quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Psicologia Quotidiana

«Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos». 

Annais Nin ficou célebre por estar à frente do seu tempo. Mais do que o estilo inovador da sua escrita erótica, ou a intensidade que acompanhou sempre a sua vida amorosa, no meio literário parisiense (ilustrada na obra, Henri, June and Me, adaptada ao cinema), cativam-me as suas reflexões, o que ela filtrava das experiências quotidianas. Os dias contados à luz da qualidade (e riqueza) singular dessas experiências. A sua marca de água reside na espontaneidade, na intenção e nos afetos.

Nessa altura, ainda não existia a neurociência. A psicanálise sim,  e foi um veiculo precioso, afirmou ela, mais tarde, para o seu desenvolvimento pessoal e, consequentemente, para a criatividade e originalidade da sua escrita. 



De Freud até hoje, algumas coisas mudaram. O foco das investigações na área da psicologia e outras ciências deslocou-se do Inconsciente - que se enraizou e vulgarizou no senso comum - para a Consciência. Para o que se passa num momento presente (em '3D' ou '4G', poder-se-ia dizer, na gíria tecnológica). É um território com várias dimensões ou camadas (e em combinações neuronais quase infinitas), não confinada ao plano intrapsíquico. 

O passado, no sentido psicanalítico, atualiza-se no presente. E o que se passa no momento presente? Quanto dura um momento de experiência significativa, vivido com atenção focada e capaz de mudar o rumo de uma vida em escassos segundos? O que faz acontecer essas «explosões» químicas nos circuitos cerebrais? Como se processam os movimentos das interações (com um outro ou durante uma atividade)? Que leitura se vai fazendo delas, em tempo real? 

A investigação neste domínio (Experience Flutuaction Model) sugere que existe um estado de consciência descrito por experiência ótima (ou de 'fluxo'), caracterizado pela sintonia entre desejos, sentimentos e ação, na relação com o mundo.  Esse estado de consciência (gratificante e pleno) produz elevados níveis de bem-estar psicológico (Nakamura & Csikszentmihalyi, 2002) e pode ser alcançado pelo envolvimento e concentração no que se está a viver enquanto se interage, num dado momento e circunstância.

No meio de tantos gestos e rotinas, aparentemente insignificantes, faz-se um 'click'. Num instante, tudo muda. O significado da experiência subjetiva que emerge nos contextos naturais de vida é que vai determinar os pontos de viragem e transformação. As pesquisas centram-se agora nas flutuações da qualidade das experiências vividas, na tomada de consciência do que nos faz sentir vivos (presentes/conscientes) na relação com o mundo. Entrar em 'fluxo' e promovê-lo, numa perspetiva salutogénica.





mindfulyou.com

No seu tempo, Freud marcou a diferença e deixou um legado revolucionário: a ele se deve o foco no mundo mental e suas «prisões», que estão na base do sintoma. Não é por acaso que uma das suas obras mais icónicas seja A Psicopatologia da Vida Quotidiana. Hoje, a Bíblia das Perturbações Mentais (DSM) continua a ser revista (e a incluir sempre novas «disfunções», para as quais haverá uma nova molécula para prescrever), quase sem reservar espaço para aquilo que chamamos «normalidade»: o ser humano, nas suas singularidades e diversidade. 

Um novo paradigma começa a ganhar forma (ou massa crítica): se é em (na) relação que a «doença» (ou o sintoma) se forja, é em (na) relação que ela se pode «curar». Com outros protagonistas, ou em contextos relacionais mais user friendly (como acontece, por exemplo, num processo psicoterapêutico, mas também noutras formas de envolvimento significativas, onde têm lugar todas as formas de arte e de encontro, onde a empatia e o sentido de si têm lugar para existir).

As plataformas tecnológicas parecem ter um papel decisivo neste processo, por serem pontos de partida e criarem oportunidades (mesmo que temporárias ou experimentais) de contacto, descoberta e, eventualmente, de encontro, promotor de mudança (pela qualidade das experiências ótimas, que promovem «insight» e valem por si). 

Annais iria gostar de saber. 

Psicologia Quotidiana 
No Consultório Social da Visão Solidária, tem um espaço para colocar as suas perguntas (visaosolidaria@impresa.pte acompanhar as respostas. 


terça-feira, 30 de julho de 2013

Amor Virtual

Li, há dias, um artigo de um jornal canadiano acerca das novas formas de encontros. A sugestão do título: «Don´t date!» A proposta resume-se à ideia de que, com tantas formas de conectividade em tempo real, pessoas na faixa etária dos vintes e trintas parecem não estar a sair com uma pessoa, mas com várias. Cada uma desempenha um papel específico: amigo para ir a uma festa, colega de trabalho para fazer confidências e receber conselhos, ex-e-melhor amigo para partilhar questões que ele testemunhou e tem acompanhado nos últimos anos, amiga virtual com quem se trocam impressões ao final do dia, antes de dormir. 


E os sites de encontros? O sair-para-jantar-e-programa de cinema ou algo-mais? Não. Não estão em desuso: espelham a necessidade de contacto humano e de novas possibilidades de relacionamento. Porém, este registo afigura-se mais «tradicional» comparado com outros registos que a tecnologia permite, por exemplo, em «second screen experience» (o chat no tablet enquanto se vê um programa de tv, ou um filme ou música na net).

As investigações sobre o cérebro sugerem que a comunicação mediada pela tecnologia (em tempo real) alteram os circuitos cerebrais e a condicionar o modo como devemos comunicar. Abreviam-se palavras e ideias, nas mensagens e mails e os rituais e formalidades foram perdendo espaço e razão de ser. Tudo se torna mais fluido (ou «líquido» diria o sociólogo Zigmunt Bauman), mas igualmente mais racional, digital e formatado.




#newyorkcityphotography

Com esta «normalização» das interacções, há quem defenda – como o psicanalista Velleda C. Ceccoli (colunista da revista online Psychology Tomorrow) – que a erosão progressiva das interacções face-a-face, em registo presencial,  tende a reduzir a tolerância na resposta aos estímulos que recebemos. Consequência provável: «Alienar a disponibilidade para a ternura e a generosidade».

Ainda é cedo para avaliar esta trend: os estilos de abordagem do outro e de se dar a conhecer são mais diversificados que nunca, pela multiplicidade de plataformas. Em si mesmas, elas potenciam fluxos e oportunidades. Para lá das questões de negócio (dos «mercados de encontros»), este fenómeno apenas parece amplificar a nossa necessidade e desejo de ir ao encontro de paisagens humanas e, talvez, encontrar nelas um lugar especial, seja sonhado como «casa», ou «ponto de encontro». Estar ligado, mesmo que por tempo incerto ou fugaz, a alguém. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Amor em Tempos de Cancro

O que deve saber sobre sexo durante o tratamento oncológico e pistas para redescobrir a sensualidade. 

Artigo realizado para a revista Visão (nº 1061) - Junho de 2013 

Veja o Video (Foto: José Carlos Carvalho)

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Caminhar sem medo


Se tem entre 40 e 64 anos... 
...já deu consigo a pensar «A vida não é fácil». Ou «O que custa é saber viver».
Se a sua economia pessoal está «em crise», e dá por si com escassa liberdade de movimentos, talvez esteja na altura de fazer ajustes, nos planos pessoal e/ou familiar. 
Em vez de marcar passo - como no refrão da canção «Try walking in my shoes» - lembre-se que tem o direito de procurar o «sapato» que melhor lhe sirva no pé. Situar-se e aliviar apertos pode passar por:
  • Libertar-se de condicionamentos que funcionaram noutras alturas, mas que agora não se aplicam
  • Cultivar o equilíbrio entre gerações, sem esquecer o seu
  • Sintonizar os planos pessoal, profissional e social

Faça a sua própria checklist para facilitar a tomada de decisões que naturalmente surgem nesta etapa da vida. Aqui ficam alguns tópicos.


Economia familiar
- Crie limites - se não quer ver as suas poupanças a voar, defina a quota-parte da responsabilidade dos filhos crescidos na educação (bolsas, trabalhos part-time) e conte com o orçamento dos pais para as necessidades deles
- Conte com imprevistos - equacione a possibilidade de ter os descendentes de volta ao ninho, mesmo que temporariamente, e de ter reservas à mão para socorrer os seus pais, se ficarem dependentes de si por mais anos e com recursos escassos
- Não fuja das decisões difíceis - conheça os planos dos pais para o futuro e discuta-os com eles no seio familiar (seguros, depósitos, onde ficar no fim de vida, decisões legais, cuidados médicos)

Economia individual
- Cuide de si - defina o que é essencial para satisfazer necessidades pessoais, sem queimar o orçamento com os outros membros do clã e poupe para a sua própria reforma  
- Simplifique - aceite o que não pode mudar (condição física, mudanças de estatuto profissional, projetos que não deram certo e outros fatores não esperados)
- Crie a sua rede - mantenha-se em contacto com amigos e conhecidos, na sua comunidade ou virtualmente, para partilhar interesses e resolver problemas, sem isolar-se
- Cultive a gratidão - Tenha presente o que conseguiu construir e alcançar (iniciativas, trabalho, família) e aquilo que ainda tem (tempo, ideias, capacidades, afetos)


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Só para Middle Agers


Sente-se «ensanduichado»? Sem espaço para a tal plenitude que sonhou ter, chegado a meio do caminho da vida? 3 níveis de dificuldade (ou de complexidade) a ter em conta, porque fazem parte do processo, nas condições atuais.

Desafio 1: Longevidade
O aumento da esperança de vida tornou possível coexistirem até cinco gerações. Uma conquista, sim. E novas questões. Em Portugal, a geração sanduíche representa 34% da população, com 3,6 milhões de pessoas que, entradas na meia-idade, se dividem entre as solicitações dos pais, que vivem mais tempo, e dos filhos, cuja autonomia tarda em chegar. E enfrentam, ao mesmo tempo, transformações pessoais (estado de saúde, mudanças laborais, separações, lutos).

Desafio 2: Sustentabilidade
O grande desafio desta etapa, hoje mais incerta do que era expectável no final do século XX, alterna entre sobreviver ao papel de âncora da família e voltar a depender dos mais velhos, em tempos de aperto. Dos cerca de milhão e meio de desempregados, apenas 370 mil recebem apoios mensais do Estado. O País tem quase 20% de idosos, 3% dos quais dependem dos descendentes (os que estão na meia idade). Estes e suportam as despesas com os filhos por mais tempo que o expectável, já que entre os 15 e os 24 anos, 70% dos jovens portugueses estão a cargo da família.

Desafio 3: Autonomia
Por força das circunstâncias, a ‘crise do ninho vazio’ – quando os filhos vão à sua vida – está a ser suplantada pela dos ninhos cheios ou, até, sobrelotados. Na prática, a casa de família pode ficar mais vazia, para no momento seguinte voltar a encher-se, ao ritmo das mudanças imprevistas, no mercado do trabalho e no mundo dos afetos. Apoiar-se nas ajudas dos idosos é algo que começa a ser cada vez mais normal entre os que estão «no meio da sanduíche». Segundo o último Censos, 10,3% dos que estão na meia-idade vivem a cargo de familiares, na sequência de divórcio, perda de casa ou do posto de trabalho. Ou em face de um diagnóstico de doença mental grave (Portugal ocupa o primeiro lugar na Europa com uma prevalência anual de 23%). Também os seniores, contando com uma velhice tranquila e uma pensão segura, se vêem confrontados com a perda de qualidade de vida, se tiverem de ser a base para um filho adulto, do grupo dos «entas», que deles depende.

A situação pode ser desesperada, mas não é para ser levada tão a sério. É possível criar pontos de equilíbrio, por mais instáveis que sejam. E ganhar algum distanciamento e espaço para existir.
(cont.)

Maduros, mas pouco seguros


Se tem entre 40 e 64 anos, este é o tempo para desfrutar a vida sem pedir licença e por mérito próprio. É o tempo de saborear metas alcançadas e aspirar, ainda, a realizar plenamente sonhos por cumprir. 
O meio da vida pode ser tudo isto, mas é também um desafio à capacidade de gerir tensões acrescidas. Na linha do tempo, os middle agers sentem-se hoje mais entrincheirados do que há duas décadas atrás, entre os seus filhos e os seus pais. 
A tão almejada autonomia tranquila parece ficar cada vez mais comprometida para a «geração sanduíche», como lhe chamou o psiquiatra americano Michael Zal, nos anos 1990. Entrar nos «entas» afigura-se um desafio mais complexo, que requer uma ginástica singular e criativa, a condizer com os tempos pós modernos, líquidos e, por vezes, com poucas pausas para respirar. O que fazer?

Um minuto com… o psiquiatra H. Michael Zal

Ganhou fama mundial com a obra A Geração Sanduíche: Entre Filhos Adolescentes e Pais Idosos (ed. Difusão Cultural). Tem 71 anos, exerce clínica privada há mais de 40, no Estado da Pensilvânia.

O que mudou desde que escreveu o livro?
Há mais tempo de vida. Procura-se ficar ativo pelo maior tempo possível, também pelo receio de ficar excluído ou à mercê de serviços assistenciais. O envelhecimento ainda não é socialmente respeitado.

Que dificuldades são mais comuns hoje, quando se chega ao meio da vida?
Os problemas de emprego, de proteção social e na saúde. Jovens e seniores estão a voltar para a casa de família quando ficam sem trabalho. Não é fácil, mas todos encaram a situação como transitória. As maiores dificuldades são emocionais: deixar sonhos não realizados e ver as metas atingidas como suficientes.

Como viver ensanduichado no panorama atual e tirar proveito disso?
Ter expectativas realistas. Respeitar o espaço próprio, sem esquecer o dos outros, que acontece muito em períodos críticos. Criar oportunidades de diversão, mesmo na adversidade, porque aproxima as pessoas e melhora a convivência entre gerações.

(cont.)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os Segredos da Solidão III



A capacidade de estar só

"Finding Peace in Solitude" by Si2
Há muitas formas de experimentar o que o psicanalista Donald Winnicott descreveu como «a capacidade de estar sozinho». Segundo ele, o sentimento de autonomia resulta da possibilidade que a criança teve de estar só, na presença de alguém confiável (geralmente a mãe, apesar de poder ser o pai, um familiar próximo ou uma figura protetora). Assim se pode explicar porque é para uns mais fácil estar bem na sua própria companhia do que para outros, sem sentir-se ameaçado.

Numa perspectiva existencialista, todos nascemos e morremos sós. Ter isso em mente, mesmo numa sociedade globalizada, revela-se um convite estimulante, mais não seja para sair do frenesim comunicacional e das nossas próprias zonas de conforto. A Lonely Planet, por exemplo, também conhecida por bíblia dos solitários, nasceu do relato da longa viagem de lua-de-mel de Tony e Maureen Wheeler, um casal britânico que, há quatro décadas, se dispôs a percorrer a Europa e a Ásia de carro para acabar na Austrália.

A vontade de renunciar à pressão para manter-se em sintonia com o ritmo social dominante conquista cada vez mais adeptos. Os numerosos blogues com dicas para os viajantes solitários, os retiros em lugares remotos e alguns estilos de vida monástica parecem ser mais que uma moda: traduzem uma necessidade pessoal que vai sendo reconhecida e cultivada por uma imensa minoria.

Aprender a observar os outros, sem defesas excessivas- «tentar colocar-se nos seus sapatos» - e ir ao encontro deles, sem expetativas, pode ser tão gratificante como optar por periodos sabáticos, de tempos a tempos. Génios como Jesus, Buda, Newton e Beethoven tiveram momentos de criatividade em períodos de retiro ou de eremitagem.

A capacidade de estar só fermenta a autonomia e a liberdade de pensamento. O temperamento solitário é um estilo pessoal, mas também uma defesa/sintoma (no segundo caso, é vivido com desconforto). A solidão está associada ao sentimento de vazio e de isolamento (interno ou fruto de contingências: ausencia de amigos, falta de apoio familiar, relacionamentos superficiais ou que envolvem distância geográfica) 

Só... 


 Em doses qb (cada um deve descobrir a sua) (+)
·         Autodescoberta: possibilidade de pensar/sentir sem os filtros externos
·         Desfrute: saborear as etapas superadas sem o bulício do quotidiano
·         Serenidade: conectar-se com sentimento de tranquilidade e calma
·         Simplicidade: uma mente não agitada fica mais clara e liberta
·         Equilíbrio: disponibilidade para sintonizar-se com o mundo, sem medo

Em demasia (-)
·         Sintomas de mal-estar
·         Stresse (distúrbios na pressão arterial, sistema hormonal, etc)
·         Problemas imunitários
·         Alterações cognitivas e neurológicas
·         Isolamento, menos anos de vida



Os segredos da solidão II


A história de Emily White


Uma advogada sem filhos, a quem nunca faltaram amigos e interesses, passava a maior parte do tempo por sua conta. O problema era a permanente sensação de desligamento face ao que estava à sua volta, sobretudo a partir dos 30 anos. Emily investigou o assunto e escreveu um livro onde revela estudos, testemunhos e relatos na primeira pessoa. Depois de experimentar fármacos contra a ansiedade e depressão, fórmulas herbais, uma linha telefónica de aconselhamento e hipnose, a autora continuava sem perceber a razão de tanto desconforto. 
Recorreu à psicoterapia. Nas sessões, tomou contacto com a raiva não expressa em criança, por sentir-se distante ao lado de um pai de fim-de-semana e de uma mãe sozinha, com a qual se veio a identificar em adulta. As as suas escolhas de vida - decidir não ter filhos, um trabalho solitário e uma morada remota, longe da família – espelhavam isso. Aos 40 anos, aventurou-se numa vida a dois. 

Após quatro anos mergulhada no problema, Emily avançou para as conclusões:

  1. «Quem se sente só raramente o admite, por sentir culpa ou vergonha [que só complicam].»
  2. «Na nossa cultura [tecnológica], passamos cada vez mais tempo sozinhos. Paradoxalmente, impele-nos para uma socialização ativa a todo o custo.»  
  3. «A relação amorosa não mudou o hábito de pensar-me como solitária (…) mas preciso do conforto que pode ser dado por outra pessoa.»
Considerações

Medir comportamentos é próprio do método experimental, usado na investigação psicológica. Um teste deve servir para refletir, mais do que classificar.

Fazer um teste é um convite à auto-análise. Para responder ao que mede a solidão, passei inevitavelmente por memorias de me ter sentido e me foi difícil admiti-lo.


Socializar é desejável, mas estar em grupo, numa base regular, exige uma boa dose de adaptação e dispêndio de energia. 

Alternar o convívio com períodos de isolamento e contemplação, se eles revigoram e inspiram, parece sensato (sobretudo antes de tomar decisões ou após um intenso período de trabalho!)

(cont.)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Os segredos da solidão I


«Mais vale só.» Depende. Do que é, para cada um, estar «mal acompanhado». Se a «má companhia» for alguém com quem se tem uma relação doentia e tóxica, o melhor é fechar contas e dar crédito a necessidades próprias. Quando a sensação de ficar entregue a si mesmo, numa espécie de desamparo sem causa óbvia, se afigura desarmante, a «má companhia» somos nós.

Como viver com os nossos «buracos negros»?
A era da hiperconetividade e do telefone smart tem vantagens preciosas, mas não substitui um abraço, um jantar caseiro ou uma «escapadinha a dois», como prometem os sites de descontos em voga. A possibilidades de interagir sem fronteiras pode valer muito pouco se, mesmo numa sala cheia, tudo parecer distante, superficial e vazio de sentido. 
O Estrangeiro (título do Nobel da Literatura  Albert Camus (1957) é o outro e somos nós. No lançamento da obra póstuma do escritor e pensador, a partir de manuscritos não editados (The First Man), a filha de Camus revelou ao Nouvel Observateur como foi sentir-se invisível, quando ela era ainda criança: «Encontrei o meu pai sentado na sala, a cabeça entre as mãos. Disse-lhe: ‘Estás triste papá?’ Ele levantou a cabeça, olhou-me nos olhos e respondeu: ‘Não, estou só.’ Isso revoltou-me tanto! Eu não sabia como dizer-lhe que comigo ele não podia estar só’». 

Brian Marki Fine Art - L'Étranger I - Oil on canvas 

Quem é o estrangeiro? O estranho em cada um de nós? Quando abri o livro Solidão (Pergaminho, 16,60€), de Emily White, fui surpreendida, na primeira página, com um teste. Respondi aos 20 itens da Escala de Solidão da Universidade da Califórnia. Antes de mergulhar nas 317 páginas que tinha em mãos, segui as pistas apresentadas nas referências finais, googlei e obtive uma interpretação mais completa do resultado: «Você é uma pessoa solitária e provavelmente sabe disso. Se não lhe causa incómodo, é possível que esteja apenas a racionalizar o problema, a inventar desculpas para não enfrentá-lo.» 

(cont.)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Hello darkness, my old friend

No ano em que eu nasci, 1964, The Sound of Silence era a música do momento. O clássico de folk-rock da dupla americana Simon & Garfunkel, sobre as dificuldades de comunicação entre humanos, foi escrito ao ritmo de uma linha por dia, numa altura em que a América recuperava do choque do assassinato de John F. Kennedy (1963).

«A canção era sobre a angústia pós-adolescente», explicou Paul Simon à imprensa, «mas por conter uma boa dose de verdade, fez com que muita gente se identificasse com ela». Não apenas nessa altura, mas noutras, como após o trágico evento de 11/9. 

Hoje, o descontentamento (desencanto? perplexidade?) globalizou-se e permanece atual. A melodia apela à emergência da uma qualquer luz, no meio da escuridão. E, talvez, ao desejo de um outro amanhã. Ao fim desse silêncio «ensurdecedor» nos tempos sombrios que atravessam, velhos e novos, ávidos de sonho. 
Aqui ficam alguns excertos.

Ver clip: O som do silêncio

«Olá escuridão, minha velha amiga
Vim conversar contigo de novo
(…)
Em sonhos agitados, caminhei só
Nas ruas estreitas da calçada
Sob a luz dos candeeiros de rua
(…)
E na luz nua eu vi
Dez mil pessoas, talvez mais
(…)
Pessoas a escreverem canções
Que as vozes jamais partilham
E ninguém ousa
Perturbar o som do silêncio

"Tolos", disse eu, "vocês não sabem
Silêncio é como um cancro que cresce
Ouçam as palavras que eu vos posso ensinar
Aceitem os braços para que vos possa alcançar"
Mas as minhas palavras caíam como gotas silenciosas de chuva
E ecoaram num poço do silêncio
(…)