domingo, 23 de janeiro de 2011

Sou Bissexual. É normal!

A cortina de ferro entre heterossexuais e homossexuais está a ruir.


"Sou bi. E daí?”

Clara Soares
Há quatro anos, a cantora brasileira Ana Carolina revelou publicamente a sua preferência por ambos os sexos, garantindo ser mais feliz assim. A cantora canadiana Alanis Morissette já o havia feito, pouco tempo antes, e a onda de revelações começou a ganhar corpo. Na música, Ricky Martin, Pink, Netinho. No cinema, Angelina Jolie, Lindsey Lohan, Tila, Megan Fox. Esta terceira via, que desconcerta a mentalidade dominante – “É-se uma coisa (hetero) ou outra (gay)” –, começa a conquistar um espaço próprio nas conversas, nos fóruns virtuais, nas vidas privadas e nas mentalidades. Séries (Anatomia de Grey, Letra L, Sexo e a Cidade) e filmes (Henry & June, Batman, Matrix, Vicky Cristina Barcelona) não dispensam personagens sexualmente ambíguas. A bissexualidade é um fenómeno passageiro, um problema de identidade ou o reflexo de uma nova atitude nos relacionamentos?


Desde a Antiguidade Clássica que há registo desta forma de relacionar-se. Nos anos 40, o primeiro grande estudo sobre sexualidade humana, liderado pelo investigador Alfred Kinsey, revelou que nove por cento dos americanos eram bissexuais. E desde 1993 que estas orientações deixaram de constar na Classificação Internacional de Doenças, como transtornos de personalidade. O que antes se considerava desviante é hoje uma opção comportamental, decorrente daquilo que uma pessoa sente (mais do que o que faz e com quem). Após a emancipação das mulheres e a conquista de direitos dos gays, a ambiguidade sexual é a nova fronteira a explorar. Ou a temer, constituindo uma ameaça à ordem social estabelecida. Apesar dos movimentos activistas e do Dia da Celebração Bissexual (23 de Setembro), sentir envolvimento físico ou emocional sem a barreira do género é ainda uma ficção para o comum dos mortais.


Homens e mulheres parecem ter representações mentais distintas acerca da sua identidade sexual, tida como mais ampla. O psiquiatra Júlio Machado Vaz admite que nenhuma teoria é satisfatória neste campo e esclarece: “Sim, a bissexualidade existe, mas é normal que angustie; não é por acaso que, até há algum tempo, certos grupos homossexuais consideravam que os bissexuais eram gays não assumidos.” Membro da Sociedade de Sexologia Clínica, Machado Vaz adianta que esta orientação é menos angustiante e ameaçadora para a identidade no caso das mulheres. Camille Paglia, autora de Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson (1990), refere que existem mais mulheres bi do que homens: elas têm maior apetência para integrar sexo e afecto e com menos traumas.

Independentemente das diferenças de trajectória, o número de homens e mulheres que optam pela ambiguidade sexual está a ganhar visibilidade e há quem assegure tratar-se de uma nova revolução (e não de uma mera tendência): a da flexibilidade e da abrangência, afectiva ou sexual. Maria del Mar, psicóloga e terapeuta holística, em Lisboa, refere que nos últimos oito anos tem acompanhado homens e mulheres de 30 e 40 anos que descobriram a sua bissexualidade, geralmente na sequência de fracassos amorosos. “Começam por viver [mais elas do que eles] uma relação homossexual intensa que dura, em média, três a cinco anos; aí encontram uma forma de satisfazer necessidades que não conseguiam preencher, até então, com o sexo oposto (nem no seio da família de origem).” Uma opção compensatória natural que, embora enriquecedora, leva tempo a ser admitida e vivida com harmonia e maturidade no quotidiano, acrescenta.


A última tendência na comunidade científica encaminha-se para a hipótese de estarmos a assistir, globalmente, a uma postura mais aberta face à atracção, ao amor e aos relacionamentos. Em entrevista à BBC, o médico e ex-ministro da Saúde italiano, Umberto Veronesi, considerou que “será, em três gerações, apenas uma demonstração de afecto, rumo à bissexualidade.

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Amizades coloridas

“Queres sair comigo hoje?” Há algumas décadas, a pergunta poderia abrir caminho a uma sequência de expectativas que, na melhor das hipóteses, levaria a um hipotético compromisso futuro e, na pior, se ficaria por uma amizade com futuro incerto.



Por Clara Soares
Amizades coloridas
Fernando e Glória, dois trintões bem-dispostos, livres e urbanos, decidiram sair juntos, sem o grupo de amigos ou colegas de trabalho, para tomar um copo ao final da tarde. Ela, mais cautelosa, sugeriu uma esplanada que sabia não ser frequentada por pessoas conhecidas, “para evitar mexericos”. “Logo ali, dei-me conta de um quê de clandestinidade implícito, mesmo que, conscientemente, não tivesse a intenção de um encontro romântico”, lembra Glória. Repetiram a dose uma semana depois e gostaram daquele novo ritual nas rotinas de ambos, feito de trocas de impressões dos respectivos locais de trabalho, histórias e gostos pessoais, pormenores do quotidiano.


Já lá vão três anos de uma sólida amizade, sem haver propriamente regras definidas. “Às vezes, passava-se um mês em que não nos víamos e tínhamos por hábito manter uma certa leveza nos encontros”, explica Glória. E finalmente, a confissão: “Por três ou quatro vezes, tivemos sexo casual.” Glória já teve dois compromissos duradouros e admite que, de momento, não tem em vista uma pessoa suficientemente interessante para partilhar o quarto. Porém, isso parece não incomodá-la particularmente. “Vivo o momento e sei que ele também faz o mesmo. Ambos sabemos que é só sexo e não queremos mais do que isso – nem passar de amigos a namorados, porque nunca foi esse o registo.”

Este “registo”, que vive das (in)certezas de cada dia, marca cada vez mais uma progressiva faixa de pessoas, que não se privam de ter prazer só porque não têm uma relação (como manda – ou mandava – a regra). E se um deles encontrar um parceiro fixo? Estes encontros “em aberto” terão os dias contados? “Não sei”, responde Glória. A verdade é que não pensa sequer nisso, deixando que o momento dite a regra e aceitando, como até agora, as vontades de cada um, sem se forçar ou forçar o outro. “Às vezes, não é fácil”, conclui. “Mas pior seria se nos privássemos de todo, quando nos apetecer a ambos.”

Há ainda quem vaticine o fim do mito da monogamia – não faltam livros sobre o assunto – e a tónica desloca-se agora para um fenómeno emergente, que dá pelo nome de amizades coloridas. O termo nasceu no Brasil e aplica-se para designar relações em que o compromisso fica de fora. “No strings attached”, dizem os americanos. “Sexo com companhia”, dizem os que conhecem por dentro a experiência, mas que ainda não ousam falar disso abertamente ou usando o nome verdadeiro, como os casos anteriores. Afinal, trata-se de uma minoria que nem sequer foi alvo de estudo estatístico ou qualitativo. Porém, revela-se nas conversas de bastidores com pessoas de confiança, que “não vão dar com a língua nos dentes”, por assim dizer.

As regras do jogo são tácitas e nem todos terão perfil para jogá-las. Uma delas é não assumir, à boa maneira do adultério. Talvez por isso sejam mais comuns em faixas etárias superiores aos 30, quando já se tem uma noção de si mais diferenciada, com mais “calo”, e se passou pela turbulência de amores e desamores.

O médico Pedro de Freitas, especializado em Saúde Mental e Sexologia Clínica, confirma este fenómeno. Nas consultas de psicoterapia a que se dedica há vários anos, alguns dos pacientes mencionam "en passant" este tipo de amizades, que funcionam, no entender dos visados, como complemento de uma vida que se quer bem vivida e sem culpas.

“Não posso traçar um perfil, mas consigo afirmar que são mais frequentes em pessoas entre os 35 e os 40 anos, com percursos profissionais bem sucedidos, que já tiveram um ou mais relacionamentos estáveis e não pretendem continuar nesse registo.” Ao clínico, admitem que se sentem confortáveis em amizades, de longa data ou recentes, que por vezes evoluem para “cenas de cama, frescas, discretas e sem segundos pensamentos” (neste caso, de afectos ou compromisso futuro). A leitura que o médico faz deste padrão “não formal” é a seguinte: o medo de um novo fracasso leva-os – homens e mulheres – a fugir do envolvimento, mantendo a actividade sexual sem amarras, com pessoas que conhecem bem.

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

«Não pense num Ferrari Amarelo»

Um paradoxo em quatro atos


I.PARTIR

«Nunca voltes ao lugar onde ja foste feliz». É o que se diz.

Alternativas (temporariamente) positivas:
Versão Comum: Fugir para bem longe (como fez a autora do livro Comer, Orar, Amar, depois do divórcio);
Versão Zen: Ficar onde se está (quando não se sabe o que fazer, o melhor é não fazer nada);
Versão Pop: Fazer de conta que não se passou nada e passar à frente (pode ser com um copo na frente, com comprimidos, como muito boa gente, e liftings sociais vários, do gadget digital ao «tanto faz, que é normal»)

II.SENTIR
O «vírus» quer-se em banho-maria (ou manel), mas é como a meteorologia. Um dia chove e nada fica como se queria.
A pedra no sapato volta a moer o calo e não há podologista que lhe valha. Não, o «plot» volta a circular na rede neuronal, hormonal e visceral. Tanto que até faz mal.

III.VOLTAR
O fim nunca é o fim. É um abandono temporário.
Um dia, num acaso qualquer ou coincidência improvável, alguém «demasiado familiar» reaparece do nada e abala as defesas que se julgavam «à prova de bala».
Mergulha-se numa foto, tropeça-se num mail, descobre-se com choque, durante uma conversa banal com um colega de trabalho que é, ou foi também, parte da história do tal Outro (o lugar que um dia habitámos e fomos - supomos - felizes).

IV.REFORMAR
O passado volta sempre, instala-se no presente, porque habita nos lugares mais escondidos em nós.
O problema não são, afinal, as emoções vulcânicas, mas o facto de não gostarmos delas.
Depois de tudo perdido, anestesiado, queimado, esquecido, resta o óbvio facto de que nada se perde para sempre.
Ninguem se deixa para sempre. Para trás ou para a frente, o filme é mesmo com a gente. Sem «final cuts» nem personagens ausentes. É quando percebemos que não deixamos nunca de ser protagonistas, mas podemos fazer qualquer coisa como ... guionistas.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

DOMINGO


«Tenha um dia descansado», diz a senhora que serve a bica. Num domingo, às duas da tarde, há gente que ainda dorme, após uma noite de paixão. Gente a fazer o «passeio dos tristes». Gente que aguarda a hora do futebol na tv. Gente a cumprir tarefas pendentes, desde idas ao supermercado a exercícios de corpo e mente, nem que seja de aspirador na mão.


Descansar é deixar de cansar-se. Dar sossego à compulsão de sair, de estar sempre em boa (ou má) companhia. Nos bairros do amor virtual, multiplicam-se as tentativas de encontros: mesmo que as probabilidades de ganhar sejam idênticas às do Euromilhões, uma imensa minoria de solitários urbanos testa regularmente a sua sorte.

Entregues às leis do acaso, procuram novos momentos, para afastar pensamentos. Sossegam a dor quando fazem amor. Fazem-no, mas nem sempre o sentem. E raramente o encontram. «Algumas pessoas não querem aproximar-se muito», sussurra uma jovem sozinha, à mesa de um bar (a cena é do do filme Anjos Caídos, do realizador chinês Wang Kar Wai). E pensa num homem.

«Quando se sabe muito acerca de uma pessoa, perde-se o interesse», confessa a jovem, para a câmara. Di-lo porque acredita ou porque recusa o sabor do desânimo? No mercado dos afectos, as ausências racionalizam-se, por assim doerem menos. No final do dia, despe-se a pele domingueira e fecham-se os olhos. Entra-se, finalmente, em modo off. «Amanhã é outro dia».

terça-feira, 8 de junho de 2010

O factor «Ex»

O factor «Ex»


by roadhouse blues (blog)


Pouco passava da meia-noite quando entrou em casa. Tomou um banho e enviou a ultima mensagem do dia ao homem com quem estivera a jantar. «Dorme bem, amor. Obrigada por seres quem és». O pior foi mesmo conseguir dormir. Agora sentia na pele as consequências de saber «toda a verdade» sobre o passado do outro.

Quando começaram a andar juntos fizeram um pacto: partilhariam uma política de transparência quanto a assuntos passados. Seria esse o garante da intimidade e aceitação mútua. As tão aguardadas «confissões» dele tiveram um sabor amargo. Por momentos, arrependeu-se de ter tido uma atitude tão «moderna», tão «mente aberta». Por momentos, desejou não ter sabido o quão rotineiras passaram a ser as sessões de ménage a trois que ele afirmava fazer habitualmente com a ex mulher.

Passaria bem sem ter conhecimento das qualidades que mais apreciava nas mulheres que foram um dia suas companheiras de viagem. Valeria a pena ter de ouvir coisas como «gosto de ti, porque não és melga nem ciumenta como a minha ex, que ainda hoje me telefonou»? Agarrada à almofada, o corpo aconchegado entre lençóis, sentiu os músculos a relaxar. Acabava de fazer a descoberta da noite.

«Talvez não seja assim tão saudável saber detalhes da biografia amorosa de quem amo; o passado infiltra-se à mesa e na cama, e ganha o estatuto de amante implacável.» Só então dirigiu os seus pensamentos para ele: era capaz de aceitá-la, sem se afectar com as digressões e devaneios dela com outros homens, em dias que já lá vão? Tomou um comprimido para a ansiedade e entregou-se, por fim, ao silêncio envolvente do sono.

Desafio:
Estará preparado (a) para «toda a verdade» sobre os (as) ex que existiram antes de si? Pense duas vezes antes de decidir fazer o raio X às «vidas passadas» de quem conhece há pouco tempo. Ainda que tal seja entendido como prova de confiança e amor, não deixa de ser factor de desconforto e desilusão. O pior que pode acontecer é ter de digerir a evidência de que afinal não se é o melhor, o mais competente, o único na vida de outro alguém.

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A Sombra

A Sombra




É a nossa mais fiel companheira e contudo pouco sabemos dela. A sombra exerce por isso um forte poder de atracção sobre nós. O filósofo Platão conhecia o poder dessa entidade «fantasma», alcunhada, com alguma propriedade, de «controladora». Na Alegoria da Caverna, o mestre da Antiguidade Clássica fala de prisioneiros que nunca saíram de uma gruta, vendo as sombras de homens no exterior, projectadas pelo fogo, na parede da caverna, e tomando-as por reais.

Quem nunca chega a Ver a essência das coisas – à luz do dia - permanece na ilusão sobre si e o mundo. Na escuridão, na cegueira. No crepúsculo, ficamos mais vulneráveis ao poder da sombra, como sugerem as histórias sobre vampiros, lobisomens e outras figuras cinzentas (agentes secretos, que lidam com coisas ocultas ou informações confidenciais, que não podem vir à superfície). Elas falam de coisas universais e humanas, que se passam «às escuras» e fora do controlo da mente consciente.

O cérebro humano processa 2,000,000 unidades de informação por segundo, mas boa parte desse material não está acessível (não apreendido, intuído). Desejos e medos, memórias, competências que aprendemos, crenças acerca de nós e do mundo, e padrões de comportamento são armazenados no «chip», e surgem, frequentemente, sob a forma de respostas automáticas (temo-las sem dar conta).

Há momentos em que essa sombra - sempre à espera de uma brecha, um ponto de fuga qualquer no sistema de defesas – ganha força e contornos diante de nós: assume o comando e não temos mão nela. O confronto enfurece e intimida, mas traz consigo a possibilidade de despertar. O médico suíço Carl Jung costumava aplicar um exercício nas suas aulas, que consistia em «conhecer a sombra». Os alunos eram convidados a pensar, durante alguns segundos, em alguém de quem não gostassem ou com quem não se dessem bem. De seguida, era-lhes pedido que fizessem uma lista de características desconfortáveis associadas a essa pessoa. Após esta tarefa, as pessoas liam em voz alta as suas anotações. No final, era-lhes dito que esse grupo de tópicos eram, nada mais, nada menos, que o retrato do «lado sombra» de cada um.

Aspectos que detestamos nos outros e nos tiram do sério são muitas vezes aqueles que não conseguimos assumir – ou negamos – em nós. Mas estão lá e são reconhecidos – e projectados – nos outros. Assim se explica, no ponto de vista Junguiano, o facto de manter, por exemplo, uma relação conflituosa ou insatisfatória com alguém, a coincidência de atrair sempre o mesmo tipo de parceiro, de chefe ou de situações problemáticas, quando isso se quer evitar a todo o custo.

Os protagonistas desses «infernos» espelham, afinal, coisas que, sendo também nossas, rejeitamos e «empurramos» para fora de portas, como se nunca nos tivessem pertencido. «O mal são os outros», «Eu sou bom, tu é que não me mereces, porque és mau (ou fraco, etc)», são apenas variações da dualidade humana, tão bem ilustrada na lenda clássica da época Vitoriana, Dr Jekyll & Hyde, ou na saga que envolve o sinistro Joker e o heróico Batman.

O lema «já que não o podes vencer, alia-te a ele» aplica-se ao inconsciente. Aceitar a sua própria sombra é reconhecer o poder (do inconsciente) que habita em nós. Conhecê-la, tratá-la por «tu», e descobrir os segredos que encerra, é a chave para a transformação pessoal.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Vertigem

 Numa manhã igual a tantas outras,
Acorda-se, ergue o corpo da cama e ele cede.
O mundo fica ao contrário.
É o cabo das tormentas, colocar a peça de vestuário.
Cabeça à roda, num dia normal,
Agarrar-se às rotinas parece agora o menor mal.

A mente comanda os gestos,
Não dando ouvidos aos sinais.
Passo a passo a hora chega,
É a vertigem e a desarmonia arterial.

Não está mal.
Para um dia normal.
Dizem que a vida é isso,
Uma vertigem, uma espiral.
Com pausas desprogramadas,
Que ditam 'stop' a mentes cansadas.

No corpo, um chip (ou mestre) perfeito,
Atenuam-se certezas, planos e urgências.
Por fim se pára e respira,
E a gente abre-se a outras frequências.