uma relação, e as próprias crianças podem começar a exigi-las como compensação para o que não têm. “As crianças, se não têm o que é essencial, agarram-se ao acessório”, explica a psicóloga. “E mais tarde começam a odiar as pessoas à volta delas porque repetem o ponto de fuga que está automatizado.”
Por exemplo: um rapaz que foi ‘comprado’ com presentes por pai ou mãe, habitua-se a resolver a vida nessa base. “Imaginemos um rapaz que está sempre a fazer de homenzinho da casa para chamar a atenção da mãe. Quando passa o tempo a chamar a atenção da miúda e ela o ignora, ele dá-lhe coisas com medo de a perder mas sem necessariamente saber se gosta dela. Então, pode estar a repetir a operação de charme que foi obrigado a desenvolver para sobreviver em casa. Foi uma projeção para o exterior do seu ponto de fuga, o seu ângulo cego, aquela área que não vemos porque estamos demasiado próximos.”
Ou seja, em conclusão, hoje em dia já não há esquemas definidos para a definição de autoridade numa família.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sexo: À minha maneira

Pesquisa portuguesa inédita revela: ter uma atitude positiva após um fracasso íntimo aumenta a resistência psicológica e melhora a vida sexual, enquanto que dramatizar só piora.


Sabia que pode tornar a sua vida íntima mais rica ou convertê-la num inferno, consoante o seu tipo de dieta? Não é dessa alimentação que estamos a falar. Os pensamentos e emoções são ingredientes que fazem toda a diferença durante a resposta sexual.
O Laboratório de Investigação em Sexualidade Humana (SexLab), na Universidade do Porto, divulga, em exclusivo para a revista VISÃO, os resultados de um estudo inovador, apresentado recentemente no Congresso da Sociedade Europeia de Medicina Sexual, em Istambul, na Turquia. O estudo - Resposta Sexual Perante Falso Feedback Negativo - pretendeu apurar em que grau as variáveis psicológicas interferem no aparecimento de dificuldades sexuais.

A equipa coordenada pelo psicólogo Pedro Nobre recriou, em ambiente experimental, uma situação que a maioria de nós terá já experimentado na vida real: receber uma informação negativa acerca do seu desempenho. A meta: saber como os participantes lidavam com essa mensagem, desconhecendo que era falsa.
Os 160 voluntários - heterossexuais jovens (média etária situa-se nos 23 anos) e sem problemas sexuais - foram convidados a visionar, individualmente, um filme de três minutos com cenas de sexo explícito, enquanto lhes era medida a resposta sexual, em tempo real (através de dispositivos colocados na zona genital, ligados a computador). A seguir, eram informados, via intercomunicador, de que a sua reação sexual era inferior à média.
Após visionarem o segundo filme, as reações físicas e psicológicas foram avaliadas e comparadas com as do grupo de controlo (que não recebeu a informação falsa). Os resultados foram surpreendentes e com maiores implicações no sexo masculino.

Atitude positiva
A pesquisa, que recria artificialmente uma situação de insucesso sexual, mostrou que ambos os sexos relataram, em média, ter sentido menos prazer e excitação no segundo filme (após a "má noticia"). Porém, esse impacto não se traduziu na resposta fisiológica, que se manteve sensivelmente a mesma nas mulheres (vasocongestão vaginal) e com algumas alterações negativas nos homens (ao nível da ereção).
As diferenças relatadas individualmente deveram-se, sobretudo, aos pensamentos eróticos e emoções positivas: uns e outros tendem a reduzir o impacto da situação incómoda ou desagradável, na intimidade. "A forma como as pessoas lidam com as experiências sexuais negativas determina as suas repostas no futuro", esclarece Pedro Nobre. Ou seja, manter ou promover uma atitude favorável numa situação adversa permite ganhar resiliência. O contrário - catastrofizar, por exemplo - traduz-se em "mais vulnerabilidade para desenvolver dificuldades sexuais a posteriori".
Assim, no momento de perguntar "gostaste?", afirmações aparentemente inócuas, como "mais ou menos" ou "nem por isso", podem revelar-se particularmente mortíferas, especialmente se quem recebe a mensagem tiver pouca "fibra" psicológica para aguentar o desafio.

O mito da perfeição
Em ultima análise, a perceção subjetiva de prazer é condicionada pelas nossas crenças. O estado de saúde das nossas vidas privadas parece, contudo, ameaçado pelo "vírus" das crenças irrealistas que continuam a vigorar na sociedade atual. A saber: "No caso do homem, a ideia do macho latino, que nunca falha na cama, com posição e estatuto, etc; na mulher, exigências como satisfazer o parceiro, ser sexualmente ativa, ter orgasmo durante o coito, e de preferência mais que um, além de ser boa no trabalho e no lar." Apetece perguntar se ainda faz sentido a dupla icónica Ken & Barbie (convertida em Bimby, na Era multitarefa).
Estes mitos parecem constituir fatores de risco para, mais cedo ou mais tarde, vir a desenvolver dificuldades sexuais. A pensar na melhoria dos tratamentos psicológicos para lidar com elas, o SexLab tem novo estudo a decorrer na consulta de sexologia da Universidade de Lisboa, que pressupõe o acompanhamento gratuito a homens com disfunção erétil. 

VEJA as FOTOS em Visão Online (publicado em 12.02.2014)