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sexta-feira, 24 de julho de 2015

A vida depois da morte de um filho


A hospitalização da jornalista Judite de Sousa, após ter sido encontrada inconsciente no passado fim de semana, mereceu a republicação de um artigo que escrevi para a revista Visão, aquando do trágico acidente fatal do seu filho, no inicio de Julho do ano passado. 
Em A Dor Sem Nome, pode encontrar testemunhos de quem sofreu a perda - a morte - de um filho, uma das mais duras experiências que se pode ter e a palavra dos profissionais de ajuda que contactam com estes casos na sua prática clínica. 


Pormenor de "A Tragédia", Pablo Picasso

Reprodução

No final, uma mensagem comum aos que são próximos: mesmo que o tempo não cure a ferida, ele é crucial para minimizar a dor. Ou seja, por melhor que seja a intenção, a última coisa que alguém que atravessa este luto é incentivá-lo(a) - pressioná-lo(a) a seguir em frente, saltando etapas.       

quinta-feira, 5 de março de 2015

Conhece a Psicologia do Tempo?

Estou aqui. Estou no agora. Há pouco estava com a cabeça no amanhã. Até me esqueci que já eram horas de voltar a entrar na impagável roda do tempo, das rotinas. O tempo voa. Ontem não era assim. tinha todo o tempo do mundo. O que é o Tempo? O meu, o teu, o nosso? Na Antiguidade Clássica, os gregos tinham mais que uma designação para a 4ª dimensão; o tempo cronológico (Chronos), linear ou sequencial, e o tempo subjetivo (Kairós), humano e indeterminado.

Internamente, tendemos a medir o Tempo em função dos intervalos entre eventos que consideramos significativos - o nascimento de um filho, uma separação, etc. As experiências marcantes e o intervalo entre elas definem o nosso tempo (Kairós), são a timeline da nossa história, distinto do tempo cronológico (Chronos). A dupla natureza do tempo origina insólitas distorções percetivas.

A Persistência da Memória - Salvador Dali (1931)

«Já?! Parece que foi ontem». Percebemos o Tempo de modo mais rápido à medida que somos mais velhos. A aceleração subjetiva do Tempo, à medida que a idade avança (fenómeno conhecido por telescopia) deve-se a factores tão diversos como:


  • aumento do tempo de reacção: fisiologicamente, o relógio biológico tende a desacelerar com o passar dos anos e as horas do relógio parecem-nos, então, mais velozes, um erro de paralaxe: sentimos que não acompanhamos o ritmo, até porque o nosso tempo de reação se torna mais lento
  • perceção e resposta de stresse: são precisas unidades de tempo extra para responder às mesmas exigências e pressões da vida adulta, que passam a correr, umas atrás das outras, ou todas ao mesmo tempo. De tão imersos nelas, damos menos atenção à cronologia. «O tempo foge entre os dedos». 
  • «meteorologia emocional» - no fluxo da consciência, passado, presente e futuro emergem, de modo não linear ou cronológica. A memória é influenciada pelas emoções, são elas que induzem a percepção do Tempo, esse continuum que não tem princípio nem fim. Assim se explica, por exemplo, a nossa tendência para olhar os eventos da adolescência e da infância - as nossas primeiras vezes, as descobertas - como tendo uma duração maior do que a efetiva. "Todo o tempo do mundo"



Somos seres analógicos num mundo digital. O nosso relógio interno pauta-se pelos marcos de vida (a narrativa pessoal): quanto mais espaçados no tempo (eventos menos frequentes, portanto), maior o desfasamento entre o "meu tempo" e o "dos outros". "Ainda ontem era um bébé, já está um homem".

A velocidade de Kairós depende da experiência consciente (consoante estamos acordados, a dormir, a sonhar, sob influência de drogas, em êxtase ou quando estamos a rezar, a meditar, a tocar ou a ouvir uma melodia). Há mesmo quem considere que, em certos estados mentais, se consegue transcender a barreira do Tempo, por se tornar tão lento ao ponto de parar completamente (sim, podemos chamar-lhe Nirvana).

A perspetiva temporal é uma das mais poderosas influências no comportamento humano 
No seu livro Time Paradox (2008), o psicólogo social americano Philip Zimbardo defense que cada um de nós tem uma perspetiva enviezada do Tempo, com implicações óbvias na condução das nossas vidas.

  • A má notícia: sem usar o que ele designa por "a nova psicologia do tempo", podemos ficar reféns de um padrão de pensamento e ação desvantajosos para nós. 
  • Exemplos :  "Vivo o hoje, adapto-me às circunstâncias" (orientação para o presente), "Há que andar para a frente, planear, fazer listas" (orientação para o futuro), "No meu tempo... o tempo é cruel... se eu tivesse outra vez 20 anos" (orientação para o passado).
  • A boa notícia: é possível introduzir mudanças na nossa perspetiva temporal e, com isso, fazer os ajustes necessários para restaurar a nossa qualidade de vida. 

O questionário para quantificar a Perspetiva do Tempo trouxe a Zimbardo tanta ou mais popularidade do que a Experiência da Prisão de Stanford (1971), estudo que foi adaptado ao cinema no início deste ano. A simulação, com estudantes universitários, durou apenas seis dias, altura em que foi interrompida, pelo rumo dramático, e inesperado, dos eventos. Conclusão: pessoas boas podem tornar-se infernais num contexto que o permita (o estudo voltou a estar na ribalta, após os abusos praticados, em 2004, na prisão de Abu Ghraib).

Agora, que a prática do Mindfulness - atenção plena -  está a conquistar executivos, académicos e a chegar, através de workshops, ao cidadão comum, as últimas tendências da investigação neste campo sugerem três pistas para mudar a perspetiva de tempo, com benefícios na saúde e na longevidade:


Abrandar 

Meditar 

Estar atento    

OBS:
Este texto foi escrito entre ontem e hoje. Foi uma agradável supresa descobrir, também hoje, a edição de aniversário do jornal Público, gratuita e inteiramente dedicada ao Tempo. Ainda consegui ir a tempo de encontrar um exemplar e, já que em matéria de tempo, "não há duas sem três", enquanto conduzia até casa,
com o rádio ligado, apercebi-me da abertura da exposição The Clock, de Christian Marclay, a decorrer até 19 de Abril, no Museu Berardo, em Lisboa. 

 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Os ´novos filhos' de estimação


Os bichos estão a tornar-se, cada vez mais, 'parte da familia', com direitos e necessidades. Destacam-se nas nossas conversas quotidianas, em fotos e vídeos que se tornam virais, disputam lugar nos media e nas redes sociais. Os animais que habitam nas nossas casas têm registo de nascimento, cédula de saúde, constam cada vez mais nas opções estratégicas de espaços comerciais e estabelecimentos turísticos – vulgarizando o slogan «pet friendly» – e dispõem de uma oferta de produtos, acessórios, serviços clínicos e de estética praticamente tão sofisticados como os nossos.
Queremos dar-lhes o melhor pelo tempo de qualidade que passamos com eles, sem os encarar como animais para trabalho ou como simples objetos? Ou por lhes reconhecermos, na prática, o que a ciência agora confirma – a existência de substratos neurológicos que geram estados de consciência – e que Charles Darwin defendia há dois séculos?

Saiba mais nesta edição da Visão, já nas bancas.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Stresse? É preciso ter calma...

I Diário de alguém 'stressado' 


«Estava a enviar uma mensagem e tocou o telefone. Era o miúdo a dizer que perdeu o comboio e vai chegar atrasado à escola. Vesti-me à pressa e fui buscá-lo à estação, levei-o para não levar falta. De novo o telefone. Já não vou à ginástica, senão chego atrasada à reunião da empresa. Falta comprara prenda de aniversário do marido. Estou com má cara e a sentir-me nervosa.»
(...)
O que é que eu estava a escrever na mensagem? Oh, não! O carro não pega. Já não chegava o facto de ter de levar trabalho para casa e agora isto. O melhor é comprar um bolo, não vou a tempo de fazer o jantar. Queria ter ido às finanças mas não houve tempo. E ainda fiquei de passar em casa dos meus sogros para os trazer para o jantar. Chamo um táxi. Telefone, de novo. É a colega de trabalho a dizer que me esqueci da carteira em cima da mesa. Que dia infernal.»
(...)
Podia ter corrido melhor, o jantar. O meu marido achou que eu estava com má cara. Deve pensar que já não lhe ligo como antes. Não admira, estou a ficar com mais peso, voltei a fumar, esqueço-me de tudo e só me apetece ficar no meu canto e que me deixem em paz. Doem-me as costas e tive uma quebra de tensão. Ando nisto há meses. E tempo para ir ao médico? As vitaminas que comprei não estão a funcionar. E o pior é que o meu chefe diz que ando a produzir menos. Se ao menos conseguisse dormir como deve ser...»

II 'Pssst, está na hora de parar e refocar'

No artigo publicado esta semana, na Revista Visão, fui ao encontro de cinco portugueses que contam quais os ajustes que fizeram para tornar as suas vidas mais leves e compatíveis com o seu modo de ser. Uns optaram por ganhar menos, em troca de mais tempo, outros apostaram numa profissão com horário e local de trabalho flexível. Há ainda os que preferiram investir na sua saúde, disciplinando rotinas - pessoais, conjugais e familiares - para ficaram com algum tempo de qualidade. Sem esquecer os que passaram a incluir no seu quotidiano alguns minutos diários de exercício físico, meditação e treino da atenção plena.
Um investigador da Universidade de Coimbra explica porque é que quando estamos tensos e com emoções negativas, acabamos por ter pensamentos que não correspondem à realidade e, apesar disso, nos afetam negativamente. Ou como o treino mental (atenção plena, ou mindfulness) nos permite restaurar a segurança e a paz de espírito, no meio da adversidade e dos momento difíceis. E aceitar o que não podemos controlar, em vez de sermos reativos e ficarmos piores do que estávamos antes.

Uma médica explica como a compaixão e os afetos conseguem fazer muito mais que a farmacologia, porque nem tudo se resolve com comprimidos, por melhores que eles sejam para nos facilitar a vida. Às vezes, é preciso ter uma experiência limite, como aconteceu com ela, e ir «ao tapete» para mudar de filosofia e investir no que é essencial, sem complicar. ´

Na dose certa, o stresse pode ser positivo, dando-nos o «empurrão» necessário para fazer o que precisamos ou desejamos fazer. Em demasia, desregula, produz sintomas e, se nada fizermos, acaba por trazer dissabores e até contribuir para a emergência de doenças crónicas, incapacitando-nos e atrofiando a nossa qualidade de vida.

III Dicas AntiStresse


Anda com dores ou picadas no peito? Não consegue concentrar-se? Tem dificuldades a relacionar-se com os outros e fica irritável ou frustrado com pequenas coisas? Sente que a sua vida escapa ao seu controlo e tem carga a mais para a sua camioneta? Tem momentos em que se sente em baixo e só lhe apetece fugir ou bater na primeira pessoa que lhe aparecer à frente? Tem reações que não reconhece como suas? Ou desliga a toda a hora, perdendo-se nas preocupações quanto ao futuro ou a ruminar no que já passou?  Não está a ter prazer na sua vida?

Talvez esteja no momento de fazer um ponto da situação e perceber o que pode fazer para «arrumar a casa». Comece por si: reduzir a velocidade, fazer pausas e respirar fundo, até sentir o corpo «arrefecer» facilita bastante e faz com que não entre em piloto automático. A mente também precisa de um «recycle bin». Que tal encontrar um momento do dia para sintonizar no seu próprio comprimento de onda? O que quer que lhe venha à cabeça, pode entrar e sair como entrou, desde que se coloque no papel de observador e, mais importante que tudo, sem tecer juizos de valor. Afinal, se aceitar as emoções negativas sem fazer nada, elas acabam por ser «escoadas» e a carga emocional tende a ficar reduzida.

Investir num passatempo, fazer um pequeno passeio a pé, quando vai despejar o lixo ou passear o cão, pode funcionar como um dois-em-um, ou seja, traz benefícios para o corpo e a mente. Se conseguir fazê-lo depois com um amigo, tanto melhor. Estar atento às suas necessidades é meio caminho andado para fazer o mesmo em relação aos outros e, a boa noticia, desenvolve-se com o treino.

Aos poucos, pequenos gestos que nem precisam de recursos financeiros, podem mudar a sua vida. Isto aplica-se à capacidade de estar presente no aqui-e-agora, ao colocar em pratica a disciplina e a gestão do tempo (delimitar/distribuir com  parcimónia o tempo dedicado aos mails, redes sociais, trabalho, família, etc). Se é um fervoroso adepto dos smartphones, saiba que pode valer-se ainda das aplicações para medir o seu nivel de stresse e outras que lhe permitem aprender a reduzi-lo, em momentos sos. Por fim, qualquer atividade que lhe faça bem ao espírito (da leitura a encontros com gente que partilha os seus ideais), só porque sim, será uma mais-valia para a sua saúde e bem-estar.    

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Our endless numbered days

Faltava algum tempo para a meia-noite. A noite estava fria e chovia. Na rua, o vaivém dos veículos com ocupantes apressados. Em casa, as horas eram saboreadas devagar. O felino ronronava, junto ao aquecedor, enquanto a voz sussurrada de Sam Beam (Iron & Wine)* se fazia ouvir na sala, com volume baixo. Ela deixou-se embalar até ao último acorde e deliciou-se, de seguida, com os trilhos fluidos e imprevisíveis das gotas de água na vidraça.

Ele veio da cozinha com um jarro de vinho e duas canecas de barro e estendeu-lhe uma. Brindaram então aos momentos que marcaram o ano: os bons, os assim-assim e os outros, sem os quais não teria sido possível mudar de rumo e, vendo agora, talvez para melhor. 
«O 13 não chegou a ser um 31, mas por vezes pareceu!», brincou ela. 
«Eu não te dizia que com jeitinho e paciência tudo acaba por compor-se, no tempo certo?», acrescentou ele. Ela levantou-se do sofá. «E qual é o tempo certo? Essa é a pergunta que vale milhões!»

O som do relógio de cuco trouxe um toque de suspense ao momento. O jogo da bisca ainda não tinha acabado. O homem pousou na mesa as três cartas que tinha na mão, naipes voltados para baixo e, em tom de fado, entoou a ladainha: 
«O tempo pergunta ao tempo, quanto tempo o tempo tem...»  
Ela sorriu. E vai de acompanhá-lo, à desgarrada: «...O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem.» Bateram palmas e retomaram o jogo, perdendo-se nas horas. Há momentos de sorte. Ou presentes de graça. Foi então que os ponteiros do relógio de cuco se cruzaram, no sentido norte. Abraçaram-se. Estava frio e chovia. Eram os primeiros acordes de 2014.  
*God, give us love in the time that we have

Primeira ficção do ano, em memória do meu pai, que partiu há 4 décadas e com quem aprendi as artes do tempo (e não apenas da relojoaria e do ouro) .




quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os segredos da solidão II


A história de Emily White


Uma advogada sem filhos, a quem nunca faltaram amigos e interesses, passava a maior parte do tempo por sua conta. O problema era a permanente sensação de desligamento face ao que estava à sua volta, sobretudo a partir dos 30 anos. Emily investigou o assunto e escreveu um livro onde revela estudos, testemunhos e relatos na primeira pessoa. Depois de experimentar fármacos contra a ansiedade e depressão, fórmulas herbais, uma linha telefónica de aconselhamento e hipnose, a autora continuava sem perceber a razão de tanto desconforto. 
Recorreu à psicoterapia. Nas sessões, tomou contacto com a raiva não expressa em criança, por sentir-se distante ao lado de um pai de fim-de-semana e de uma mãe sozinha, com a qual se veio a identificar em adulta. As as suas escolhas de vida - decidir não ter filhos, um trabalho solitário e uma morada remota, longe da família – espelhavam isso. Aos 40 anos, aventurou-se numa vida a dois. 

Após quatro anos mergulhada no problema, Emily avançou para as conclusões:

  1. «Quem se sente só raramente o admite, por sentir culpa ou vergonha [que só complicam].»
  2. «Na nossa cultura [tecnológica], passamos cada vez mais tempo sozinhos. Paradoxalmente, impele-nos para uma socialização ativa a todo o custo.»  
  3. «A relação amorosa não mudou o hábito de pensar-me como solitária (…) mas preciso do conforto que pode ser dado por outra pessoa.»
Considerações

Medir comportamentos é próprio do método experimental, usado na investigação psicológica. Um teste deve servir para refletir, mais do que classificar.

Fazer um teste é um convite à auto-análise. Para responder ao que mede a solidão, passei inevitavelmente por memorias de me ter sentido e me foi difícil admiti-lo.


Socializar é desejável, mas estar em grupo, numa base regular, exige uma boa dose de adaptação e dispêndio de energia. 

Alternar o convívio com períodos de isolamento e contemplação, se eles revigoram e inspiram, parece sensato (sobretudo antes de tomar decisões ou após um intenso período de trabalho!)

(cont.)