segunda-feira, 8 de julho de 2013
Amor em Tempos de Cancro
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Caminhar sem medo

Se tem entre 40 e 64 anos...
...já deu consigo a pensar «A vida não é fácil». Ou «O que custa é saber viver».
Se a sua economia pessoal está «em crise», e dá por si com escassa liberdade de movimentos, talvez esteja na altura de fazer ajustes, nos planos pessoal e/ou familiar.
Em vez de marcar passo - como no refrão da canção «Try walking in my shoes» - lembre-se que tem o direito de procurar o «sapato» que melhor lhe sirva no pé. Situar-se e aliviar apertos pode passar por:
- Libertar-se de condicionamentos que funcionaram noutras alturas, mas que agora não se aplicam
- Cultivar o equilíbrio entre gerações, sem esquecer o seu
- Sintonizar os planos pessoal, profissional e social
Faça a sua própria checklist para facilitar a tomada de decisões que naturalmente surgem nesta etapa da vida. Aqui ficam alguns tópicos.
Economia familiar
- Crie limites - se não quer ver as suas poupanças a
voar, defina a quota-parte da responsabilidade dos filhos crescidos na educação
(bolsas, trabalhos part-time) e conte com o orçamento dos pais para as
necessidades deles
- Conte com imprevistos - equacione a possibilidade de
ter os descendentes de volta ao ninho, mesmo que temporariamente, e de ter reservas
à mão para socorrer os seus pais, se ficarem dependentes de si por mais anos e
com recursos escassos
- Não fuja das decisões difíceis - conheça os planos dos
pais para o futuro e discuta-os com eles no seio familiar (seguros, depósitos,
onde ficar no fim de vida, decisões legais, cuidados médicos)
Economia individual
- Cuide de si - defina o que é essencial para satisfazer
necessidades pessoais, sem queimar o orçamento com os outros membros do clã e
poupe para a sua própria reforma
- Simplifique - aceite o que não pode mudar (condição
física, mudanças de estatuto profissional, projetos que não deram certo e
outros fatores não esperados)
- Crie a sua rede - mantenha-se em contacto com amigos e
conhecidos, na sua comunidade ou virtualmente, para partilhar interesses e
resolver problemas, sem isolar-se
Etiquetas:
caminhar,
crise,
decisões,
economia,
familiar,
gerações,
imprevistos,
individual,
limites,
medo,
vida
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Só para Middle Agers
Sente-se «ensanduichado»? Sem espaço para a tal plenitude
que sonhou ter, chegado a meio do caminho da vida? 3 níveis de dificuldade (ou
de complexidade) a ter em conta, porque fazem parte do processo, nas condições
atuais.
Desafio 1:
Longevidade
O aumento da esperança de vida tornou possível coexistirem
até cinco gerações. Uma conquista, sim. E novas questões. Em Portugal, a
geração sanduíche representa 34% da população, com 3,6 milhões de pessoas que,
entradas na meia-idade, se dividem entre as solicitações dos pais, que vivem
mais tempo, e dos filhos, cuja autonomia tarda em chegar. E enfrentam, ao mesmo
tempo, transformações pessoais (estado de saúde, mudanças laborais, separações,
lutos).
Desafio
2: Sustentabilidade
O grande desafio desta etapa, hoje mais
incerta do que era expectável no final do século XX, alterna entre sobreviver
ao papel de âncora da família e voltar a depender dos mais velhos, em tempos de
aperto. Dos cerca de milhão e meio de desempregados, apenas 370 mil recebem
apoios mensais do Estado. O País tem quase 20% de idosos, 3% dos quais dependem
dos descendentes (os que estão na meia idade). Estes e suportam as despesas com
os filhos por mais tempo que o expectável, já que entre os 15 e os 24 anos, 70%
dos jovens portugueses estão a cargo da família.
Desafio
3: Autonomia
Por força das circunstâncias, a ‘crise do ninho vazio’ –
quando os filhos vão à sua vida – está a ser suplantada pela dos ninhos cheios
ou, até, sobrelotados. Na prática, a casa de família pode ficar mais vazia,
para no momento seguinte voltar a encher-se, ao ritmo das mudanças imprevistas,
no mercado do trabalho e no mundo dos afetos. Apoiar-se nas ajudas dos idosos é
algo que começa a ser cada vez mais normal entre os que estão «no meio da
sanduíche». Segundo o último Censos, 10,3% dos que estão na meia-idade vivem a
cargo de familiares, na sequência de divórcio, perda de casa ou do posto de
trabalho. Ou em face de um diagnóstico de doença mental grave (Portugal ocupa o
primeiro lugar na Europa com uma prevalência anual de 23%). Também os seniores,
contando com uma velhice tranquila e uma pensão segura, se vêem confrontados
com a perda de qualidade de vida, se tiverem de ser a base para um filho
adulto, do grupo dos «entas», que deles depende.
A situação pode ser desesperada, mas não é para ser levada tão
a sério. É possível criar pontos de equilíbrio, por mais instáveis que sejam. E
ganhar algum distanciamento e espaço para existir.
(cont.)
Maduros, mas pouco seguros
Se tem entre 40 e 64 anos, este é o tempo para desfrutar a
vida sem pedir licença e por mérito próprio. É o tempo de saborear metas
alcançadas e aspirar, ainda, a realizar plenamente sonhos por cumprir.
O meio
da vida pode ser tudo isto, mas é também um desafio à capacidade de gerir tensões
acrescidas. Na linha do tempo, os middle
agers sentem-se hoje mais entrincheirados do que há duas décadas atrás, entre
os seus filhos e os seus pais.
A tão almejada autonomia tranquila parece ficar
cada vez mais comprometida para a «geração sanduíche», como lhe chamou o
psiquiatra americano Michael Zal, nos anos 1990. Entrar nos «entas» afigura-se
um desafio mais complexo, que requer uma ginástica singular e criativa, a condizer
com os tempos pós modernos, líquidos e, por vezes, com poucas pausas para
respirar. O que fazer?
Um minuto com… o
psiquiatra H. Michael Zal
Ganhou fama mundial com a obra A Geração Sanduíche: Entre Filhos Adolescentes e Pais Idosos (ed.
Difusão Cultural). Tem 71 anos, exerce clínica privada há mais de 40, no Estado
da Pensilvânia.
O que mudou desde
que escreveu o livro?
Há mais tempo de vida. Procura-se ficar ativo pelo maior
tempo possível, também pelo receio de ficar excluído ou à mercê de serviços
assistenciais. O envelhecimento ainda não é socialmente respeitado.
Que dificuldades
são mais comuns hoje, quando se chega ao meio da vida?
Os problemas de emprego, de proteção social e na saúde.
Jovens e seniores estão a voltar para a casa de família quando ficam sem
trabalho. Não é fácil, mas todos encaram a situação como transitória. As
maiores dificuldades são emocionais: deixar sonhos não realizados e ver as
metas atingidas como suficientes.
Como viver ensanduichado no panorama atual e tirar
proveito disso?
Ter expectativas realistas. Respeitar o espaço próprio, sem
esquecer o dos outros, que acontece muito em períodos críticos. Criar
oportunidades de diversão, mesmo na adversidade, porque aproxima as pessoas e
melhora a convivência entre gerações.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Os Segredos da Solidão III
A capacidade de estar só
"Finding Peace in Solitude" by Si2
Há
muitas formas de experimentar o que o psicanalista Donald Winnicott descreveu
como «a capacidade de estar sozinho». Segundo ele, o sentimento de autonomia
resulta da possibilidade que a criança teve de estar só, na presença de alguém
confiável (geralmente a mãe, apesar de poder ser o pai, um familiar próximo ou
uma figura protetora). Assim se pode explicar porque é para uns mais fácil
estar bem na sua própria companhia do que para outros, sem sentir-se ameaçado.
Numa perspectiva existencialista, todos nascemos e morremos sós. Ter isso em mente, mesmo numa sociedade globalizada, revela-se um convite estimulante, mais não seja para sair do frenesim comunicacional e das nossas próprias zonas de conforto. A Lonely Planet, por exemplo, também conhecida por bíblia dos solitários, nasceu do relato da longa viagem de lua-de-mel de Tony e Maureen Wheeler, um casal britânico que, há quatro décadas, se dispôs a percorrer a Europa e a Ásia de carro para acabar na Austrália.
A vontade de renunciar à pressão para manter-se em sintonia com o ritmo social dominante conquista cada vez mais adeptos. Os numerosos blogues com dicas para os viajantes solitários, os retiros em lugares remotos e alguns estilos de vida monástica parecem ser mais que uma moda: traduzem uma necessidade pessoal que vai sendo reconhecida e cultivada por uma imensa minoria.
Aprender a observar os outros, sem defesas excessivas- «tentar colocar-se nos seus sapatos» - e ir ao encontro deles, sem expetativas, pode ser tão gratificante como optar por periodos sabáticos, de tempos a tempos. Génios como Jesus, Buda, Newton e Beethoven tiveram momentos de criatividade em períodos de retiro ou de eremitagem.
A capacidade de estar só fermenta a autonomia e a liberdade de pensamento. O temperamento solitário é um estilo pessoal, mas também uma defesa/sintoma (no segundo caso, é vivido com desconforto). A solidão está associada ao sentimento de vazio e de isolamento (interno ou fruto de contingências: ausencia de amigos, falta de apoio familiar, relacionamentos superficiais ou que envolvem distância geográfica)
Só...
Em doses qb (cada um deve descobrir a sua) (+)
·
Autodescoberta: possibilidade de pensar/sentir sem os filtros externos
·
Desfrute: saborear as etapas superadas sem o
bulício do quotidiano
·
Serenidade: conectar-se com sentimento de
tranquilidade e calma
·
Simplicidade: uma mente não agitada fica mais
clara e liberta
·
Equilíbrio: disponibilidade para sintonizar-se
com o mundo, sem medo
Em demasia (-)
· Sintomas de mal-estar
· Stresse (distúrbios na pressão arterial, sistema hormonal, etc)
· Problemas imunitários
· Alterações cognitivas e neurológicas
· Isolamento, menos anos de vida
Etiquetas:
autodescoberta,
capacidade de estar só,
criatividade,
isolamento,
lonely planet,
serenidade,
silencio,
só,
sozinho,
stresse,
winnicott
Os segredos da solidão II
A história de Emily White
Uma advogada sem filhos, a quem nunca faltaram
amigos e interesses, passava a maior parte do tempo por sua conta. O problema era a permanente sensação de desligamento face ao que estava à sua volta, sobretudo
a partir dos 30 anos. Emily investigou o assunto e escreveu um livro onde revela estudos, testemunhos e relatos na primeira pessoa. Depois de experimentar fármacos contra a ansiedade e depressão, fórmulas herbais, uma linha telefónica de aconselhamento e hipnose, a autora continuava sem perceber a razão de tanto desconforto.
Recorreu à psicoterapia. Nas sessões, tomou contacto com a raiva não expressa em criança, por sentir-se distante ao lado de um pai de fim-de-semana e de uma mãe sozinha, com a qual se veio a identificar em adulta. As as suas escolhas de vida - decidir não ter filhos, um trabalho solitário e uma morada remota, longe da família – espelhavam isso. Aos 40 anos, aventurou-se numa vida a dois.
Recorreu à psicoterapia. Nas sessões, tomou contacto com a raiva não expressa em criança, por sentir-se distante ao lado de um pai de fim-de-semana e de uma mãe sozinha, com a qual se veio a identificar em adulta. As as suas escolhas de vida - decidir não ter filhos, um trabalho solitário e uma morada remota, longe da família – espelhavam isso. Aos 40 anos, aventurou-se numa vida a dois.
Após quatro anos mergulhada no problema, Emily avançou para as conclusões:
- «Quem se sente só raramente o admite, por sentir culpa ou vergonha [que só complicam].»
- «Na nossa cultura [tecnológica], passamos cada vez mais tempo sozinhos. Paradoxalmente, impele-nos para uma socialização ativa a todo o custo.»
- «A relação amorosa não mudou o hábito de pensar-me como solitária (…) mas preciso do conforto que pode ser dado por outra pessoa.»
Considerações
Medir comportamentos é próprio do método experimental, usado na investigação psicológica. Um teste deve servir para refletir, mais do que classificar.
Fazer um teste é um convite à auto-análise. Para responder ao que mede a solidão, passei inevitavelmente por memorias de me ter sentido e me foi difícil admiti-lo.
Socializar é desejável, mas estar em grupo, numa base regular, exige uma boa dose de adaptação e dispêndio de energia.
Alternar o convívio com períodos de isolamento e contemplação, se eles revigoram e inspiram, parece sensato (sobretudo antes de tomar decisões ou após um intenso período de trabalho!)
segunda-feira, 25 de março de 2013
Os segredos da solidão I
«Mais vale só.» Depende. Do que é, para cada um, estar «mal acompanhado». Se a «má companhia» for alguém
com quem se tem uma relação doentia e tóxica, o melhor é fechar contas e dar crédito a necessidades próprias. Quando a sensação de ficar entregue a si mesmo, numa espécie de desamparo sem causa óbvia, se afigura desarmante, a
«má companhia» somos nós.
Como viver com os nossos «buracos negros»?
A era da hiperconetividade e do telefone smart tem vantagens preciosas, mas não substitui um abraço, um jantar caseiro ou uma «escapadinha a dois», como prometem os sites de descontos em voga. A possibilidades de interagir sem fronteiras pode valer muito pouco se, mesmo numa sala cheia, tudo parecer distante, superficial e
vazio de sentido.
O Estrangeiro (título do Nobel da Literatura Albert Camus (1957) é o outro e somos nós. No lançamento da obra póstuma do escritor e pensador, a partir de manuscritos não editados (The First Man), a filha de Camus revelou ao Nouvel Observateur como foi sentir-se invisível, quando ela era ainda criança: «Encontrei o meu pai sentado na sala, a cabeça entre as
mãos. Disse-lhe: ‘Estás triste papá?’ Ele levantou a cabeça, olhou-me nos olhos
e respondeu: ‘Não, estou só.’ Isso revoltou-me tanto! Eu não sabia como
dizer-lhe que comigo ele não podia estar só’».
Brian Marki Fine Art - L'Étranger I - Oil on canvas
Quem é o estrangeiro? O estranho em cada um de nós?
Quando abri o livro Solidão (Pergaminho, 16,60€), de Emily White, fui
surpreendida, na primeira página, com um teste. Respondi aos 20 itens da Escala
de Solidão da Universidade da Califórnia. Antes de mergulhar nas 317 páginas
que tinha em mãos, segui as pistas apresentadas nas referências finais, googlei
e obtive uma interpretação mais completa do resultado: «Você é uma pessoa
solitária e provavelmente sabe disso. Se não lhe causa incómodo, é possível que
esteja apenas a racionalizar o problema, a inventar desculpas para não
enfrentá-lo.»
(cont.)
segunda-feira, 18 de março de 2013
Hello darkness, my old friend
No ano em que eu nasci, 1964, The Sound of Silence era a música do momento. O clássico de folk-rock da dupla americana Simon & Garfunkel, sobre as dificuldades de comunicação entre humanos, foi escrito ao
ritmo de uma linha por dia, numa altura em que a América recuperava do choque do assassinato de John F. Kennedy (1963).
«A canção era sobre a angústia pós-adolescente»,
explicou Paul Simon à imprensa, «mas por conter uma boa dose de verdade, fez
com que muita gente se identificasse com ela». Não apenas nessa altura, mas noutras, como após o trágico evento de 11/9.
Hoje, o descontentamento (desencanto? perplexidade?) globalizou-se e permanece atual. A melodia apela à emergência da uma qualquer luz, no meio da escuridão. E, talvez, ao desejo de um outro amanhã. Ao fim desse silêncio «ensurdecedor» nos tempos sombrios que atravessam, velhos e novos, ávidos de sonho.
«Olá escuridão, minha velha amiga
Vim conversar contigo de novo
(…)
Em sonhos agitados, caminhei só
Nas ruas estreitas da calçada
Sob a luz dos candeeiros de rua
(…)
E na luz nua eu vi
Dez mil pessoas, talvez mais
(…)
Pessoas a escreverem canções
Que as vozes jamais partilham
E ninguém ousa
Perturbar o som do silêncio
"Tolos", disse eu, "vocês não sabem
Silêncio é como um cancro que cresce
Ouçam as palavras que eu vos posso ensinar
Aceitem os braços para que vos possa alcançar"
Mas as minhas palavras caíam como gotas silenciosas de
chuva
E ecoaram num poço do silêncio
(…)
domingo, 10 de março de 2013
Psicoterapia a nu
Na hora de procurar ajuda, saiba o que deve esperar
de um profissional. A sua saúde mental agradece
4 «regras de ouro»:
Certificar-se das credenciais do terapeuta
Procurar referências do mesmo
Indagar sobre o método usado e regras de funcionamento
Descubra se sente segurança e empatia na sessão
www.123rf.com
A relação
terapêutica obedece a um setting com
regras próprias, em que o contacto físico não entra. A haver atração, ela deve
ser descodificada nas consultas, em benefício do paciente, sem que o clínico
aja como qualquer outra pessoa nessa situação (reforçando desse modo o
problema que a pessoa traz). Ao agir as fantasias do paciente, o resultado pode
ser contraproducente (ou não fosse por isso que as comédias acerca deste tema
têm sucesso garantido, porque facilmente as reconhecemos, tanto quanto as
tememos). Porém, a nível oficial, pouco ou nada se sabe acerca desta realidade
escondida (o relatório que analisa as queixas dos utentes, da responsabilidade
da Direção Geral de Saúde, não tem qualquer referência à área da saúde mental).
Ténue é a linha que separa o próximo do demasiado próximo. A questão é saber
como fazer quando isso sucede.
stanley-siegel.com
Maria
(nome fictício) sofria de ansiedade social e tinha recorrido aos serviços de um
terapeuta conhecido. Após três meses de sessões, deu por si a ficar impaciente
pela sessão seguinte. «Chegava a ter consultas de quase duas horas, conversava
ao telefone com ele e uma amiga alertou-me para o facto de isso ser, no mínimo,
uma prática pouco ortodoxa.» No final de uma sessão, abordaram as dificuldades
de relacionamento de Maria e ele despediu-se dela com um abraço e um beijo,
acompanhado de carícias. «Fiquei desorientada, sem saber se devia ceder aos
avanços, apesar de ter vontade.» Desde esse dia, nada voltou a ser como antes.
«Comecei a sentir por ele tudo o que já havia experimentado em relacionamentos
que acabaram mal.» Durante a pausa da terapia, para férias, Maria recorreu a
outro profissional. Na terceira sessão conseguiu verbalizar o sucedido. Nunca
mais voltou ao primeiro consultório nem fez queixa, «por sentir medo e culpa»,
que está a explorar agora, num novo contexto.
A
confusão de fronteiras na dupla terapêutica tem feito correr muita tinta no
meio das celebridades, cujas vidas são alvo do escrutínio público. Basta recuar
um século para chegar à história de Sabina Spielrein, paciente de Carl Jung. O
discípulo de Sigmund Freud sabia que estava a explorar terreno minado ao
envolver-se sexualmente com Sabina, que veio a ser, igualmente, uma
psicanalista famosa. O caso gerou polémica por ter sido violado o código de
conduta, com consequências para os três visados, como o ilustrou, de resto, o
cineasta Cronenberg, ao ficcionar a história, em Um Método Perigoso. Casos em que terapeutas menos avisados se
renderam à sedução dos seus pacientes têm sido mais comuns do que o
recomendável, pondo a nu as fragilidades humanas. Nos anos 30, a escritora
Anais Nin, amiga e amante do seu psicanalista Otto Rank - outro dissidente de
Freud – viria a descrever esse envolvimento num dos seus diários, admitindo
publicamente o impacto que a experiência teve na sua vida, marcada pela relação
incestuosa que tivera com o pai. Nos anos 60, foi a vez de Marilyn Monroe e
Ralph Greenson. O médico abriu-lhe as portas da sua casa e apresentou-a a familiares
e amigos, por entender que assim podia reparar os danos sofridos pela rapariga cuja
infância fora passada em orfanatos e famílias de acolhimento. A morte da atriz,
por overdose de barbitúricos, representou a travessia no deserto para Greenson.
Um ano antes de morrer, redigiu o ensaio Problemas
em psicoterapia com ricos e famosos, onde refletiu sobre os riscos de
sucumbir ao poder sedutor dos pacientes, tomando como exemplo o caso «de uma
actriz de 34 anos, bonita e famosa, com personalidade limite, aditiva e
paranóide».
Quase
um século depois, a neutralidade do terapeuta é ponto assente, bem como a
capacidade de lidar com a transferência (sentimentos e crenças do paciente que
ele projeta no terapeuta).
O clínico e o paciente não são amigos, não almoçam
juntos e, excepto numa situação de emergência, não se contactam entre sessões.
http://adangerousmethod-themovie.com
Para a psiquiatra Ângela Pires, o profissional deve preservar a sua vida
privada e manter-se firme e seguro para poder acompanhar a pessoa em tudo o que
ela sente, da zanga e fúria à paixão. Aceitar a pessoa que ali está implica, no
ambiente clínico, dominar a arte de gerir a distância. «Nem tão próximo que
perca o foco, nem tão distante que não se deixe tocar pelo paciente.» Quanto a eventuais
abusos, comentados em surdina, por parte de quem ajuda e de quem procura essa
ajuda, a médica adverte: «O envolvimento erótico do terapeuta é muito
semelhante ao incesto e traz danos, na medida em pressupõe que ele age por
vaidade, questões de ego ou inexperiência, em vez de traduzir um desejo de
intimidade do paciente, com bom senso e sem rejeitá-lo.»
O
que fazer, então, perante uma situação menos ética? David Neto, da Ordem dos
Psicólogos, recomenda: «Confrontar o profissional e esclarecer eventuais
equívocos e, se for uma queixa com fundamento, apresentá-la à entidade que o
tutela.»
Glen
Gabbard é um psiquiatra americano, famoso por avaliar profissionais de ajuda (padres,
médicos e psicoterapeutas) acusados de transgredir limites no exercício de
funções. Numa entrevista recente ao site do British
Psychoanalytic Council, o diretor da clínica Baylor, no estado do Texas, afirmou
que todos os clínicos são vulneráveis a passar das marcas, mas apenas os que
têm distúrbios da personalidade o fazem. E cita alguns exemplos de
transgressões, com caráter perverso: «Tratam as pessoas como suas amigas, outras
vezes convencem-nas de que estão apaixonadas por eles.» Valendo-se da sua
autoridade, criam falsas esperanças em quem as procura para apoio especializado
e exploram-nas, quando as deviam acompanhar e proteger. Em certos casos, essa
faceta revela-se, paradoxalmente, uma virtude. Glen, também autor do bestseller Psychiatry and the Cinema, explica porquê: «O público adora o tipo
de pessoa que faz algo radical para salvar o paciente, isso torna-o sedutor.»
Consciente
disso, uma jovem americana lançou, há dois anos, o conceito Terapia a Nu.
Apesar de não ser reconhecida no meio clínico, Sara White insiste que o seu
método – despir-se online, enquanto o paciente vai dando curso livre as suas
fantasias – está para o século XXI como a psicanálise o foi para o século XX. A
jovem argumenta, no site, que os homens estão assustados com as mulheres, que
tomaram de assalto o meio clínico, e que o meio virtual se lhes afigura
apetecível para se exporem, sem toque nem inibições, mas com sexo à mistura.
Poderá ser terapêutico para alguns, mas não é psicoterapia.
Texto publicado em Revista Máxima (Dez.2012)
Etiquetas:
abusos,
autoconhecimento,
Carl Jung,
Cronenberg,
erótico,
Freud,
Glen Gabbard,
Inteligent Lust,
Psiquiatra,
Psychology Tomorrow,
Stanley Siegel,
terapia
O Meu Corpo e Eu
Encontrar significado para sintomas pouco comuns é um
exercício de descoberta pessoal, que a ciência só parcialmente explica e a
sociedade nem sempre aceita
Duas mulheres famosas, uma romancista e outra activista, entenderam
ter uma palavra a dizer sobre o que se passava no estranho mundo dos seus
corpos, aos quais «aconteciam coisas». Dessas, que as ciências médicas
diagnosticam e tratam, e de outras, menos óbvias. É humano: o sintoma tem
sempre razão. Descobri-la é outra história. A ser bem contada, pode acabar nas
páginas de um livro.
«Em Maio de 2006, sob um céu azul e sem nuvens, ali
estava eu [Minnesota, EUA] para discursar sobre o meu pai, que morrera dois
anos antes. Assim que abri a boca, comecei a tremer violentamente. Tremi nesse
dia e tremi outra vez, noutros dias. Eu sou a mulher que treme.» Assim termina
o ensaio The Shaking Woman or A History
of My Nerves (2010), da autoria da escritora americana Siri Hustved, companheira
do também escritor Paul Auster. A experiência, aos 51 anos, abalou-a
profundamente. Tudo correra bem na elegia fúnebre: «Quando chegou a hora, li o
que tinha preparado, numa voz forte, sem lágrimas.» Agora, diante de uma
plateia de convidados, no lugar onde o pai tinha sido professor universitário
durante quatro décadas, também conseguiu ler o discurso até ao fim, mas incapaz
de controlar o seu corpo a tremer, da zona do pescoço para baixo.
Durante dois anos, Siri dedicou-se, com afinco, à procura
da explicação para o «estranho» que habitava nela, qual «duplo», que podia
manifestar-se à revelia da sua vontade, do seu Eu. Procurou ajuda na medicina
convencional e complementou a sua investigação com memórias e episódios biográficos
marcantes.
A hipótese de luto tardio estava fora de questão. Freud
poderia diagnosticar histeria (hoje, perturbação de conversão). O psiquiatra
equacionou uma desordem de pânico. O neurologista quis despistar a
possibilidade de epilepsia.
http://sirihustvedt.net/57 anos, ascendência norueguesa
Doutorada em literatura inglesa, nos Estados Unidos
Romancista e ensaísta
Traduzida em 29 línguas, recebeu vários prémios
Casada com o escritor Paul Auster, a viver em Nova Iorque
Insight: «Ser doente depende do temperamento, história pessoal e cultura em que vivemos»
As ressonâncias magnéticas que não acusaram nada. A solução para manter os malditos «ataques» sob controlo era tomar medicamentos beta-bloqueantes. A certa altura, a autora confessa ao leitor: «Fui seguida por uma psicanalista e uma neurologista, mas nenhuma me disse quem era a mulher que treme.»
Siri foi à procura dela. Frequentou, até, um grupo de
neuropsicanálise e conheceu as pesquisas sobre neurónios-espelho, responsáveis
pela empatia (sentir-se na pele do outro). Aí estaria, segundo ela, a chave do
enigma. Na última semana de vida do pai, Siri pensava nele, antes
de dormir, quando foi invadida pela sensação física de alguém com enfisema
pulmonar. «Como ele, senti a proximidade da morte.» O pai autorizara que ela
usasse memórias suas no livro As
Tristezas de um Americano (2008). A filha chegou a teclar cartas dele, combatente
na II Guerra, para interiorizar fisicamente o sentimento dos flashbacks descritos.
O envolvimento emocional intenso com a escrita paterna
pode ter estado na origem do «ataque». Quando ela se preparava para dar voz às
palavras, deu-lhes corpo. «A história da mulher que treme é a narrativa de um
evento que se repete e vai ganhando, ao longo do tempo, múltiplos sentidos, consoante
a perspectiva.» Podemos não controlar o que nos acontece, mas faz toda a
diferença ligar pontas soltas do «Eu» nessa história, e conta-la, de forma
articulada, a um «Tu».
Um dia, a mente deixa de responder ao que se passa no
corpo e tudo parece perdido. Ou ganho, depois de passar pela experiência, com
uma visão renovada. Para a activista política Naomi Wolf, autora do best seller
O Mito da Beleza, nos anos 90, o «click» deu-se aos 46 anos. «Enquanto fazia amor, e
nos momentos seguintes, deixei de sentir-me física e emocionalmente conectada
e, em vez disso, sentia uma dormência interna». Este foi o ponto de partida
para o seu novo livro, Vagina: A Cultural
History. Num artigo ao jornal britânico The
Sunday Times, Naomi afirmou que o seu problema foi uma oportunidade para
ganhar uma nova consciência sexual, com a ajuda clínica, mas não só.
A jornada começou no gabinete de ginecologia. Os testes
ditaram o diagnóstico: doença degenerativa na lombar, pela compressão vertebral
nos pontos L6 e S1. A lesão, originada por uma queda, duas décadas antes, nunca
tinha dado dores, até bloquear parte do nervo pélvico (que envia impulsos ao
cérebro, activando a química do prazer e do amor). Daí a dormência e falta
daquela euforia pós-sexo. A cirurgia era parte da solução. Na consulta com o
especialista Jeffrey Cole, Naomi ficou a conhecer algo novo: «Cada mulher tem
um nervo pélvico diferente; algumas ramificações centram-se mais na vagina,
outras no clítoris ou, ainda, no períneo, o que explica as diferenças
individuais da resposta sexual feminina.»
Sem estar à espera, Naomi encontrou a resposta para o
clássico drama da insatisfação feminina. Se as diferenças nas terminações
nervosas pélvicas são puramente físicas, deixa de haver discussão sobre
orgasmos de primeira e de segunda. O mistério está na anatomia e circuitos neurais
de cada mulher. Isto é algo que devem gostar de saber as 30% de mulheres
ocidentais que referem não ter prazer com o sexo. «Em vez de julgar-se ou
culpar-se por algo não funcionar consigo, explore as suas ligações neurais e deixe-se
guiar por elas.»
O prazer de fazer amor e o sentimento de êxtase 2-em-1, voltaram.
Depois do alinhamento das vértebras, Naomi recuperou, em alguns meses, a
sensibilidade que julgava perdida. Durante esse tempo, quis aprofundar o assunto
e frequentou os cursos de Mike Lousada, um terapeuta de sexo tântrico. «Os
tântricos abordam a sexualidade feminina com respeito, como se fosse sagrada», revelou
à imprensa. Na sua obra, disserta sobre o potencial do órgão sexual feminino, uma
porta de entrada para o autoconhecimento e a comunhão mística.
As críticas não se fizeram esperar. Numa edição do The Guardian, por exemplo, ironizava-se com
a mulher em crise da meia-idade que usava a
ciência a gosto, para legitimar questões de ego.
naomiwolf.org
50 anos, ascendência americana e romena
Formou-se em Artes e
Literatura Inglesa, nos Estados unidos
Autora, jornalista e defensora
da liderança e libertação sexual das mulheres
Foi consultora de Al Gore e
Bill Clinton nas suas campanhas presidenciais
Vive com o produtor de cinema
Avram Ludwig
Insight: «As mulheres americanas têm sido tão controladas por
ideais e estereótipos como por limitações materiais»
Naomi Wolf, a mulher que personificou o movimento
feminista de terceira geração, nunca escondeu as suas posições acerca do corpo,
da vida privada e das questões de consciência social, por mais controversas que
fossem. O gigante Apple também não escondeu que, em pleno século XXI, censura
palavras como a que titula o livro. Na sinopse pode ler-se: «V****a. Um
trabalho surpreendente que muda radicalmente a forma como pensamos acerca da
v****a». Ironicamente, o texto termina com a autora a interrogar «porque é que,
mesmo num mundo cada vez mais sexualizado, a v****a é vista como uma ameaça, ou
se pensa nela como algo ligeiramente vergonhoso».
Nas redes sociais, alguns dos comentários destacaram o paradoxo:
se é de um termo médico que estamos a falar, como querem, afinal, que lhe
chamemos?
Texto publicado na Revista Máxima (Fev 2013)
Subscrever:
Mensagens (Atom)












