sexta-feira, 21 de março de 2014

Autónomos ou autómatos?


O perigo do passado era que os homens se tornassem escravos. O perigo do futuro é que os homens se tornem autómatos.

A afirmação é da autoria de um psicanalista alemão que ficou famoso por obras como Escape From Freedom e Ter ou Ser. Erich Fromm não é do tempo da web 2.0.  Morreu em 1980 e, bons anos antes, intuiu o que a sociologia designa por «modernidade líquida», em que tudo é volátil e carece de consistência. 

A vida corre em cliques vários e parte do nosso tempo (e atenção) é passado a gerir logística.  Acordamos com gadgets, falamos e comemos com gadgets, socializamos (e até podemos mediar atividades intimas) com gadgets. Por fim, adormecemos ligados à tecnologia. A ela devemos a liberdade de circulação no mercado livre, a ela somos fiéis e, desamparados ficamos, se nos privarem dela.     



Há praticamente um século, Fromm descodificou o que hoje é bastante óbvio: temos necessidade de fugir da liberdade sempre que ela ameaça o nosso sentido de segurança. Mais depressa submetemos a nossa autonomia para decidir livremente a um Outro (organização, ideologia, etc) que nos proporcione um sentimento de conforto e proteção, mesmo que ilusórios. 


Na pós modernidade, global e tecnológica, o lema «para a vida» deixou de ter lugar. Empregos, ideologias, amigos e amores flutuam ao sabor dos mercados. Tudo o que TEMOS agora, pode esfumar-se no minuto seguinte. 

Estamos todos ligados, mas também mais isolados. SEREMOS mais livres, ou tornar-se-á insustentável tamanha leveza do SER?


sexta-feira, 7 de março de 2014

Quem sou Eu (na rede)?

Sexo – Entrevista 

Ana Cristina Santos*
Socióloga no Centro de Estudos Sociais (CES) da universidade de Coimbra



(foto: Elsa Almeida)  
«Não podemos ter vários compartimentos fechados à chave» 

Doutorada em estudos de género, a investigadora aceitou o convite da VISÃO e analisa as implicações da expansão das categorias de género para mais de 50, propostas pela maior rede social do mundo, o Facebook (FB). Será, também ela (ou ele? ou @?), o grande laboratório social que vai revolucionar, outra vez, as nossas vidas?
Clara Soares

A diversidade de género é uma realidade conhecida e aceite em Portugal?
A atribuição do género é feita com base numa avaliação genital e na socialização, numa lógica dicotómica. Não há uma tradição de questionamento, ele só acontece quando o género não coincide com o sexo biológico.

As categorias de género do FB expressam novos fenómenos sociais ou a consciência do que já existia?
Há mais noção de que o modelo dicotómico não conta a história toda. Foi usado pela medicina com o objetivo de classificar, conhecer e controlar a diversidade mas esta não se compadece com modelos restritos. Agora, assistimos à explosão pública do desconforto silenciado há décadas, sobretudo por movimentos sociais que dão voz a estas demandas. A diversidade sempre existiu, a visibilidade que assume é que é nova.  

Este elenco de categorias de género – mais de 50 – é credível?
As categorias não são mutuamente exclusivas. Uma pessoa que seja mulher transexual, pode situar-se na categoria MTF (male to female) mas também na Transgénero. Há algumas designações que já estão a entrar no léxico, como o Cisgénero, mas outras nem tanto, como o Neutrois (sem tradução para português). É uma área em constante expansão, com grande margem para a subjetividade. 

Sem haver uma intenção científica, qual o alcance da proposta do FB?
O elenco foi feito após auscultação de pessoas que trabalham nesta área. Questionar o pensamento dicotómico gera inquietação, que estas categorias visam colmatar, dando nome e legitimidade a realidades que existem, permitindo que as pessoas se vejam descritas como se auto percecionam. O que se passava até aqui era as pessoas encontrarem opções muito limitadas, e com as quais não se identificavam, quando preenchiam o seu perfil.  

Se a funcionalidade do FB chegar a Portugal, há maior risco de se criarem identidades fictícias (avatares)?
O que está pensado pelo FB é alargar a possibilidade de identificação fora do âmbito masculino v.s. feminino a outros países, trabalhando com pessoas noutros contextos geográficos. O pior que podia acontecer era importarmos um modelo globalizado sem levar em conta as geografias variáveis da sexualidade. Quanto às ficções identitárias, isso também acontece com o modelo dicotómico e são situações residuais.

Quais as implicações desta maior liberdade de escolha?
Não podemos ter vários compartimentos fechados à chave. Os seres humanos estão em construção e são sujeitos a múltiplas transformações ao longo da vida. Nascemos com um carimbo que nos é atribuído por outrem. À medida que vamos crescendo vamos construindo a nossa identidade sexual. Por muitas categorias que existam, não são imutáveis. Alargando categorias, alarga-se também a perceção social. As fronteiras ficam mais ténues e ainda bem que assim é. Essa liberdade deve ser aceite e respeitada.  

Ainda se confunde orientação sexual e identidade de género?
A orientação sexual refere-se à atracção, desejo e afetos, independentemente da identidade de género. Esta descreve a forma como cada pessoa se identifica: masculino, feminino, ambos, ou nem uma coisa nem outra. O género não é orientação sexual, descreve expectativas e papéis socialmente atribuídos à pessoa. É esperado, por exemplo, que as mulheres biológicas tenham menos força física que os homens biológicos. São ideias ancoradas em estereótipos, sem sustentação sólida.   

Se combinarmos as duas variáveis vamos ter muitos desfechos possíveis. É um problema?
Tudo isto se vai complexificar. Basta pensarmos que há pessoas que se definem como assexuais. Ou intersexo. São situações de grande vulnerabilidade para as crianças e famílias, que não sabem como lidar com isso. Há uma expectativa cultural, e médica também, no sentido de pressionar para uma decisão, sobre se a criança será construída como menino ou menina. O entendimento, a nível internacional, é que essa decisão não deve ser tomada, antes deixada para mais tarde, quando a pessoa já tiver uma noção sobre si. E poupá-la a situações de grande mal-estar, resultantes de intervenções não autorizadas sobre o seu corpo. Em Portugal, este assunto ainda é pouco discutido. 

E qual seria o nome próprio? Em Portugal não temos praticamente nomes neutros.
Temos leis muito estritas. Elas determinam que o nome não pode suscitar dúvidas em termos de género. Depois há a questão da língua: a inglesa presta-se mais essa neutralidade, mas a portuguesa é muito pouco inclusiva. Há um pensamento binário na língua, na liberdade de dar um nome a uma criança e no regime dominante de género, que se exerce com a cumplicidade das autoridades médicas, entre outras instituições.  

Como se muda esse cenário?
Começando por respeitar a dignidade humana: reportarmo-nos às pessoas pela forma como elas desejam ser designadas, sem entrar em juízos de valor. E assumir que a diversidade é uma mais-valia, um recurso que deve ser protegido, mais do que tolerado.

Há quem veja na proposta do FB uma estratégica dirigida aos jovens que, segundo um estudo, estariam a preterir esta rede em favor de outras. Quer comentar?
Esta é uma iniciativa meritória, sobretudo por permitir uma reflexão sobre algo que nunca é questionado. Basta pensar nos formulários preenchidos nas finanças, num consultório médico, que só têm duas opções e nem contemplam a possibilidade de «outros» [géneros]. À boleia do FB, há toda uma perplexidade que emerge: o que antes era considerado uma disforia de género, fica agora em pé de igualdade com outras categorias. O patamar que as torna equiparáveis é a auto identidade e isso tem um poder tremendo. Deixa de haver as legítimas e as outras. Simbolicamente, é um bom passo.


* coordenadora do projeto INTIMATE— Citizenship, Care and Choice: The Micropolitics of Intimacy in Southern Europe

Entrevista publicada na Visão online

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

VI Encontro Anual da AP dedicado ao Trauma

Mais informações no site da AP

Detroit: Living In Between





O autor deste documentário é americano, psicólogo e psicanalista e vai estar em Portugal, no VI Congresso Anual da AP dedicado ao Trauma.  Chama-se Richard Raubolt e desafia-nos a olhar a «meca das ruínas urbanas» pelo lado humano, dando destaque às vozes dos seus habitantes. A Detroit que eles contam como foi, como é e como pode vir a ser, é a homenagem que desejou prestar-lhes.


Saiba mais sobre ele AQUI

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Farta de ser a má da fita?

As mães ditam as regras, fazem cara de má, e mandam arrumar o quarto. Os pais jogam computador e levam a passear. Há forma de mudar isto.

(Excerto de artigo assinado por Catarina Fonseca.)
Ler o artigo completo em - Revista Activa)

No tempo dos nossos avós, ao papel de mau da fita cabia ao pai, que era tradicionalmente a fonte da autoridade. Com a maior autonomia das mães, estas passaram a assumir o papel de disciplinadoras.
A situação acontece tradicionalmente quando pai e mãe se divorciam, mas também é comum em muitos casais: a mãe é que impõe as regras, manda fazer os trabalhos e arrumar o quarto, e o pai joga Playstation, dá presentes e leva as crianças a passear. Os sites (e a vida) estão cheios de desabafos de mães fartas deste papel de ‘polícia familiar’.
Ser a ‘má da fita’ é uma situação que, também tradicionalmente, se intensificava com o divórcio: à mãe, que ficava com a criança no dia a dia, cumpria o ingrato papel de polícia. Ao pai de fim de semana, os presentes, as saídas, e os cinemas.

Desde 2008, quando a Lei do Divórcio mudou, que o regime da guarda partilhada passou a ser a regra, e a autoridade cabe... à pessoa que estiver na altura com a criança. “Ou seja, a autoridade acaba por ser quem está mais à mão”, nota Clara Soares, psicóloga, jornalista e autora de vários artigos sobre o divórcio. “Os homens deixaram de ser pais de fim de semana e passaram mesmo a ter de ser pais a tempo inteiro. Portanto, o esquema tradicional em que o pai impunha a autoridade morreu, mas o esquema seguinte em que era o pai que dava os presentes também já vai pelo mesmo caminho.”
Por outro lado, estamos numa sociedade de consumo, onde os filhos podem ser mais facilmente subornáveis. “É inevitável que as regras sejam diferentes em cada casa”, nota Clara Soares. “Se o tempo for de qualidade não é necessário dar alguma coisa para impor uma coisa que já tem, tipo ‘vou-te dar um telemóvel para compensar o pouco tempo que eu passo contigo’. Os miúdos percebem quando estão a ser subornados, e podem fazer chantagem: ‘Vou pedir ao pai para me dar o telemóvel porque tu és má e não dás.’”
Mesmo que seja a nível de dinheiro, estamos sempre a falar da atenção dispensada. “Mas os filhos só exigem alguma coisa quando não se sentem suficientemente ambientados, e quando ninguém estabelece limites”, nota Clara Soares.

Quando falta autoridade aos dois pais, o que acontece é que os presentes substituem uma relação, e as próprias crianças podem começar a exigi-las como compensação para o que não têm. “As crianças, se não têm o que é essencial, agarram-se ao acessório”, explica a psicóloga. “E mais tarde começam a odiar as pessoas à volta delas porque repetem o ponto de fuga que está automatizado.”
Por exemplo: um rapaz que foi ‘comprado’ com presentes por pai ou mãe, habitua-se a resolver a vida nessa base. “Imaginemos um rapaz que está sempre a fazer de homenzinho da casa para chamar a atenção da mãe. Quando passa o tempo a chamar a atenção da miúda e ela o ignora, ele dá-lhe coisas com medo de a perder mas sem necessariamente saber se gosta dela. Então, pode estar a repetir a operação de charme que foi obrigado a desenvolver para sobreviver em casa. Foi uma projeção para o exterior do seu ponto de fuga, o seu ângulo cego, aquela área que não vemos porque estamos demasiado próximos.”
Ou seja, em conclusão, hoje em dia já não há esquemas definidos para a definição de autoridade numa família.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sexo: À minha maneira

Pesquisa portuguesa inédita revela: ter uma atitude positiva após um fracasso íntimo aumenta a resistência psicológica e melhora a vida sexual, enquanto que dramatizar só piora.


Sabia que pode tornar a sua vida íntima mais rica ou convertê-la num inferno, consoante o seu tipo de dieta? Não é dessa alimentação que estamos a falar. Os pensamentos e emoções são ingredientes que fazem toda a diferença durante a resposta sexual.
O Laboratório de Investigação em Sexualidade Humana (SexLab), na Universidade do Porto, divulga, em exclusivo para a revista VISÃO, os resultados de um estudo inovador, apresentado recentemente no Congresso da Sociedade Europeia de Medicina Sexual, em Istambul, na Turquia. O estudo - Resposta Sexual Perante Falso Feedback Negativo - pretendeu apurar em que grau as variáveis psicológicas interferem no aparecimento de dificuldades sexuais.

A equipa coordenada pelo psicólogo Pedro Nobre recriou, em ambiente experimental, uma situação que a maioria de nós terá já experimentado na vida real: receber uma informação negativa acerca do seu desempenho. A meta: saber como os participantes lidavam com essa mensagem, desconhecendo que era falsa.
Os 160 voluntários - heterossexuais jovens (média etária situa-se nos 23 anos) e sem problemas sexuais - foram convidados a visionar, individualmente, um filme de três minutos com cenas de sexo explícito, enquanto lhes era medida a resposta sexual, em tempo real (através de dispositivos colocados na zona genital, ligados a computador). A seguir, eram informados, via intercomunicador, de que a sua reação sexual era inferior à média.
Após visionarem o segundo filme, as reações físicas e psicológicas foram avaliadas e comparadas com as do grupo de controlo (que não recebeu a informação falsa). Os resultados foram surpreendentes e com maiores implicações no sexo masculino.

Atitude positiva
A pesquisa, que recria artificialmente uma situação de insucesso sexual, mostrou que ambos os sexos relataram, em média, ter sentido menos prazer e excitação no segundo filme (após a "má noticia"). Porém, esse impacto não se traduziu na resposta fisiológica, que se manteve sensivelmente a mesma nas mulheres (vasocongestão vaginal) e com algumas alterações negativas nos homens (ao nível da ereção).
As diferenças relatadas individualmente deveram-se, sobretudo, aos pensamentos eróticos e emoções positivas: uns e outros tendem a reduzir o impacto da situação incómoda ou desagradável, na intimidade. "A forma como as pessoas lidam com as experiências sexuais negativas determina as suas repostas no futuro", esclarece Pedro Nobre. Ou seja, manter ou promover uma atitude favorável numa situação adversa permite ganhar resiliência. O contrário - catastrofizar, por exemplo - traduz-se em "mais vulnerabilidade para desenvolver dificuldades sexuais a posteriori".
Assim, no momento de perguntar "gostaste?", afirmações aparentemente inócuas, como "mais ou menos" ou "nem por isso", podem revelar-se particularmente mortíferas, especialmente se quem recebe a mensagem tiver pouca "fibra" psicológica para aguentar o desafio.

O mito da perfeição
Em ultima análise, a perceção subjetiva de prazer é condicionada pelas nossas crenças. O estado de saúde das nossas vidas privadas parece, contudo, ameaçado pelo "vírus" das crenças irrealistas que continuam a vigorar na sociedade atual. A saber: "No caso do homem, a ideia do macho latino, que nunca falha na cama, com posição e estatuto, etc; na mulher, exigências como satisfazer o parceiro, ser sexualmente ativa, ter orgasmo durante o coito, e de preferência mais que um, além de ser boa no trabalho e no lar." Apetece perguntar se ainda faz sentido a dupla icónica Ken & Barbie (convertida em Bimby, na Era multitarefa).
Estes mitos parecem constituir fatores de risco para, mais cedo ou mais tarde, vir a desenvolver dificuldades sexuais. A pensar na melhoria dos tratamentos psicológicos para lidar com elas, o SexLab tem novo estudo a decorrer na consulta de sexologia da Universidade de Lisboa, que pressupõe o acompanhamento gratuito a homens com disfunção erétil. 

VEJA as FOTOS em Visão Online (publicado em 12.02.2014)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Stresse? É preciso ter calma...

I Diário de alguém 'stressado' 


«Estava a enviar uma mensagem e tocou o telefone. Era o miúdo a dizer que perdeu o comboio e vai chegar atrasado à escola. Vesti-me à pressa e fui buscá-lo à estação, levei-o para não levar falta. De novo o telefone. Já não vou à ginástica, senão chego atrasada à reunião da empresa. Falta comprara prenda de aniversário do marido. Estou com má cara e a sentir-me nervosa.»
(...)
O que é que eu estava a escrever na mensagem? Oh, não! O carro não pega. Já não chegava o facto de ter de levar trabalho para casa e agora isto. O melhor é comprar um bolo, não vou a tempo de fazer o jantar. Queria ter ido às finanças mas não houve tempo. E ainda fiquei de passar em casa dos meus sogros para os trazer para o jantar. Chamo um táxi. Telefone, de novo. É a colega de trabalho a dizer que me esqueci da carteira em cima da mesa. Que dia infernal.»
(...)
Podia ter corrido melhor, o jantar. O meu marido achou que eu estava com má cara. Deve pensar que já não lhe ligo como antes. Não admira, estou a ficar com mais peso, voltei a fumar, esqueço-me de tudo e só me apetece ficar no meu canto e que me deixem em paz. Doem-me as costas e tive uma quebra de tensão. Ando nisto há meses. E tempo para ir ao médico? As vitaminas que comprei não estão a funcionar. E o pior é que o meu chefe diz que ando a produzir menos. Se ao menos conseguisse dormir como deve ser...»

II 'Pssst, está na hora de parar e refocar'

No artigo publicado esta semana, na Revista Visão, fui ao encontro de cinco portugueses que contam quais os ajustes que fizeram para tornar as suas vidas mais leves e compatíveis com o seu modo de ser. Uns optaram por ganhar menos, em troca de mais tempo, outros apostaram numa profissão com horário e local de trabalho flexível. Há ainda os que preferiram investir na sua saúde, disciplinando rotinas - pessoais, conjugais e familiares - para ficaram com algum tempo de qualidade. Sem esquecer os que passaram a incluir no seu quotidiano alguns minutos diários de exercício físico, meditação e treino da atenção plena.
Um investigador da Universidade de Coimbra explica porque é que quando estamos tensos e com emoções negativas, acabamos por ter pensamentos que não correspondem à realidade e, apesar disso, nos afetam negativamente. Ou como o treino mental (atenção plena, ou mindfulness) nos permite restaurar a segurança e a paz de espírito, no meio da adversidade e dos momento difíceis. E aceitar o que não podemos controlar, em vez de sermos reativos e ficarmos piores do que estávamos antes.

Uma médica explica como a compaixão e os afetos conseguem fazer muito mais que a farmacologia, porque nem tudo se resolve com comprimidos, por melhores que eles sejam para nos facilitar a vida. Às vezes, é preciso ter uma experiência limite, como aconteceu com ela, e ir «ao tapete» para mudar de filosofia e investir no que é essencial, sem complicar. ´

Na dose certa, o stresse pode ser positivo, dando-nos o «empurrão» necessário para fazer o que precisamos ou desejamos fazer. Em demasia, desregula, produz sintomas e, se nada fizermos, acaba por trazer dissabores e até contribuir para a emergência de doenças crónicas, incapacitando-nos e atrofiando a nossa qualidade de vida.

III Dicas AntiStresse


Anda com dores ou picadas no peito? Não consegue concentrar-se? Tem dificuldades a relacionar-se com os outros e fica irritável ou frustrado com pequenas coisas? Sente que a sua vida escapa ao seu controlo e tem carga a mais para a sua camioneta? Tem momentos em que se sente em baixo e só lhe apetece fugir ou bater na primeira pessoa que lhe aparecer à frente? Tem reações que não reconhece como suas? Ou desliga a toda a hora, perdendo-se nas preocupações quanto ao futuro ou a ruminar no que já passou?  Não está a ter prazer na sua vida?

Talvez esteja no momento de fazer um ponto da situação e perceber o que pode fazer para «arrumar a casa». Comece por si: reduzir a velocidade, fazer pausas e respirar fundo, até sentir o corpo «arrefecer» facilita bastante e faz com que não entre em piloto automático. A mente também precisa de um «recycle bin». Que tal encontrar um momento do dia para sintonizar no seu próprio comprimento de onda? O que quer que lhe venha à cabeça, pode entrar e sair como entrou, desde que se coloque no papel de observador e, mais importante que tudo, sem tecer juizos de valor. Afinal, se aceitar as emoções negativas sem fazer nada, elas acabam por ser «escoadas» e a carga emocional tende a ficar reduzida.

Investir num passatempo, fazer um pequeno passeio a pé, quando vai despejar o lixo ou passear o cão, pode funcionar como um dois-em-um, ou seja, traz benefícios para o corpo e a mente. Se conseguir fazê-lo depois com um amigo, tanto melhor. Estar atento às suas necessidades é meio caminho andado para fazer o mesmo em relação aos outros e, a boa noticia, desenvolve-se com o treino.

Aos poucos, pequenos gestos que nem precisam de recursos financeiros, podem mudar a sua vida. Isto aplica-se à capacidade de estar presente no aqui-e-agora, ao colocar em pratica a disciplina e a gestão do tempo (delimitar/distribuir com  parcimónia o tempo dedicado aos mails, redes sociais, trabalho, família, etc). Se é um fervoroso adepto dos smartphones, saiba que pode valer-se ainda das aplicações para medir o seu nivel de stresse e outras que lhe permitem aprender a reduzi-lo, em momentos sos. Por fim, qualquer atividade que lhe faça bem ao espírito (da leitura a encontros com gente que partilha os seus ideais), só porque sim, será uma mais-valia para a sua saúde e bem-estar.    

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A cor das emoções

A noticia chegou-me pelo jornal Público: uma investigação finlandesa, da universidade de Tampere, que aborda a ligação corpo-mente. Neste caso, a forma como os estados emocionais se manifestam no plano físico. Aqui ficam os resultados, tal como foram publicados na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Our endless numbered days

Faltava algum tempo para a meia-noite. A noite estava fria e chovia. Na rua, o vaivém dos veículos com ocupantes apressados. Em casa, as horas eram saboreadas devagar. O felino ronronava, junto ao aquecedor, enquanto a voz sussurrada de Sam Beam (Iron & Wine)* se fazia ouvir na sala, com volume baixo. Ela deixou-se embalar até ao último acorde e deliciou-se, de seguida, com os trilhos fluidos e imprevisíveis das gotas de água na vidraça.

Ele veio da cozinha com um jarro de vinho e duas canecas de barro e estendeu-lhe uma. Brindaram então aos momentos que marcaram o ano: os bons, os assim-assim e os outros, sem os quais não teria sido possível mudar de rumo e, vendo agora, talvez para melhor. 
«O 13 não chegou a ser um 31, mas por vezes pareceu!», brincou ela. 
«Eu não te dizia que com jeitinho e paciência tudo acaba por compor-se, no tempo certo?», acrescentou ele. Ela levantou-se do sofá. «E qual é o tempo certo? Essa é a pergunta que vale milhões!»

O som do relógio de cuco trouxe um toque de suspense ao momento. O jogo da bisca ainda não tinha acabado. O homem pousou na mesa as três cartas que tinha na mão, naipes voltados para baixo e, em tom de fado, entoou a ladainha: 
«O tempo pergunta ao tempo, quanto tempo o tempo tem...»  
Ela sorriu. E vai de acompanhá-lo, à desgarrada: «...O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem.» Bateram palmas e retomaram o jogo, perdendo-se nas horas. Há momentos de sorte. Ou presentes de graça. Foi então que os ponteiros do relógio de cuco se cruzaram, no sentido norte. Abraçaram-se. Estava frio e chovia. Eram os primeiros acordes de 2014.  
*God, give us love in the time that we have

Primeira ficção do ano, em memória do meu pai, que partiu há 4 décadas e com quem aprendi as artes do tempo (e não apenas da relojoaria e do ouro) .




quarta-feira, 6 de novembro de 2013

«Vai passear!»


O running começa a fazer parte do léxico e dos hábitos dos portugueses. Há uns tempos era o jogging. E, apetece perguntar, «não pode ser apenas um walking?

As virtudes do passeio, confirmadas pelos investigadores de cardiologia e, também, da neuropsicologia, há muito que são uma evidência para a medicina. Caminhar para arejar as ideias, desenferrujar os músculos e, agora que se aproxima o inverno, ajuda a combater os sedentarismo e é bom para fortalecer defesas. Uma prática simples, mas eficaz, ecológica e ‘no cost’. 


Ok, custa um bocado contrariar a inércia, agora que os dias são mais curtos e as variações climatéricas convidam ao conforto do lar e dos espaços fechados.
Certamente já lhe aconteceu «tropeçar» numa ideia para aquela questão que ficou o dia todo às voltas, na cabeça, na hora de ir desejar o lixo? Ou enquanto passeia o cão? O simples caminhar, estar em movimento sem que seja isso seja um objectivo (o «ter-de-fazer-exercício-entre-as-outras-mil-tarefas-do-dia»), pode ter um impacto subtil, mas surpreendente.

Alguns dos mais proeminentes filósofos e escritores, de Rosseau a Kant, passando por Jack Kerouac e Bruce Chatwin, testemunharam os benefícios da caminhada, desconhecidas que eram, então, as evidências científicas do «dar corda aos sapatinhos».  Além de estimular a coordenação motora e o hemisfério direito, a parte do cérebro associada à intuição e à criatividade, caminhar promove a capacidade de autofoco e o «grounding» (que significa enraizamento). Pés na terra e cabeça nas estrelas, portanto.
Se andar for, para si, uma actividade monótona, há sempre a possibilidade de repetir a experiência introduzindo alguns ingredientes estimulantes.

Sugestões:
Caminhar na companhia de alguém (escolher se prefere caminhar em silencio ou enquanto põe a conversa em dia é um ponto importante)

Escolher um percurso diferente (há quem prefira o paredão, junto ao mar, e quem prefira paisagens mais desafiadoras e com menos densidade de transeuntes e poupar-se ao «frete» da passadeira do ginásio)  

Optar por uma hora do dia em que não tenha de estar sempre «on» (ao telemóvel, a combinar detalhes da agenda laboral ou quando está perto da hora de algum compromisso inadiável);

Se a noite é um ambiente mais cativante (por estarem «arrumadas» as rotinas do dia, já estar sem vontade de ver os mesmo programas diante do sofá ou simplesmente porque a seguir vai dormir melhor, depois de reciclar a «tralha mental» a cada passada), óptimo. 

Se madrugar é o seu registo, nada como começar o dia a clarificar ideias em movimento, antes de mergulhar na «máquina de lavar» dos afazeres quotidianos.