sábado, 16 de fevereiro de 2013

Histórias que curam


O que fazer quando se recebe um diagnóstico «mau»? Como se lida com os efeitos devastadores de uma doença crónica? Que sentido dar a uma faceta pessoal não assumida?  Toda a experiência é válida, assim se consiga encontrar o fio à meada e tecer os contornos de uma jornada feita na primeira pessoa.

O rumo dado aos eventos parte, em última análise, da sua visão do real. Não raras vezes, é aí que se descobrem forças que se julgavam apenas dos outros, e permitem trilhar caminhos inexplorados, antes, durante e após processos difíceis.


Estudos realizados na universidade americana de Chicago demonstraram que as narrativas pessoais têm um forte potencial terapêutico. Aliadas à medicina, cada vez mais especializada, elas constituem um complemento essencial nos processos de recuperação e da gestão de doenças e, mesmo em fases terminais, têm o potencial de restituir a dignidade e a dimensão humana, subjectiva, que deve estar sempre presente nos processos de natureza física.

Sabia que…

… um «diário de bordo» é uma opção frequentemente usada para superar fases difíceis?

  • Não importa o grau de conhecimento que se tem do assunto, nem sequer as competências de escrita.
  • Registar no papel (ou no tablet) tudo o que se passa dentro e fora do corpo, num período de mudança, tem um poder catártico.
  • Contar o que vai dentro de si, sem julgamento prévio, confere a sensação de controlo, pelo menos em parte, durante um período de incerteza. 
  • Elaborar, ou dar um sentido mais profundo ao que está a passar pode traduzir-se em serenidade. Há quem prefira fazê-lo a solo, mas igualmente numa psicoterapia ou num grupo (presencial ou virtual). 
·      Vergonha, inadequação, medo e desespero são sentimentos que surgem – ou se intensificam – em momentos de sofrimento e de dor. Eles podem ser minimizados pela escrita guiada ou pela partilha de experiências, seja com um profissional de ajuda ou em grupos com problemas similares. Outra das vantagens da partilha é sentir-se acompanhado, ouvido e ter ao alcance a possibilidade de expandir, de forma criativa, a visão de si e das opções que se afiguram pertinentes numa dada etapa de vida.

O uso das narrativas biográficas tem-se revelado muito útil na formação de médicos e outros profissionais de saúde, especialmente os que trabalham em equipa e em ambientes tecnologicamente avançados (em que a componente subjectiva tende a ficar em segundo plano pela especialização e falta de tempo, dificultando a comunicação de diagnósticos, a adesão aos tratamentos e a colaboração do doente no processo clínico). Em Portugal já existem iniciativas deste género, como as conferências realizadas na Universidade de Lisboa (Centro de Estudos Anglísticos).

Viver para contar
O que as histórias pessoais podem fazer por si (e por quem as testemunha)
  • Fornecem informação útil: apreendemos melhor o que ouvimos directamente do que aquilo que lemos num folheto, que é desprovido do elemento emocional
  • Conferem apoio: saber que não se é o único a passar por uma situação complicada revela-se uma ajuda preciosa (num processo de decisão, num tratamento, na reabilitação ou no luto)
  • Estimulam a mudança de atitude: comprovar, in loco, como alguém foi capaz de deixar de fumar, de perder peso, superar uma quimioterapia ou um trauma, é uma fonte motivadora
  • Facilitam decisões: a comunicação entre prestadores de cuidados clínicos e de quem deles precisa estabelece-se numa base mais realista e com um maior grau de confiança
Ver mais em: Revista Máxima


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domingo, 10 de fevereiro de 2013

«Curtir» v.s. «Namorar»




E se alguém com quem teve um encontro íntimo não olhar para si no dia seguinte ou, pior que isso, fazer de conta que nunca se viram, quando se voltarem a cruzar? Se foi esse o acordo explícito que estabeleceram antes, nada de novo. A questão do sexo casual – vantagens e desvantagens – compete a cada um. O estilo de vida escolhido, no que toca à vida privada, é uma decisão individual.

De acordo com um estudo realizado pelo sociólogo Machado Pais, a liberdade sexual é assumida pela maioria dos adolescentes e jovens, mas os dilemas associados a essa realidade estão igualmente na ordem do dia. Estudos realizados nos Estados Unidos, e citados na revista digital The Atlantic, destacam o crescimento do número de estudantes do sexo feminino nas universidades e a generalização da «cultura do engate», leia-se, sexo descomprometido, na população universitária. Porém, a «norma» de saltar de parceiro em parceiro pode não estar a ser tão promissora e satisfatória como aparenta. Especialmente para as raparigas ditas sexualmente emancipadas. Apenas 2% delas se revê neste registo, ao passo que a maioria prefere a velha e tradicional «cultura do namoro». A somar a esta evidência, pesquisas levadas a cabo na universidade da Florida sugerem que a fatura do amor livre se traduz, mais tarde, em perturbações alimentares, mais consumo de substâncias e tendências depressivas, comparativamente a jovens que optam por relações de médio e longo termo.

 A conclusão parece óbvia: entre a ausência de vínculos e o casamento há uma terceira via. A intimidade não oficializada, através de rituais que dispensam a aliança no dedo. Em suma, parece que as mulheres do século XXI têm o que as suas mães e avós nunca sonharam, mas vêem.se presas num equívoco: afinal, que poder é o delas, em matéria de decisão? Se o sexo casual – ou sem rosto – é a regra, qual o lugar para a satisfação das necessidades emocionais? Numa época em que obras como As Cinquenta Sombras de Gray se elevam à categoria de best sellers globais – em que o protagonista rico e dominador mesmeriza a jovem inexperiente e a leva a submeter-se aos seus caprichos, de acordo com um contrato firmado como na época do Marquis de Sade – qual a margem de liberdade para querer mais, além de um vínculo secreto, puramente físico e destituído de afetos?

O poder feminino não vai além da questão do desempenho e da técnica? Este parece ser o tabu da sociedade hiper-realista e digital, em que todos podem ter acesso a todos, mas ninguém parece poder ficar mais próximo de alguém. Não se trata de saber de quem é a culpa ou se o romantismo perdeu glamour. A propósito, os filmes que cativam têm uma boa dose de suspense e o encanto deles reside em esperar para ver até onde levam. Não será também assim, fora da tela? É esse o poder da liberdade: exercê-lo, sem ceder à corrente dominante.

domingo, 4 de março de 2012

Elsa Punset, Viajante Emocional

Elsa Punset quer revolucionar a forma como as novas gerações lidam com o que sentem

Clara Soares

A filha do escritor Eduard Punset, escritor e professor de ciência e tecnologia, dirige o laboratório de aprendizagem social e emocional, na Universidade de Madrid. Elsa é perita em educação emocional, conferencista e autora do livro Bússola para navegadores emocionais (Editora Objectiva). O seu trabalho assenta em descobertas científicas realizadas na última década, que mostram que o cérebro necessita da conexão com o outro e, «para enfrentar as questões deste século, é preciso desenvolver competências emocionais».

O que mais a fascina na filosofia, enquanto adepta da psicologia e da ciência?
A possibilidade de compreender a vida. Nos últimos 15 anos, a neurociência trouxe respostas que estão ausentes na filosofia. No século XX aprendemos a sobreviver fisicamente. Dizia-se que o cérebro era imutável a partir dos 18 anos. A partir do momento em que começámos a medir o que se passa no cérebro, o desafio é a sobrevivência emocional. Sabemos agora que o ambiente é tão importante como a genética, que o cérebro é plástico e capaz de aprender e desaprender. Isto ainda não é evidente na educação nem na medicina.

Os miúdos, diz-se com alguma frequência, não saem da escola preparados para a vida. O que se passa?
O actual sistema educativo ainda formata as pessoas como se fossem operárias. Os miúdos estão desmotivados e não fazem esforços. Muitos acabam os estudos e não encontram trabalho. O modelo autoritário funciona numa sociedade hierarquizada e forte, que não é o que hoje temos. O sistema permissivo também não se revelou melhor. O “faz o que queres, eu apoio-te em tudo” reflecte-se em crianças com dificuldades de relacionamento e de expressão, pouco hábeis a resolver conflitos, a tomar decisões e a gerir emoções.

Em que consiste a educação emocional?
Nos programas implementados nas escolas espanholas, ensinamos os miúdos a darem nome às emoções e a modulá-las, sobretudo as que nos aterrorizam, como a ira, o desprezo, o medo ou a tristeza. Ensinamos-lhes que um pouco de ansiedade é normal, porque funciona como combustível para a acção. Fazemos exercícios práticos – e validados cientificamente – para trabalhar competências como a escuta, a expressão da ira e a resolução de conflitos. Com os professores, damos a conhecer os princípios da inteligência emocional, ou seja, como integrar instintos, emoções e pensamentos.


Como se ensina um jovem a gerir emoções?
Vivemos na sociedade da distracção e do ócio e somos bombardeados com estímulos. Muitos adolescentes chegam à escola sem reconhecerem as suas necessidades básicas, nem modulá-las. A tendência é ir apagando sucessivos estímulos, sem que sejam processados, sem capacidade para manter a mente focada no aqui e no agora. Começo por levá-los a confiarem suficientemente em si mesmos para poderem dizer não. Segue-se um trabalho de orientação, para que descubram os seus interesses, consigam estabelecer metas e, depois, cumpri-las.

Quer partilhar algum episódio que tenha sido marcante para si, em todo este processo de educar emoções?
Posso contar uma coisa que se passou com a minha filha mais nova, então com quatro anos. Ela ia dormir pela primeira vez a casa de uma amiga e, antes de partir, sentou-se no sofá e disse: “Mãe, tenho emoções confusas.” Fiquei encantada! Uma boa educação emocional permite-nos pensar pela nossa cabeça e a descobrir que ter emoções confusas é próprio dos humanos. Expressá-lo não resolve o problema, mas ajuda-nos a lidar com ele de forma construtiva.

Ver mais em: Revista Máxima



Escutar é um ato de amor

Um filósofo e teólogo espanhol volta a fazer recair sobre si as atenções, no meio académico e entre os seus leitores, que são muitos.
Clara Soares

Francesc Torralba é um homem atento. Vive no meio de livros, alunos universitários e palestras pela Europa e na América do Sul. É casado, pai de cinco filhos, doutorado em teologia e escritor premiado, com dezenas de livros e ensaios. E ainda lhe sobra tempo para estar sozinho. Ou para ser maratonista. De resto, é nos passeios diários de bicicleta e durante a corrida, em Barcelona, que costuma encontrar inspiração para temas como a encontrar calma no mundo do desassossego, a arte de cuidar, a dignidade humana e a inteligência espiritual. Assumidamente um homem de fé, é dos primeiros a deixar-se cativar por autores nos seus antípodas. Como o ateu José Saramago e o artigo que este escreveu após os atentados do 11 de Setembro, O Factor Deus. “Surpreende-me a sua segurança e dogmatismo militante”, escreveu Francesc, num artigo de opinião. Aí pode ler-se também que a autoridade do Nobel não deixa espaço para a dúvida nem para o debate de ideias, característicos das sociedades modernas.

O que pretendeu transmitir com o seu novo livro, A Arte de Saber Escutar?
A escuta é um acto de amor. Acontece quando nos predispomos a receber a mensagem do outro, a abrirmo-nos ao desconhecido, com confiança. Todos precisam de ser ouvidos e reconhecidos. É uma necessidade universal.

Parte do princípio que o outro nos educa, quando o escutamos. Uma vez que nem sempre o fazemos, isso deve-se ao medo de ouvir verdades que preferimos ignorar?
Sim, esse receio existe. O medo impede-nos de escutar, até mesmo as vozes que transportamos dentro, do pai, da mãe, do irmão. A velocidade quotidiana não nos dá tempo para escutar, é aí que está o problema. Até parece um milagre alguém dizer: “Não tenho pressa, posso ouvir-te.”


Que impacto pode ter a escuta activa na vida das pessoas?
Depende das circunstâncias. Quando alguém está numa posição vulnerável – doente ou em sofrimento – precisa mais de ser escutado. Saber escutar, acolher, é uma ferramenta muito útil para os profissionais de ajuda. Os médicos, os psicólogos e outros cuidadores estão acostumados a lidar com dramas pessoais.

Todos queremos ser escutados. Em que medida é que isso traz valor acrescentado às nossas vidas?
Quando uma pessoa é escutada liberta-se, pode expressar o que a preocupa e sente-se digna, respeitada. Quem escuta – os outros e a si próprio – aprende muito, torna-se mais cosmopolita e ganha uma visão enriquecida da realidade.

Dedica-se ao desporto. Que dimensão lhe atribui na sua vida?
Correr é um exercício espiritual. Todas as manhãs corro à volta da cidade e durante esse período posso rezar, meditar, rememorar o que passou e planear o dia, a semana ou até o ano seguinte. Coisas que surgem nos meus livros vieram-me à mente enquanto eu estava a correr. 


Ver mais em: Revista Máxima

sábado, 10 de setembro de 2011

Insomnia - this zombie feeling

Published in this month's issue of the Canadian Journal of Psychiatry:

Laval University study
Through a survey of 2,000 people across Canada, researchers found 40 per cent of respondents experienced symptoms of insomnia at least three times a week.

Stress and anxiety are the main psychological factors that contribute to insomnia, said Quebec research team. Women during menopause are also at a greater risk of developing insomnia as well as people with a family history of insomnia.

In Portugal, where this problem is also prevalent and major cause of accidents when driving, due to the hazy and zombielike feeling that affects people who can´t sleep well.

To get a glimpse of how to feels like to be sleep deprived, with insomnia as your scary partner, listen to lyrics of this Archive song, SLEPP, fom Noise Album.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

The good couple


For ever is a uncertain word. Never is another.
To be a couple is a joint decision. To be in a couple is a whole new chapter.
To be in implies a will, but also the knowledge of one self, and the knowledge of the other.
Without sun glasses on. And according to the reality principle, apart from the fairy tales ideal.
To grow together, is the favorite definition of a couple spirit, as the psychotherapist and writer Jorge Bucay describes it.
To feel as couple, is to fit in that special place where one feels understood and recognised as a self, with all its beauty and beast factors. That special place where one can accept the good - and the bad times - of the other. And where both have a sense of respect and purpose.
Its a demandinf and challenging goal, for sure. Two heads can think and do better than one, but only if both hearts experience the freedom to get closer and distant now and then, in the long run.
Racionality and affection may conflict, but not necessarily break.
The balance between these poles is an art. And an artist is, by definition, open to the possibility, not the limits, or the efforts to attain it.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sexo, querida hoje não me apetece

Por Clara Soares

Um em cada sete homens tem falta de apetite para os jogos de adultos. A culpa não é só da testosterona. Viagem a uma realidade camuflada, mas com janelas por onde espreitar. Confira o MANUAL DO DESEJO masculino

Preliminar: este artigo é para homens. Deles se diz que só pensam em sexo. Dietas, dores de cabeça é mais com as mulheres, embora sejam elas - a amiga, a parceira, a médica - que os ouvem desinteressadamente e dão dicas. "Não me apetece. E depois?" é coisa que não se partilha nos balneários nem se confessa ao melhor amigo. Agora, o prato principal: a diminuição do desejo sexual (entusiasmo, ou tusa, na gíria), que incita um homem à exploração e à ação (a tal performance).

Na última década, a falta de desejo no masculino tem sido alvo de estudos, no mundo inteiro, e é ténue a fronteira que separa a normalidade da disfunção. Vozes sonantes da Sexologia, como a de Irwin Goldstein, editor do Journal of Sexual Medicine, advertem que a escassez de apetite não é doença. Aquele investigador americano lembra que, estatisticamente, há sempre homens nos dois extremos da curva normal: "A minoria que tem apetite a mais e a outra, que tem desejo a menos." Os homens que falaram para esta reportagem, a maioria sob anonimato, consideram-se "dentro da norma", e apenas num caso houve recurso a ajuda médica, a conselho da mulher. Mas todos admitiram que o tema ainda é tabu.

Agora, os indicadores científicos: inicialmente, as estimativas apontavam para 2% a 10% de homens com Perturbação do Desejo Sexual Hipo Ativo (PDSH). Só que, recentemente, a fasquia tem vindo a aumentar também em Portugal. Atestam-no os médicos, que recebem mais queixas. E os investigadores, cujos estudos revelam que a PDSH é a disfunção sexual mais prevalecente no masculino (15,5 por cento). A que se deve a perda de libido, ou apatia sexual, como lhe chamam os urologistas em Espanha (onde aquele valor é idêntico)? A palavra aos cavalheiros.

"O meu manifesto de não querer fazer é explícito mas discreto." António, 41 anos, um empresário casado e pai de dois filhos, com residência em Évora, conta pelos dedos as vezes que o "não me apetece" ganhou. Por estar cansado. Ou "chateado e distante", a seguir a uma discussão conjugal. "Se já estou na cama, simplesmente não alimento nem reajo a estímulos, deixo-me estar." Desculpas também se usam, e não são as dores de cabeça. Na versão masculina, o "já vou" é a solução mais à mão e António conhece-a: "Simplesmente não me deito logo, leio ou trabalho em qualquer coisa." Nada de anormal, pelo contrário: é um ato de gestão da vida conjugal. Quando o outro está sempre ao alcance, o desafio é maior. António confirma-o: "Para ter sentido, a relação sexual tem de ser desejada por ambos e espontânea. Só devem ser provocadas as condições que facilitem a proximidade [estar sem os filhos e outras interrupções, do trabalho ao telemóvel].

"ESTAR 'OFF'

Quem disse que um homem não finge? A arte da camuflagem também consta do universo de um macho. "Já me aconteceu resguardar-me ou defender-me para perceber em que filme ia entrar. É uma forma de averiguar até que ponto a parceira está mesmo disposta a entrar no elenco." Aos 49 anos, o escritor Fernando Esteves Pinto desmente o mito do "sexo não, somos casados". Admite que o desinteresse ou indisponibilidade sexual não é um drama, até porque a experiência lhe diz que "as desculpas só complicam e levantam suspeitas sobre o parceiro". O problema da iniciativa sexual no casal, assegura, tem muito a ver com o tédio e a preguiça. Mas não lhe ocorre declinar o convite da mulher: "Funciono sem grande expressão de desejo e contribuo com um desempenho maquinal."

Se dúvidas houvesse, não faltariam estudos para validar a regra: um homem está sempre pronto, é-lhe fisiológico. Cientistas alemães, da Universidade de Hamburg-Eppendorf, verificaram que, contrariamente às parceiras de longa data, os homens casados manifestavam-se predispostos ao sexo regular, em qualquer estágio do relacionamento. Mas uma sondagem do Instituto de Opinião Pública francês, com mais de mil adultos, revelou outra versão da verdade sobre os casais gauleses: um em cada seis homens (nas mulheres, mais de uma em cada três) usou desculpas para não picar o ponto. "Os homens nunca falam destas coisas entre si", avança Miguel, um gestor desportivo divorciado. Aos 47 anos, a sua dieta perfeita é "dia sim, dia não", e nem o cansaço extremo o inibe. "O sexo relaxa-me." Com a mesma precisão, menciona as perdas de apetite, possíveis em três situações: "Estar com o pensamento noutra pessoa, por falta de energia - que o meu tempo de recuperação já não é o que era - e ausência de química."

Química é um termo que simplifica muito, sobretudo quando há que dar tampa. "Já recusei envolver-me com uma pessoa por falta de química." Assim fala Paulo, um alfacinha solteiro com 30 anos, que trabalha em telecomunicações. E é neste terreno que a falta de vontade se sobrepõe, ocasionalmente, à lógica das hormonas: "Quando alguma coisa no relacionamento me deixa pensativo, ou se me sinto intimidado quando ela tem mais desejo e eu receio não conseguir satisfazê-la."

'TU QUERES? EU TAMBÉM NÃO

'Num livro publicado há seis anos, o psiquiatra Francisco Allen Gomes, 67 anos, dedicou um capítulo ao aborrecimento sexual, tendo-se ficado a saber que "não se faz quando se quer, mas quando se pode", o que legitima o sexo sem desejo e o seu contrário. Fundador da Sociedade Portuguesa de Sexologia (SPS), Allen Gomes vai mais longe, afirmando que a falta de desejo é a disfunção-metáfora de um mundo que banalizou o sexo. Menos radical, o psicólogo Nuno Amado, 32 anos, assegura tratar-se de um sintoma ocasional. A exceção aplica-se "quando há uma depressão não identificada ou uma relação decadente". Já o stresse é a "desculpa de banda larga" para adiar o contacto, tanto por falta de paciência para satisfazer o desejo, como para evitar entrar em competição com uma mulher emancipada - que já teve outros parceiros.Aqui, talvez seja o momento de desmontar a máxima "Eles só pensam com uma cabeça", fazendo referência aos resultados preliminares das pesquisas do português SexLab, a funcionar há ano e meio. "Em média, nos nossos estudos, as mulheres afirmaram ter mais prazer subjetivo [ou bem-estar] do que os homens, o que não deixa de ser um enigma", considera Pedro Nobre, presidente da SPS e coordenador daquelas pesquisas. Psicólogo da Universidade de Aveiro, o especialista avança uma hipótese: as mulheres da amostra podem talvez pertencer a "um nicho minoritário, sexualmente liberal, com exigências por vezes excessivas". Este e outros inibidores psicossociais do desejo masculino - como a falta de tempo, as responsabilidades laborais e familiares, e o ritmo exagerado da sociedade moderna - contribuem, segundo Pedro Nobre, para a diminuição da vontade deles. Tais oscilações existem, igualmente, nos homossexuais. Duarte, 42 anos, é casado com outro homem e reconhece o cenário: "Tenho falta de apetite sexual e isso prende-se com o facto de eu ser uma pessoa de fases e nem sempre conseguir satisfazer o desejo do meu marido, ou não ter vontade, apesar de estar com uma ereção."

'HOMENS-ILHAS'

O urologista Nuno Monteiro Pereira, 50 anos e diretor da iSEX, Associação para o Estudo Avançado da Sexualidade Humana, tem acompanhado um crescente número de queixas na sua clínica. Uma pesquisa nacional que coordenou, em 2006, designada Episex, indicou uma prevalência de 15,5% na falta de desejo masculino, semelhante à de Espanha, onde o número de consultas pelo mesmo motivo cresceu 23%, em apenas cinco anos. "Sabemos que existe, mas cientificamente não sabemos porquê", diz o especialista. Mas a experiência clínica leva-o a especular acerca das causas: "Se for antes dos 28 anos, deve-se ao abuso de drogas recreativas, como o ecstasy, que destrói o sistema límbico [ligado aos instintos]. Se ocorrer acima dos 40 anos, será pelos efeitos secundários de medicamentos [antidepressivos, por exemplo]."

A baixa de testosterona - a hormona do desejo - é normal a partir da meia-idade, mas pode acontecer também pelo que se designa, diz Nuno Monteiro Pereira, de Síndrome Robinson Crusoe: quanto mais tempo se estiver sem atividade sexual, mais diminui a testosterona. "Trata-se de um mecanismo adaptativo para não sofrer, como sucede aos que estão sem parceira durante um ou dois anos." No balanço de causas encontra-se, ainda, "a péssima maneira como o novo homem encara a postura da mulher", por não conseguir aceitar a liberdade e autonomia dela, e medo de ser comparado com outros.

Os que procuram ajuda, geralmente pela porta da Medicina Familiar, fazem-no, quase sempre, por insistência da companheira. José Murta Cadima, 55 anos, clínico geral especializado em Sexologia, em Leiria, destaca as doenças como a diabetes e a hipertensão enquanto inimigos do desejo, pelos efeitos secundários da medicação, que comprometem a libido. Quando não é este o motivo, o caso fia mais fino no lar: "Elas costumam esperar que eles as procurem, sobretudo fora do meio urbano, mas, quando aqui vêm, chegam a questionar a orientação sexual do marido, quando este se vê apenas como um viciado em trabalho." Não admitem que lhes falta a vontade nem as questões conjugais mal resolvidas. Mas o corpo nunca mente: "Os níveis de testosterona, serotonina e dopamina baixam e o desejo vai-se."

'TRAGÉDIA Y'

A crónica incapacidade de lidar com os progressos do sexo oposto parece estar a fazer mossa no mito do macho alfa. Murta Cadima, de novo: "Eles ainda estão muito atrasados. Acompanhei alguns jovens com falta de desejo e disfunção erétil, que se sentiam inibidos, sem domínio sobre as namoradas, que tiram melhores notas, fazem o Erasmus e escolhas várias." Os mais velhos não estão melhor: muitos não passam sem o comprimido (Viagra, Cialis...), a arma de eleição para enfrentar o ambiente de caça nos bares, porque um homem não falha. Em alternativa, fogem.

"Fazem-se desentendidos, não atendem chamadas, optam por gratificar-se sem tanto esforço com cibersexo, evitando os rituais de sedução com destino incerto." Quem o afirma é o psicólogo Nuno Nodin, 37 anos, a concluir um doutoramento sobre sexualidade masculina e uso da internet. Também ele se refere ao novo homem, com um toque de ironia: "O interesse sexual é, para ele, uma entre outras comodidades que dão prazer, como o ginásio, os jogos e as saídas com amigos. Mas não deixa de ser uma masculinidade mais frágil."

Por enquanto, uma larga maioria lida bem com as variações da libido, quase sempre pontuais. Afirma-o o urologista Manuel Ferreira Coelho, 42 anos: "Os homens só não estão sempre prontos porque não podem - por exemplo, após uma cirurgia da próstata ou devido a problemas orgânicos [depois dos 50 anos]." Foi o caso de Bruno, 65 anos, gestor industrial reformado, durante um período em que tomou medicação que comprometia a ereção e o desejo. Apesar de ter voltado ao que era, "foi um período frustrante, até parecia que não gostava da minha mulher". Com aliança no dedo há 42 anos, não se inibe de afirmar que, "jovem ou menos jovem, um homem não é uma máquina que se programa como o gravador de vídeo". Praticante regular, mas sem dias certos, Bruno prefere a espontaneidade das pausas ao caráter obrigatório: "Quando há vontade, completamos o ato. Quando não há, paciência."

ANTIAFRODISÍACOS

As leis do desejo são imprevisíveis. E quem melhor do que o pintor, compositor e músico Manuel João Vieira, 48 anos, para dissertar sobre fastio? O homem que encarnou a personagem Orgasmo Carlos, e criou o álbum Romance Hardcore, dispara: "Às vezes há coisas tão simples como mudar de parceira e volta-se logo à normalidade sexual, apesar das questões morais." Importante mesmo é ter cuidado com certas armadilhas que, contrariamente às maleitas físicas, não terão remédio: "Eu, quando bebia, sabia que, depois de duas garrafas de uísque e um bagaço, a cabeça de baixo não fazia o que a de cima achava que podia fazer." Adverte os mais jovens para se conterem nas drogas e nas pílulas milagrosas: é que "não há bela sem senão..."

Por fim, um recado às senhoras. Francisco, 38 anos, um alfacinha solteiro e descomprometido, mostra como se pode arruinar uma hora de ponta: "O meu desinteresse caiu por completo quando, num primeiro dating, ela me disse em plena discoteca que contava às amigas tudo o que fazia na cama." A nega valeu-lhe boatos sobre a sua orientação sexual - a rapariga não encontrava outro motivo para Francisco não querer estar com ela. Ele lança o repto: "Porque é que um homem tem de aceitar uma rejeição com um sorriso e, se for ao contrário, o mesmo não se passa?"

De volta a Manuel João Vieira, também fundador dos Ena Pá 2000 e eterno candidato à Presidência da República, para um conselho útil aos homens da nação: "Alimentem a bravata, não se deixem deprimir e, já agora, digam às vossas parceiras para não se rirem de vocês quando estiverem a pôr um preservativo." Uma nota derradeira, para sobremesa ou digestivo. Perdoem, cavalheiros, o atrevimento de entrar em território só vosso. Mas alguma vez tinha de ser, e não há melhor propósito do que esta reportagem: "Primeiro, os senhores."

Publicado na Revista Visão

segunda-feira, 28 de março de 2011

O lado obscuro do amor

A essência do amor tem muitas formas de expressão. As mais tempestuosas reflectem a faceta sombria da nossa natureza sempre que nos atormentamos com aqueles que mais amamos.

Clara Soares
(publicado em http://mulher.pt.msn.com/relacoesefamilia/)

(imagem do blog China VillaMellera)

Houve tempos em que Isabel Aguiar, de 39 anos, se levava demasiado a sério. Mas chegou o dia em que se deu conta de certas situações que se repetiam de forma sistemática na sua vida. O marido, a melhor amiga, a sócia do negócio de pronto-a-vestir, pessoas que prezava e de quem não prescindia para a sua felicidade e bem-estar, tinham sido, primeiro que tudo… suas inimigas ou rivais!

“Percebi isto numa altura em que tudo me irritava, nada estava bem, faltava sempre alguma coisa”, lembra a empresária. Faltava o desafio, aquela luta que só o confronto do tipo cão-e-gato permitem. Em todas as ocasiões que tal se proporcionou, a resposta ao apelo foi sempre “sim”. Partiria dela esse rastilho de conflito e rebeldia, que resultava em emoções fortes e atitudes corrosivas?


Admitir fraquezas e defeitos de carácter é um assunto tabu, que remete para uma realidade escondida porque inaceitável, em geral. A questão era familiar para o psicólogo suíço Carl Jung, que dedicou parte da sua vida a estudar os enigmas da personalidade humana, tendo construído uma teoria em que defende que o inconsciente se manifesta de duas formas opostas: os aspectos aceitáveis da pessoa, e as partes obscuras, como os instintos primitivos e animais, herdados no processo evolutivo da espécie. Jung apelidou de Persona e Sombra estas duas facetas do Self. Nas sessões de psicoterapia, tinha como meta facilitar aos seus pacientes a fascinante, por vezes árdua, tarefa de trazer ao plano consciente estas dimensões do inconsciente. Uma das vias para o efeito era pedir aos alunos para pensarem em alguém de quem não gostassem ou odiassem até. Depois, era preciso fazer uma descrição escrita dos aspectos reprováveis dos visados. No final da tarefa, bastava que escrevessem no topo da página “A minha sombra”.


Numa perspectiva clínica, tendemos a ver nos outros partes de nós que não conhecemos, que tememos e por isso condenamos. Aforismos como “Quem desdenha quer comprar” ilustram verdades partilhadas pelo mais comum dos mortais, que nos lembram por que nos é tão natural reconhecermo-nos em alguém que detestamos sem saber o motivo. Esta teoria explica por que escolhemos por vezes para parceiros ou amigos do peito justamente os que nos levam a perder a razão.

No quotidiano, existem outras formas de viver este lado oculto, comum a cada um de nós. “Este lado revela-se na forma como conduzimos ou estacionamos o carro, mas também através de comportamentos agressivos, de atitudes dispersas.” Para a astróloga humanista Conceição Espada, os estilos de vida que as pessoas adoptam permitem identificar desequilíbrios entre os lados racional e emocional, entre as facetas da personalidade que são vividas como positivas e reconhecidas socialmente, e as outras, menos aceitáveis ou reprimidas. Só através da tomada de consciência dos aspectos latentes do ser é possível conhecer-se profundamente. O sistema desenvolvido por Conceição permite a vivência de aspectos menos explorados da personalidade.


Com a duração de dois dias, o workshop de astrodança/astrodrama combina os conceitos Jungianos com a interpretação dos quatro elementos naturais e dos planetas nas cartas astrológicas. Cada significado simbólico atribuído a um planeta, por exemplo, assume a forma de exercícios individuais ou em grupos, com recurso a técnicas teatrais, expressão corporal, dança, relaxamento e desenho. Após dois anos de experiência neste projecto, a astróloga reconhece que o trabalho não podia ser mais gratificante. “A pessoa é confrontada psicológica, física e emocionalmente com os seus medos e dificuldades de relacionamento.”

Que o diga Madalena O´Neill, de 40 anos, mãe de duas filhas, e até há pouco tempo recepcionista num campo de golfe. O curso permitiu-lhe ver-se ao espelho a partir de vários ângulos e mudar a sua vida, actualmente orientada para as artes.


www.maxima.pt

Viciadas no amor

Estranha forma de vida, essa que tantas vezes sentimos como nossa. Se tivesse um sabor, poderia ser agridoce. E se tivesse uma cor, talvez pudesse ser púrpura. Porém, é a ausência de cor que melhor define este estado de alma.
Clara Soares
(publicado em http://mulher.pt.msn.com/relacoesefamilia/)



Zélia é uma profissional de sucesso. Ultrapassada a barreira psicológica dos 40 anos, estaria realizada e feliz. Divorciada há 14 anos, só tem tido olhos para o namorado, que continua a viver sem ela e com outras relações pelo meio. Zélia foi alimentando a esperança de que um dia ele mudasse para ficar a seu lado, depois de tantas provas de dedicação e carinho. "Sou para ele a número um. O problema é que se farta das pessoas e está convencido de que uma relação estável não faz parte dos seus planos", diz.

Miguel, "uma pessoa bem colocada na vida, a nível académico e familiar", chegou, em tempos, a concordar em comprarem uma casa para ambos. Mas o projecto deixou-o numa tal angústia que acabou gorado. As esperanças ficaram mais abaladas quando Zélia soube por terceiros que a sua paixão acabara de ser pai de uma criança, fruto de um dos seus casos.


A princípio foi um choque, mas a sua capacidade de perdoar venceu. O que não esperava era que a mãe daquela criança voltasse a ficar grávida. Ainda tentou fazer orelhas moucas às pessoas amigas que viam nele um marialva incorrigível, chegou mesmo a iniciar um relacionamento com "uma pessoa honesta, espectacular", que lhe foi apresentada e com a qual saiu durante dois anos. Porém, terminou a relação por chegar à conclusão de que o amor de sempre não lhe saía da cabeça. "Estou sempre a condicionar a minha vida à disponibilidade dele e perdi a confiança, mas ainda não me mentalizei de que o problema é meu e que, mais cedo ou mais tarde, vou ter de desistir de nós", confessa, com amargura.Sem forças nem estabilidade emocional, Zélia apoia-se na medicação para a tensão arterial descontrolada, de origem nervosa, e toma diariamente ansiolíticos. Ficou internada alguns dias num hospital, tendo a única visita dele durado escassos minutos. Cansada de dar e de sofrer, equaciona pela primeira vez a possibilidade de sair deste filme, ainda que não saiba muito bem como.


"Fui uma mulher que amou demais quase toda a vida, até que o preço para a minha saúde física e mental passou a ser tão elevado que fui forçada a analisar rigorosamente o meu padrão de relacionamento com o sexo oposto." A confissão é da psicoterapeuta familiar Robin Norwood, autora de um best-seller, "Mulheres que Amam Demais" (Editora Sinais de Fogo)."Usamos os relacionamentos para afastar a dor", justifica Robin, "do mesmo modo que recorremos a substâncias que viciam, como as drogas e até o trabalho excessivo." Partindo da ideia, consensual entre psiquiatras e psicólogos, de que a incapacidade para viver relacionamentos sãos se alicerça em padrões de comunicação disfuncionais aprendidos na infância e ao longo da adolescência, a autora apresenta inúmeros casos que acompanhou durante a sua prática clínica. Têm em comum o facto de se fascinarem por pessoas que irradiam problemas e uma dependência da emoção, nomeadamente da emoção negativa.

Esta atracção por parceiros ausentes, negligentes, violentos (física ou psicologicamente) ou imaturos é praticamente inevitável, particularmente no caso de filhos adultos de pais alcoólicos, toxicodependentes ou com segredos e disfunções familiares. De forma inconsciente, acabam por envolver-se com pessoas muito parecidas com o pai ou a mãe com quem tiverem problemas ao longo do crescimento, perpetuando o tipo de comunicação que conhecem, na tentativa de resolver um conflito que lhes causou mágoa, dor ou raiva.

Neste sentido, defende a especialista californiana, o envolvimento com uma pessoa "normal" afigura-se insípido e monótono, porque lhe falta a intensidade dramática, a luta e a emoção da incerteza que geram, neste caso, a impressão de se estar vivo. Quanto maior for o sofrimento vivido em criança, mais forte será a tendência para o recriar e controlar na idade adulta. "Não existem coincidências nos relacionamentos nem acidentes no casamento", conclui Robin.

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