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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os Segredos da Solidão III



A capacidade de estar só

"Finding Peace in Solitude" by Si2
Há muitas formas de experimentar o que o psicanalista Donald Winnicott descreveu como «a capacidade de estar sozinho». Segundo ele, o sentimento de autonomia resulta da possibilidade que a criança teve de estar só, na presença de alguém confiável (geralmente a mãe, apesar de poder ser o pai, um familiar próximo ou uma figura protetora). Assim se pode explicar porque é para uns mais fácil estar bem na sua própria companhia do que para outros, sem sentir-se ameaçado.

Numa perspectiva existencialista, todos nascemos e morremos sós. Ter isso em mente, mesmo numa sociedade globalizada, revela-se um convite estimulante, mais não seja para sair do frenesim comunicacional e das nossas próprias zonas de conforto. A Lonely Planet, por exemplo, também conhecida por bíblia dos solitários, nasceu do relato da longa viagem de lua-de-mel de Tony e Maureen Wheeler, um casal britânico que, há quatro décadas, se dispôs a percorrer a Europa e a Ásia de carro para acabar na Austrália.

A vontade de renunciar à pressão para manter-se em sintonia com o ritmo social dominante conquista cada vez mais adeptos. Os numerosos blogues com dicas para os viajantes solitários, os retiros em lugares remotos e alguns estilos de vida monástica parecem ser mais que uma moda: traduzem uma necessidade pessoal que vai sendo reconhecida e cultivada por uma imensa minoria.

Aprender a observar os outros, sem defesas excessivas- «tentar colocar-se nos seus sapatos» - e ir ao encontro deles, sem expetativas, pode ser tão gratificante como optar por periodos sabáticos, de tempos a tempos. Génios como Jesus, Buda, Newton e Beethoven tiveram momentos de criatividade em períodos de retiro ou de eremitagem.

A capacidade de estar só fermenta a autonomia e a liberdade de pensamento. O temperamento solitário é um estilo pessoal, mas também uma defesa/sintoma (no segundo caso, é vivido com desconforto). A solidão está associada ao sentimento de vazio e de isolamento (interno ou fruto de contingências: ausencia de amigos, falta de apoio familiar, relacionamentos superficiais ou que envolvem distância geográfica) 

Só... 


 Em doses qb (cada um deve descobrir a sua) (+)
·         Autodescoberta: possibilidade de pensar/sentir sem os filtros externos
·         Desfrute: saborear as etapas superadas sem o bulício do quotidiano
·         Serenidade: conectar-se com sentimento de tranquilidade e calma
·         Simplicidade: uma mente não agitada fica mais clara e liberta
·         Equilíbrio: disponibilidade para sintonizar-se com o mundo, sem medo

Em demasia (-)
·         Sintomas de mal-estar
·         Stresse (distúrbios na pressão arterial, sistema hormonal, etc)
·         Problemas imunitários
·         Alterações cognitivas e neurológicas
·         Isolamento, menos anos de vida



Os segredos da solidão II


A história de Emily White


Uma advogada sem filhos, a quem nunca faltaram amigos e interesses, passava a maior parte do tempo por sua conta. O problema era a permanente sensação de desligamento face ao que estava à sua volta, sobretudo a partir dos 30 anos. Emily investigou o assunto e escreveu um livro onde revela estudos, testemunhos e relatos na primeira pessoa. Depois de experimentar fármacos contra a ansiedade e depressão, fórmulas herbais, uma linha telefónica de aconselhamento e hipnose, a autora continuava sem perceber a razão de tanto desconforto. 
Recorreu à psicoterapia. Nas sessões, tomou contacto com a raiva não expressa em criança, por sentir-se distante ao lado de um pai de fim-de-semana e de uma mãe sozinha, com a qual se veio a identificar em adulta. As as suas escolhas de vida - decidir não ter filhos, um trabalho solitário e uma morada remota, longe da família – espelhavam isso. Aos 40 anos, aventurou-se numa vida a dois. 

Após quatro anos mergulhada no problema, Emily avançou para as conclusões:

  1. «Quem se sente só raramente o admite, por sentir culpa ou vergonha [que só complicam].»
  2. «Na nossa cultura [tecnológica], passamos cada vez mais tempo sozinhos. Paradoxalmente, impele-nos para uma socialização ativa a todo o custo.»  
  3. «A relação amorosa não mudou o hábito de pensar-me como solitária (…) mas preciso do conforto que pode ser dado por outra pessoa.»
Considerações

Medir comportamentos é próprio do método experimental, usado na investigação psicológica. Um teste deve servir para refletir, mais do que classificar.

Fazer um teste é um convite à auto-análise. Para responder ao que mede a solidão, passei inevitavelmente por memorias de me ter sentido e me foi difícil admiti-lo.


Socializar é desejável, mas estar em grupo, numa base regular, exige uma boa dose de adaptação e dispêndio de energia. 

Alternar o convívio com períodos de isolamento e contemplação, se eles revigoram e inspiram, parece sensato (sobretudo antes de tomar decisões ou após um intenso período de trabalho!)

(cont.)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Os segredos da solidão I


«Mais vale só.» Depende. Do que é, para cada um, estar «mal acompanhado». Se a «má companhia» for alguém com quem se tem uma relação doentia e tóxica, o melhor é fechar contas e dar crédito a necessidades próprias. Quando a sensação de ficar entregue a si mesmo, numa espécie de desamparo sem causa óbvia, se afigura desarmante, a «má companhia» somos nós.

Como viver com os nossos «buracos negros»?
A era da hiperconetividade e do telefone smart tem vantagens preciosas, mas não substitui um abraço, um jantar caseiro ou uma «escapadinha a dois», como prometem os sites de descontos em voga. A possibilidades de interagir sem fronteiras pode valer muito pouco se, mesmo numa sala cheia, tudo parecer distante, superficial e vazio de sentido. 
O Estrangeiro (título do Nobel da Literatura  Albert Camus (1957) é o outro e somos nós. No lançamento da obra póstuma do escritor e pensador, a partir de manuscritos não editados (The First Man), a filha de Camus revelou ao Nouvel Observateur como foi sentir-se invisível, quando ela era ainda criança: «Encontrei o meu pai sentado na sala, a cabeça entre as mãos. Disse-lhe: ‘Estás triste papá?’ Ele levantou a cabeça, olhou-me nos olhos e respondeu: ‘Não, estou só.’ Isso revoltou-me tanto! Eu não sabia como dizer-lhe que comigo ele não podia estar só’». 

Brian Marki Fine Art - L'Étranger I - Oil on canvas 

Quem é o estrangeiro? O estranho em cada um de nós? Quando abri o livro Solidão (Pergaminho, 16,60€), de Emily White, fui surpreendida, na primeira página, com um teste. Respondi aos 20 itens da Escala de Solidão da Universidade da Califórnia. Antes de mergulhar nas 317 páginas que tinha em mãos, segui as pistas apresentadas nas referências finais, googlei e obtive uma interpretação mais completa do resultado: «Você é uma pessoa solitária e provavelmente sabe disso. Se não lhe causa incómodo, é possível que esteja apenas a racionalizar o problema, a inventar desculpas para não enfrentá-lo.» 

(cont.)