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quinta-feira, 5 de março de 2015

Conhece a Psicologia do Tempo?

Estou aqui. Estou no agora. Há pouco estava com a cabeça no amanhã. Até me esqueci que já eram horas de voltar a entrar na impagável roda do tempo, das rotinas. O tempo voa. Ontem não era assim. tinha todo o tempo do mundo. O que é o Tempo? O meu, o teu, o nosso? Na Antiguidade Clássica, os gregos tinham mais que uma designação para a 4ª dimensão; o tempo cronológico (Chronos), linear ou sequencial, e o tempo subjetivo (Kairós), humano e indeterminado.

Internamente, tendemos a medir o Tempo em função dos intervalos entre eventos que consideramos significativos - o nascimento de um filho, uma separação, etc. As experiências marcantes e o intervalo entre elas definem o nosso tempo (Kairós), são a timeline da nossa história, distinto do tempo cronológico (Chronos). A dupla natureza do tempo origina insólitas distorções percetivas.

A Persistência da Memória - Salvador Dali (1931)

«Já?! Parece que foi ontem». Percebemos o Tempo de modo mais rápido à medida que somos mais velhos. A aceleração subjetiva do Tempo, à medida que a idade avança (fenómeno conhecido por telescopia) deve-se a factores tão diversos como:


  • aumento do tempo de reacção: fisiologicamente, o relógio biológico tende a desacelerar com o passar dos anos e as horas do relógio parecem-nos, então, mais velozes, um erro de paralaxe: sentimos que não acompanhamos o ritmo, até porque o nosso tempo de reação se torna mais lento
  • perceção e resposta de stresse: são precisas unidades de tempo extra para responder às mesmas exigências e pressões da vida adulta, que passam a correr, umas atrás das outras, ou todas ao mesmo tempo. De tão imersos nelas, damos menos atenção à cronologia. «O tempo foge entre os dedos». 
  • «meteorologia emocional» - no fluxo da consciência, passado, presente e futuro emergem, de modo não linear ou cronológica. A memória é influenciada pelas emoções, são elas que induzem a percepção do Tempo, esse continuum que não tem princípio nem fim. Assim se explica, por exemplo, a nossa tendência para olhar os eventos da adolescência e da infância - as nossas primeiras vezes, as descobertas - como tendo uma duração maior do que a efetiva. "Todo o tempo do mundo"



Somos seres analógicos num mundo digital. O nosso relógio interno pauta-se pelos marcos de vida (a narrativa pessoal): quanto mais espaçados no tempo (eventos menos frequentes, portanto), maior o desfasamento entre o "meu tempo" e o "dos outros". "Ainda ontem era um bébé, já está um homem".

A velocidade de Kairós depende da experiência consciente (consoante estamos acordados, a dormir, a sonhar, sob influência de drogas, em êxtase ou quando estamos a rezar, a meditar, a tocar ou a ouvir uma melodia). Há mesmo quem considere que, em certos estados mentais, se consegue transcender a barreira do Tempo, por se tornar tão lento ao ponto de parar completamente (sim, podemos chamar-lhe Nirvana).

A perspetiva temporal é uma das mais poderosas influências no comportamento humano 
No seu livro Time Paradox (2008), o psicólogo social americano Philip Zimbardo defense que cada um de nós tem uma perspetiva enviezada do Tempo, com implicações óbvias na condução das nossas vidas.

  • A má notícia: sem usar o que ele designa por "a nova psicologia do tempo", podemos ficar reféns de um padrão de pensamento e ação desvantajosos para nós. 
  • Exemplos :  "Vivo o hoje, adapto-me às circunstâncias" (orientação para o presente), "Há que andar para a frente, planear, fazer listas" (orientação para o futuro), "No meu tempo... o tempo é cruel... se eu tivesse outra vez 20 anos" (orientação para o passado).
  • A boa notícia: é possível introduzir mudanças na nossa perspetiva temporal e, com isso, fazer os ajustes necessários para restaurar a nossa qualidade de vida. 

O questionário para quantificar a Perspetiva do Tempo trouxe a Zimbardo tanta ou mais popularidade do que a Experiência da Prisão de Stanford (1971), estudo que foi adaptado ao cinema no início deste ano. A simulação, com estudantes universitários, durou apenas seis dias, altura em que foi interrompida, pelo rumo dramático, e inesperado, dos eventos. Conclusão: pessoas boas podem tornar-se infernais num contexto que o permita (o estudo voltou a estar na ribalta, após os abusos praticados, em 2004, na prisão de Abu Ghraib).

Agora, que a prática do Mindfulness - atenção plena -  está a conquistar executivos, académicos e a chegar, através de workshops, ao cidadão comum, as últimas tendências da investigação neste campo sugerem três pistas para mudar a perspetiva de tempo, com benefícios na saúde e na longevidade:


Abrandar 

Meditar 

Estar atento    

OBS:
Este texto foi escrito entre ontem e hoje. Foi uma agradável supresa descobrir, também hoje, a edição de aniversário do jornal Público, gratuita e inteiramente dedicada ao Tempo. Ainda consegui ir a tempo de encontrar um exemplar e, já que em matéria de tempo, "não há duas sem três", enquanto conduzia até casa,
com o rádio ligado, apercebi-me da abertura da exposição The Clock, de Christian Marclay, a decorrer até 19 de Abril, no Museu Berardo, em Lisboa. 

 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

«O que conta é ter uma vida mais livre e autêntica»

(publicado na VISÃO 1110 de 12 de Junho)

 O psicanalista Carlo Strenger diz, em entrevista à VISÃO, que a existência só ganha sentido pela aceitação dos limites próprios e na gestão das crises, sem embarcar na ilusão da imortalidade.
Veja o Vídeo

É israelita. É psicanalista. E tem um cão chamado Freud. Um ano depois de ter lançado, em Portugal, O Medo da Insignificância (Ed. Lua de papel, 295pág., €14,90), que já vendeu três mil exemplares, o autor acolheu a VISÃO, via Skype, em Telavive, onde reside com a mulher, psicóloga política. Na sala de estar, com paredes «forradas» de livros, o professor universitário disserta sobre o impacto da globalização na identidade. O pânico existencial e o sentido da vida são temas de eleição nos seus livros, artigos e colunas publicadas na imprensa, mas também nas palestras internacionais (incluindo a famosa TEDxJaffa, sobre cidadania global, com mais de um milhão de visualizações). Aos 55 anos, define-se como um epicurista que não acredita em Deus. Prefere que o vejam como um liberal secular e tem fé na capacidade do Homo Globalis para cooperar e reduzir abismos forjados por visões do mundo fechadas, que não passam de «uma estratégia de defesa contra a consciência da morte.»

Começo por citá-lo: «Não existem garantias de que a nossa vida corra bem». Porque tememos a insignificância?
Os avanços tecnológicos levaram-nos a cultivar, erradamente, a noção de que temos controlo pleno das nossas vidas e do que acontece à nossa volta, mas continuamos a ser tão frágeis, talvez um pouco menos, do que éramos na Grécia Antiga. 

Isso quer dizer que a psicologia positiva tem os dias contados?
Não estou a questionar esse campo do saber, bem fundamentado cientificamente. Refiro-me à psicologia pop, que cria falsas esperanças com ideias simplistas e omnipotentes. Por exemplo, se acreditar em si, será rico, famoso e belo. Se tal não sucede, fica-se a pensar: «Algo profundamente errado está a passar-se comigo.»  

Alcançar o sucesso global é hoje um imperativo. Se não se for célebre, é-se um Zé Ninguém?
Isso acontece porque estamos numa cultura de informação-entretenimento, assente na tecnologia. Ela democratizou o conhecimento – basta pensar no Google – mas trouxe algum caos. Ficámos sem as referências que davam, até então, um valor às nossas vidas e substituímo-las pela fama: na música, no empreendedorismo, no futebol.

Confundimos o ter uma carreira com o ter uma vida com sentido?
A questão é que precisamos ter mais consciência da nossa mortalidade. Essa evidência torna-se clara quando atingimos a maturidade, mas pode acontecer antes. É o caso do jovem bem-sucedido, que tem o curso, o emprego de sonho, a casa e o carro, mas falta-lhe significado.

A sua carreira, por exemplo. Que significa para si e em que medida tem a ver consigo?
Encaro-a como uma espécie de chamamento. Sinto-me um sortudo por fazer algo que me apaixona. Uma das experiencias mais marcantes da minha vida foi ter crescido numa família judia ultra ortodoxa. Na adolescência comecei a ter sérias dúvidas acerca do judaísmo e da religião em geral. Tornei-me num secularista liberal, o que não foi nada fácil de aceitar para os meus pais. Inclusivamente, chegaram a não querer relacionar-se comigo. Isto mudou a minha vida de forma profunda, porque prezo muito a liberdade individual e de pensamento, bem como o uso da razão crítica. Tornou-se um tema central da minha vida pessoal e converti isso numa profissão.

Como define o significado existencial do Homo Globalis, ou cidadão do século XXI?
O que conta é que a pessoa consiga ter uma vida mais livre e autêntica. Há quem pense que a liberdade é ter tudo o que se quer. Para mim, é sobre o que é a essência humana, que implica escolhas difíceis. Por exemplo, a ideia de liberdade para conduzir uma certa forma de vida traduziu-se na escolha, minha e da minha mulher, de não sermos pais.

Defende que só podemos ser livres quando aceitamos os nossos limites. Porquê?
Refiro-me ao aceitar ativamente o que não somos, à tomada de consciência dos nossos limites, em vez de nos agarrarmos á ideia de que temos um potencial ilimitado, a lógica do «Just do it». Erradamente, pensa-se que o dinheiro, a fama e o poder trazem significado à existência, sem questionar se essa vida é, realmente, a nossa.

Esse dilema surge com frequência no seu consultório?
Sem dúvida. Quem chega ao topo não afasta de cena a procura de sentido. Perceber estes limites liberta-nos da ansiedade e da culpa pelas oportunidades perdidas na cultura orientada para o sucesso. Um dos meus pacientes acabou por enriquecer rapidamente e, quando acordava de manhã, pensava: «Conquistei tudo o queria… e agora? O que vou fazer?»

Como se faz esta mudança de paradigma ao nível coletivo?
É preciso algum treino para entender que a meta de um cidadão do mundo não é ser conhecido por todos, mas contribuir para um projeto que envolva a humanidade como um todo. Somos um sistema complexo e especializado, que pressupõe, para evoluir, cooperação e interdependência, para que todas as partes ganhem.

Defende que o desdém civilizado é preferível ao politicamente correto. Porquê?
Quando estava num programa de entrevistas sobre política na estação de radio mais ultra ortodoxa de Israel, houve um debate em que usei esse termo. Quando o tema é, por exemplo, a pena de morte ou os direitos dos homossexuais, faz para mim mais sentido discordar civilizadamente com alguém que respeito como ser humano, mas sem ter de fingir que não me incomodam as suas ideias, que vão contra os meus valores e consciência.

Como ex membro do Painel de Monitorização do Terrorismo na Federação Mundial de Cientistas (WFS), está otimista quanto ao fim do conflito israelo-palestiniano, entre outros?
Segundo a teoria dos jogos, trata-se de um jogo de soma zero: ambas as partes perdem. Estamos a assistir à batalha pela cultura dominante e não posso prever como vai acabar este confronto civilizacional. A primavera árabe converteu-se num caos e a luta entre sunitas e xiitas é dramática. Podiam ter ganhos mútuos – principio não zero, um conceito do meu colega Robert Wright – mas ficam reféns de sistemas de crenças irracionais. Para os cidadãos, é uma história de horror.







quarta-feira, 30 de abril de 2014

Quem quer um terapeuta de «linha branca»?


Aprendi no jornalismo que de nada serve ser um bom profissional (e pessoa), se não se é lido, ouvido ou visto (por alguns, idealmente vários, e há quem só se contente com muitos). E na psicologia (saúde mental e psicoterapias)? Parece que sim, que esta máxima também se aplica. Sinto-me tentada a chamar-lhe «saída  à americana» (das politicas de austeridade /espetro do desemprego dos terapeutas). De acordo com um artigo publicado há ano e meio, no The New York Times, assinado por Lori Gottlieb, não ter uma marca no mercado livre pode ser uma falha irreparável. O artigo questiona o papel e o posicionamento dos psicólogos que, sem o guarda-chuva das seguradoras e dos sistemas públicos de saúde, se vêem forçados a adaptar-se às leis do marketing, se quiserem viver da profissão.

Até há uma década, pelo menos nos EUA, bastava um diploma e supervisão para exercer a clinica privada e construir uma carteira de clientes. Agora não. Segundo a APA, que representa o setor, as intervenções clínicas sofreram uma quebra na procura em cerca de 30%, num período de tempo de 11 anos (análise de dados até ao ano de 2008), na proporção inversa do que sucedeu na indústria farmacêutica. Se os comprimidos podem ser anunciados e ter gigantescas campanhas de marketing, o mesmo não se pode dizer das sessões de terapia. 
Quem procura ajuda para as suas questões mais privadas quer profissionalismo e confidencialidade. E publicidade (também popularidade e exposição), quererá? O artigo faz querer que sim. À luz da economia global, os terapeutas também são marcas e, como tal, não dispensam os serviços de consultores comerciais para se posicionarem no mercado de trabalho ou minimizarem o risco de ter o consultório às moscas. É que os psicoterapeutas generalistas já «não vendem», pelo menos sem um «sound byte» que apele à cura rápida em questões muito específicas.  

Num cenário de expansão de aplicações para dispositivos móveis, os terapeutas que querem viver do seu ofício terão de moldar-se às necessidades dos potenciais consumidores e oferecer /anunciar soluções rápidas para problemas, quase como os técnicos de uma oficina automóvel. Mais: o cartão-de-visita só tem a mesma função que tinha (antes da web 2.0) se for ancorado num site interactivo e com uma boa dose de exposição pessoal. A explicação de Alison Roth, consultora de sites de profissionais de ajuda, a este respeito é esclarecedora: «A relação terapêutica é uma experiência íntima. As pessoas precisam de conhecer aquele(a) com quem vão estar, quando teclam o nome no Google. Querem sentir uma ligação pessoal e imediata.» Querem saber um pouco da história de quem está do outro lado: se foi filho de um divórcio, se passou por um trauma, se tem uma doença crónica.
Que lugar ocupa a postura empática e o insight do paciente, nesta nova lógica (metodologia / paradigma)? «Mostrar (ou demonstrar?) o caminho», de forma persuasiva, será terapia? Ou Consultoria (mentoria)? Se o cartão de visita diz que é um «promotor da felicidade» - há uns anos atrás, seria rotulado como banha da cobra - o seu detentor terá mais gente a consultá-lo do que optar pelo descritivo «psicoterapeuta» - hoje associado a «processo que envolve tempo, esforço e lágrimas»


No final da prosa, fiquei ainda a saber que quem deseja navegar nos mares da saúde mental deverá criar a sua própria almofada de recursos complementares (lançamento de livros, eventos de divulgação, sessões de formação temáticas, dicas online) e, assim, manter – ou aumentar – o seu rendimento. Seja.
Adeus, «linha branca» (ou terapeuta «tela em branco» para o paciente projectar / e consciencializar, por essa via, as suas fantasias e conflitos e ensaiar, em terapia, um modo diferente de estar numa relação de proximidade com alguém).
O meio é a mensagem, como dizia Marshall McLuhan. Na hora de causar uma boa impressão (ou uma ligação simbiótica) junto do destinatário (e numa economia de escala), o embrulho é fundamental. Para quem entra na corrida da comunicação de marca, o «problema» é saber quando parar. Quanto ao ofício propriamente dito, correm os terapeutas o risco de perder-se, entre papéis e laços? 
  
  


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Psicologia Quotidiana

«Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos». 

Annais Nin ficou célebre por estar à frente do seu tempo. Mais do que o estilo inovador da sua escrita erótica, ou a intensidade que acompanhou sempre a sua vida amorosa, no meio literário parisiense (ilustrada na obra, Henri, June and Me, adaptada ao cinema), cativam-me as suas reflexões, o que ela filtrava das experiências quotidianas. Os dias contados à luz da qualidade (e riqueza) singular dessas experiências. A sua marca de água reside na espontaneidade, na intenção e nos afetos.

Nessa altura, ainda não existia a neurociência. A psicanálise sim,  e foi um veiculo precioso, afirmou ela, mais tarde, para o seu desenvolvimento pessoal e, consequentemente, para a criatividade e originalidade da sua escrita. 



De Freud até hoje, algumas coisas mudaram. O foco das investigações na área da psicologia e outras ciências deslocou-se do Inconsciente - que se enraizou e vulgarizou no senso comum - para a Consciência. Para o que se passa num momento presente (em '3D' ou '4G', poder-se-ia dizer, na gíria tecnológica). É um território com várias dimensões ou camadas (e em combinações neuronais quase infinitas), não confinada ao plano intrapsíquico. 

O passado, no sentido psicanalítico, atualiza-se no presente. E o que se passa no momento presente? Quanto dura um momento de experiência significativa, vivido com atenção focada e capaz de mudar o rumo de uma vida em escassos segundos? O que faz acontecer essas «explosões» químicas nos circuitos cerebrais? Como se processam os movimentos das interações (com um outro ou durante uma atividade)? Que leitura se vai fazendo delas, em tempo real? 

A investigação neste domínio (Experience Flutuaction Model) sugere que existe um estado de consciência descrito por experiência ótima (ou de 'fluxo'), caracterizado pela sintonia entre desejos, sentimentos e ação, na relação com o mundo.  Esse estado de consciência (gratificante e pleno) produz elevados níveis de bem-estar psicológico (Nakamura & Csikszentmihalyi, 2002) e pode ser alcançado pelo envolvimento e concentração no que se está a viver enquanto se interage, num dado momento e circunstância.

No meio de tantos gestos e rotinas, aparentemente insignificantes, faz-se um 'click'. Num instante, tudo muda. O significado da experiência subjetiva que emerge nos contextos naturais de vida é que vai determinar os pontos de viragem e transformação. As pesquisas centram-se agora nas flutuações da qualidade das experiências vividas, na tomada de consciência do que nos faz sentir vivos (presentes/conscientes) na relação com o mundo. Entrar em 'fluxo' e promovê-lo, numa perspetiva salutogénica.





mindfulyou.com

No seu tempo, Freud marcou a diferença e deixou um legado revolucionário: a ele se deve o foco no mundo mental e suas «prisões», que estão na base do sintoma. Não é por acaso que uma das suas obras mais icónicas seja A Psicopatologia da Vida Quotidiana. Hoje, a Bíblia das Perturbações Mentais (DSM) continua a ser revista (e a incluir sempre novas «disfunções», para as quais haverá uma nova molécula para prescrever), quase sem reservar espaço para aquilo que chamamos «normalidade»: o ser humano, nas suas singularidades e diversidade. 

Um novo paradigma começa a ganhar forma (ou massa crítica): se é em (na) relação que a «doença» (ou o sintoma) se forja, é em (na) relação que ela se pode «curar». Com outros protagonistas, ou em contextos relacionais mais user friendly (como acontece, por exemplo, num processo psicoterapêutico, mas também noutras formas de envolvimento significativas, onde têm lugar todas as formas de arte e de encontro, onde a empatia e o sentido de si têm lugar para existir).

As plataformas tecnológicas parecem ter um papel decisivo neste processo, por serem pontos de partida e criarem oportunidades (mesmo que temporárias ou experimentais) de contacto, descoberta e, eventualmente, de encontro, promotor de mudança (pela qualidade das experiências ótimas, que promovem «insight» e valem por si). 

Annais iria gostar de saber. 

Psicologia Quotidiana 
No Consultório Social da Visão Solidária, tem um espaço para colocar as suas perguntas (visaosolidaria@impresa.pte acompanhar as respostas. 


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Amor em Tempos de Cancro

O que deve saber sobre sexo durante o tratamento oncológico e pistas para redescobrir a sensualidade. 

Artigo realizado para a revista Visão (nº 1061) - Junho de 2013 

Veja o Video (Foto: José Carlos Carvalho)

domingo, 10 de março de 2013

O Meu Corpo e Eu


Encontrar significado para sintomas pouco comuns é um exercício de descoberta pessoal, que a ciência só parcialmente explica e a sociedade nem sempre aceita

Duas mulheres famosas, uma romancista e outra activista, entenderam ter uma palavra a dizer sobre o que se passava no estranho mundo dos seus corpos, aos quais «aconteciam coisas». Dessas, que as ciências médicas diagnosticam e tratam, e de outras, menos óbvias. É humano: o sintoma tem sempre razão. Descobri-la é outra história. A ser bem contada, pode acabar nas páginas de um livro.    
«Em Maio de 2006, sob um céu azul e sem nuvens, ali estava eu [Minnesota, EUA] para discursar sobre o meu pai, que morrera dois anos antes. Assim que abri a boca, comecei a tremer violentamente. Tremi nesse dia e tremi outra vez, noutros dias. Eu sou a mulher que treme.» Assim termina o ensaio The Shaking Woman or A History of My Nerves (2010), da autoria da escritora americana Siri Hustved, companheira do também escritor Paul Auster. A experiência, aos 51 anos, abalou-a profundamente. Tudo correra bem na elegia fúnebre: «Quando chegou a hora, li o que tinha preparado, numa voz forte, sem lágrimas.» Agora, diante de uma plateia de convidados, no lugar onde o pai tinha sido professor universitário durante quatro décadas, também conseguiu ler o discurso até ao fim, mas incapaz de controlar o seu corpo a tremer, da zona do pescoço para baixo.
Durante dois anos, Siri dedicou-se, com afinco, à procura da explicação para o «estranho» que habitava nela, qual «duplo», que podia manifestar-se à revelia da sua vontade, do seu Eu. Procurou ajuda na medicina convencional e complementou a sua investigação com memórias e episódios biográficos marcantes.

 A sensação de «ser outra» não era nova. A escritora começou por aprender a falar norueguês, apesar de ter nascido em solo americano. Uma de quatro irmãs, cresceu na companhia de um irmão imaginário, chamado Erik, que viria a ter o papel de psicanalista, num romance seu. Com frequência, tinha episódios de enxaqueca, ataques febris e perturbações sensoriais. Em adulta, foi-lhe diagnosticada neuropatia periférica, comum em pacientes com enxaqueca. Siri convivia relativamente bem com tudo isto. Até entrar em cena «A Mulher que treme».
A hipótese de luto tardio estava fora de questão. Freud poderia diagnosticar histeria (hoje, perturbação de conversão). O psiquiatra equacionou uma desordem de pânico. O neurologista quis despistar a possibilidade de epilepsia. 
http://sirihustvedt.net/

57 anos, ascendência norueguesa
Doutorada em literatura inglesa, nos Estados Unidos
Romancista e ensaísta
Traduzida em 29 línguas, recebeu vários prémios
Casada com o escritor Paul Auster, a viver em Nova Iorque
Insight: «Ser doente depende do temperamento, história pessoal e cultura em que vivemos» 



As ressonâncias magnéticas que não acusaram nada. A solução para manter os malditos «ataques» sob controlo era tomar medicamentos beta-bloqueantes. A certa altura, a autora confessa ao leitor: «Fui seguida por uma psicanalista e uma neurologista, mas nenhuma me disse quem era a mulher que treme.»
Siri foi à procura dela. Frequentou, até, um grupo de neuropsicanálise e conheceu as pesquisas sobre neurónios-espelho, responsáveis pela empatia (sentir-se na pele do outro). Aí estaria, segundo ela, a chave do enigma. Na última semana de vida do pai, Siri pensava nele, antes de dormir, quando foi invadida pela sensação física de alguém com enfisema pulmonar. «Como ele, senti a proximidade da morte.» O pai autorizara que ela usasse memórias suas no livro As Tristezas de um Americano (2008). A filha chegou a teclar cartas dele, combatente na II Guerra, para interiorizar fisicamente o sentimento dos flashbacks descritos.
O envolvimento emocional intenso com a escrita paterna pode ter estado na origem do «ataque». Quando ela se preparava para dar voz às palavras, deu-lhes corpo. «A história da mulher que treme é a narrativa de um evento que se repete e vai ganhando, ao longo do tempo, múltiplos sentidos, consoante a perspectiva.» Podemos não controlar o que nos acontece, mas faz toda a diferença ligar pontas soltas do «Eu» nessa história, e conta-la, de forma articulada, a um «Tu». 

Um dia, a mente deixa de responder ao que se passa no corpo e tudo parece perdido. Ou ganho, depois de passar pela experiência, com uma visão renovada. Para a activista política Naomi Wolf, autora do best seller O Mito da Beleza, nos anos 90, o «click» deu-se aos 46 anos. «Enquanto fazia amor, e nos momentos seguintes, deixei de sentir-me física e emocionalmente conectada e, em vez disso, sentia uma dormência interna». Este foi o ponto de partida para o seu novo livro, Vagina: A Cultural History. Num artigo ao jornal britânico The Sunday Times, Naomi afirmou que o seu problema foi uma oportunidade para ganhar uma nova consciência sexual, com a ajuda clínica, mas não só.   
A jornada começou no gabinete de ginecologia. Os testes ditaram o diagnóstico: doença degenerativa na lombar, pela compressão vertebral nos pontos L6 e S1. A lesão, originada por uma queda, duas décadas antes, nunca tinha dado dores, até bloquear parte do nervo pélvico (que envia impulsos ao cérebro, activando a química do prazer e do amor). Daí a dormência e falta daquela euforia pós-sexo. A cirurgia era parte da solução. Na consulta com o especialista Jeffrey Cole, Naomi ficou a conhecer algo novo: «Cada mulher tem um nervo pélvico diferente; algumas ramificações centram-se mais na vagina, outras no clítoris ou, ainda, no períneo, o que explica as diferenças individuais da resposta sexual feminina.»
Sem estar à espera, Naomi encontrou a resposta para o clássico drama da insatisfação feminina. Se as diferenças nas terminações nervosas pélvicas são puramente físicas, deixa de haver discussão sobre orgasmos de primeira e de segunda. O mistério está na anatomia e circuitos neurais de cada mulher. Isto é algo que devem gostar de saber as 30% de mulheres ocidentais que referem não ter prazer com o sexo. «Em vez de julgar-se ou culpar-se por algo não funcionar consigo, explore as suas ligações neurais e deixe-se guiar por elas.»

O prazer de fazer amor e o sentimento de êxtase 2-em-1, voltaram. Depois do alinhamento das vértebras, Naomi recuperou, em alguns meses, a sensibilidade que julgava perdida. Durante esse tempo, quis aprofundar o assunto e frequentou os cursos de Mike Lousada, um terapeuta de sexo tântrico. «Os tântricos abordam a sexualidade feminina com respeito, como se fosse sagrada», revelou à imprensa. Na sua obra, disserta sobre o potencial do órgão sexual feminino, uma porta de entrada para o autoconhecimento e a comunhão mística.  
As críticas não se fizeram esperar. Numa edição do The Guardian, por exemplo, ironizava-se com a mulher em crise da meia-idade que usava a ciência a gosto, para legitimar questões de ego.
naomiwolf.org

50 anos, ascendência americana e romena
Formou-se em Artes e Literatura Inglesa, nos Estados unidos
Autora, jornalista e defensora da liderança e libertação sexual das mulheres
Foi consultora de Al Gore e Bill Clinton nas suas campanhas presidenciais 
Vive com o produtor de cinema Avram Ludwig
Insight: «As mulheres americanas têm sido tão controladas por ideais e estereótipos como por limitações materiais»


Naomi Wolf, a mulher que personificou o movimento feminista de terceira geração, nunca escondeu as suas posições acerca do corpo, da vida privada e das questões de consciência social, por mais controversas que fossem. O gigante Apple também não escondeu que, em pleno século XXI, censura palavras como a que titula o livro. Na sinopse pode ler-se: «V****a. Um trabalho surpreendente que muda radicalmente a forma como pensamos acerca da v****a». Ironicamente, o texto termina com a autora a interrogar «porque é que, mesmo num mundo cada vez mais sexualizado, a v****a é vista como uma ameaça, ou se pensa nela como algo ligeiramente vergonhoso».
Nas redes sociais, alguns dos comentários destacaram o paradoxo: se é de um termo médico que estamos a falar, como querem, afinal, que lhe chamemos?  

Texto publicado na Revista Máxima (Fev 2013)




sábado, 2 de março de 2013

Viver com Atenção Plena

Se está preso na lógica do «é para ontem, é urgente, só paro quando acabar», este texto pode interessar-lhe


«Devagar que tenho pressa» é uma máxima que pode revelar-se de grande utilidade para alcançar alguma paz de espírito e manter um estado emocional equilibrado na correria dos dias. Saber parar e escutar o corpo a mente é algo que vamos desaprendendo, mas podemos restaurar, com um pouco de treino e persistência.
Ganhar tempo e calma, aliviar a dor e estados ansiosos e até, melhorar a produtividade, são alguns dos benefícios da Atenção Plena (mindfulness). 

Imagem extraida do site rellacafa.com/

Trata-se de um método desenvolvido pelo investigador americano Jon Kabat-Zinn, da escola médica da Universidade de Massachusetts, na segunda metade do século passado. Praticante de ioga e meditação budista, o também fundador da Clínica de Redução do Stress retirou a componente religiosa e ideológica da prática e tornou-a popular. Hoje é usada em várias clínicas médicas da Europa e dos Estados Unidos, no tratamento da dor crónica e como complemento do tratamento de problemas de saúde.

Usada por técnicos de saúde e psicólogos como complemento de tratamentos e psicoterapias, esta prática, que se deseja regular, é divulgada em Portugal no Espaço Budadharma, em Lisboa, através de cursos de curta duração. O objetivo é recentrar-se e conquistar de um espaço interno de aceitação e desprendimento. Aprender a focar a atenção, sem medo, permite tomar contacto com aspetos subjetivos, sem ficar refém deles e ganhar um distanciamento saudável face ao que se passa dentro e fora de nós. Ganha-se um espaço de liberdade interna, o que se traduz, gradualmente, numa menor vulnerabilidade ao sofrimento e na diminuição da frequência de estados mentais dispersos, flutuações de humor e pensamentos automáticos indesejados, que geram desgaste e fadiga.

«A dor é inevitável, o sofrimento é opcional»
Segundo Jon Kabat-Zinn, a dor tem três componentes:
Física: a dimensão sensorial e corporal
Emocional: os sentimentos envolvidos (raiva, frustração)
Cognitiva: o significado atribuído (pensamentos, expetativas negativas)


Dar atenção à dor altera a relação com ela, pois permite: 

. Aprender a viver com a dimensão sensorial 
. Libertar-se das componentes emocional e cognitiva
. Melhorar a qualidade de vida

Aplicações
Mindfulness é reconhecido como prática de promoção da saúde e revela-se útil nas seguintes situações:
. Gestão da dor
. Redução do desconforto
. Depressão moderada
. Problemas gastrointestinais
. Hipertensão
. Estados ansiosos
. Perturbações do sono
. Dependências

Saber mais em Revista Máxima


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Histórias que curam


O que fazer quando se recebe um diagnóstico «mau»? Como se lida com os efeitos devastadores de uma doença crónica? Que sentido dar a uma faceta pessoal não assumida?  Toda a experiência é válida, assim se consiga encontrar o fio à meada e tecer os contornos de uma jornada feita na primeira pessoa.

O rumo dado aos eventos parte, em última análise, da sua visão do real. Não raras vezes, é aí que se descobrem forças que se julgavam apenas dos outros, e permitem trilhar caminhos inexplorados, antes, durante e após processos difíceis.


Estudos realizados na universidade americana de Chicago demonstraram que as narrativas pessoais têm um forte potencial terapêutico. Aliadas à medicina, cada vez mais especializada, elas constituem um complemento essencial nos processos de recuperação e da gestão de doenças e, mesmo em fases terminais, têm o potencial de restituir a dignidade e a dimensão humana, subjectiva, que deve estar sempre presente nos processos de natureza física.

Sabia que…

… um «diário de bordo» é uma opção frequentemente usada para superar fases difíceis?

  • Não importa o grau de conhecimento que se tem do assunto, nem sequer as competências de escrita.
  • Registar no papel (ou no tablet) tudo o que se passa dentro e fora do corpo, num período de mudança, tem um poder catártico.
  • Contar o que vai dentro de si, sem julgamento prévio, confere a sensação de controlo, pelo menos em parte, durante um período de incerteza. 
  • Elaborar, ou dar um sentido mais profundo ao que está a passar pode traduzir-se em serenidade. Há quem prefira fazê-lo a solo, mas igualmente numa psicoterapia ou num grupo (presencial ou virtual). 
·      Vergonha, inadequação, medo e desespero são sentimentos que surgem – ou se intensificam – em momentos de sofrimento e de dor. Eles podem ser minimizados pela escrita guiada ou pela partilha de experiências, seja com um profissional de ajuda ou em grupos com problemas similares. Outra das vantagens da partilha é sentir-se acompanhado, ouvido e ter ao alcance a possibilidade de expandir, de forma criativa, a visão de si e das opções que se afiguram pertinentes numa dada etapa de vida.

O uso das narrativas biográficas tem-se revelado muito útil na formação de médicos e outros profissionais de saúde, especialmente os que trabalham em equipa e em ambientes tecnologicamente avançados (em que a componente subjectiva tende a ficar em segundo plano pela especialização e falta de tempo, dificultando a comunicação de diagnósticos, a adesão aos tratamentos e a colaboração do doente no processo clínico). Em Portugal já existem iniciativas deste género, como as conferências realizadas na Universidade de Lisboa (Centro de Estudos Anglísticos).

Viver para contar
O que as histórias pessoais podem fazer por si (e por quem as testemunha)
  • Fornecem informação útil: apreendemos melhor o que ouvimos directamente do que aquilo que lemos num folheto, que é desprovido do elemento emocional
  • Conferem apoio: saber que não se é o único a passar por uma situação complicada revela-se uma ajuda preciosa (num processo de decisão, num tratamento, na reabilitação ou no luto)
  • Estimulam a mudança de atitude: comprovar, in loco, como alguém foi capaz de deixar de fumar, de perder peso, superar uma quimioterapia ou um trauma, é uma fonte motivadora
  • Facilitam decisões: a comunicação entre prestadores de cuidados clínicos e de quem deles precisa estabelece-se numa base mais realista e com um maior grau de confiança
Ver mais em: Revista Máxima


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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sexo no feminino

Jornalista, casada há 18 anos e com um filho, Sylvia de Béjar publicou mais de uma centena de artigos sobre relações de casal, sexualidade e psicologia em diversas revistas.
O seu livro é um convite à descoberta de si, nos relacionamentos íntimos.
Por Clara Soares

O que a motivou a escrever, num estilo tão directo e pessoal?
Li muito, consultei vários sexólogos e ginecologistas, falei com mulheres e escutei-me a mim mesma. Foi um ano e meio de trabalho que me absorveu completamente, a escrever e reescrever conteúdos, para ficar compreensível e sem falhas.

Quais foram as reacções ao livro?
Médicos e psicólogos têm-no recomendado aos clientes e chegaram a perguntar-me: “Como sabe isto?” Com conhecimento de causa, respondi: porque já experimentei com o meu marido. A resposta dos leitores – os homens também o leram! – não podia ser melhor. Para mim, também foi bom. Compensei tanto tempo de trabalho com uma semana de férias a dois num barco, em Ibiza, com muito amor e, claro, bom sexo (risos).

O que é o bom sexo?
A parte lúdica, que se joga por divertimento, de forma criativa e experimental. Como em qualquer jogo, só depois de se jogar – de se provar, no caso do sexo – é que se descobre do que se gosta e não se gosta, e se pode escolher modalidades, sem ter de repetir as que não agradam!

Isso não acontece na prática?
Acontece muito menos do que deveria acontecer. Muitas mulheres com quem falei levam muitas coisas para a cama e, quando estão a fazer amor, não tiram o devido partido do momento. Porque não se sentem à vontade e pensam no que está errado com elas, porque ficam ansiosas por poderem transpirar, por não terem as medidas que acham que deviam ter, entre outros detalhes. Com isso esquecem o lado divertido. Comportam--se como se não tivessem direito ao prazer. A atitude delas contrasta com a do sexo masculino, muito mais focado no gozo do que na mente.

As mulheres continuam prisioneiras da imagem?
É um facto. Quanto mais preocupadas, menos atentas à sua satisfação sexual. Por exemplo, uma mulher preocupada em esconder uns quilos a mais, quando se despe, não está totalmente presente. O parceiro sente e isso não é agradável. Gostaria que um homem que está a fazer amor consigo lhe dissesse: “Já viste a minha barriga?” Eles não vêem a celulite como nós, os pêlos, as estrias, querem alguém que esteja ali, envolvida no que está a fazer. Eles sentem-se valorizados com uma mulher que consegue entregar-se com gosto.

A falta de desejo delas tem a ver com o facto de os homens ignorarem aquilo que as satisfaz na intimidade? Numa sondagem feita em Espanha, verificou-se que 10% dos homens, independentemente da idade, afirmavam que procuravam dar prazer às suas parceiras. Perceberam que existem outros tipos de estimulação além do coito. O tempo que dura e as vezes que se faz são aspectos secundários.

A corrida ao orgasmo não é obrigatória...
O melhor é o durante. Muitas mulheres preferem satisfazer-se sozinhas porque não se satisfazem com os parceiros que já tiveram.

A monotonia conjugal é incontornável?
A sedução é uma capacidade que todos temos e requer inovação. Às vezes, basta passar a noite num lugar diferente, outras pode-se ficar pelo prazer de uma simples massagem, sem ter de fazer mais nada. Mas há também o dia em que um pode tocar mas o outro não. Quando se introduz um elemento de diferença, fazer amor ganha um sabor especial.

O que pode comprometer a espontaneidade no sexo?
Já pensou porque é que mais de metade das mulheres não deseja ter sexo com o cônjuge? Porque não se divertem. Nunca aprenderam, não sabem. A vida sexual é um processo que se aperfeiçoa ao longo da vida. Eu mesma, aos 40, gosto de coisas que antes não apreciava e de outras que nem sabia que existiam ou não me atrevia a dizer.

Por exemplo?
As fantasias. Muitas mulheres temem assumir que gostam de se sentir dominadas pelo homem quando fazem amor. Outras até o confessam às amigas, mas não a ele, por recearem que ele fique intimidado. Outras ainda por vergonha.

Que pensa do sexo sem envolvimento afectivo?
O sexo vale a pena se for feito com consciência e se tiver qualidade. Em nome do amor, muitas mulheres têm uma vida sexual sem qualidade. Amor e sexo não são a mesma coisa. O sexo com amor é a melhor coisa. Mas amor com mau sexo não é a mesma coisa.

Que sugere às mulheres que não se sentem sexualmente realizadas?
Que apostem numa atitude mais activa. Não adianta trocar de parceiro, imaginar que vai aparecer o Príncipe Encantado com a fórmula do prazer. A liberdade também é uma conquista pessoal a fazer, aprender a desfrutar-se, a tirar partido de si, e não apenas cuidar do lado cosmético.

Sylvia dixit
• O sexo começa no cérebro (a imaginação é um afrodisíaco)
• Prazer e autocensura não combinam
• A reconciliação com o espelho é vital para se sentir sexy
• Sexo e coito não são sinónimos
• A penetração vaginal não é suficiente (na maioria das mulheres) para alcançar o clímax
• 7 em cada 10 mulheres atingem o orgasmo pela estimulação do clítoris
• A estimulação manual (masturbação) é tão importante como outras práticas sexuais
• Sem conhecer bem o corpo (e o que o satisfaz) não se é dona da sua sexualidade
• Orgasmo e ejaculação masculina não são sinónimos (eles podem ejacular sem ter orgasmo ou alcançá-lo sem ejacular)
• Não há modelos sexuais ideais: cada mulher (e cada homem) deve criar o seu
• No sexo, querer controlar tudo é o mesmo que não se permitir desfrutar e aprender
• Pornografia, brinquedos sexuais, cibersexo e fantasias não são interditos, mas complementos saudáveis do prazer
• O bom sexo (oral, anal, coital) não é algo que lhe acontece mas algo que fazemos com que aconteça

Excerto de entrevista publicada na revista Máxima (2002)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Amizades coloridas

“Queres sair comigo hoje?” Há algumas décadas, a pergunta poderia abrir caminho a uma sequência de expectativas que, na melhor das hipóteses, levaria a um hipotético compromisso futuro e, na pior, se ficaria por uma amizade com futuro incerto.



Por Clara Soares
Amizades coloridas
Fernando e Glória, dois trintões bem-dispostos, livres e urbanos, decidiram sair juntos, sem o grupo de amigos ou colegas de trabalho, para tomar um copo ao final da tarde. Ela, mais cautelosa, sugeriu uma esplanada que sabia não ser frequentada por pessoas conhecidas, “para evitar mexericos”. “Logo ali, dei-me conta de um quê de clandestinidade implícito, mesmo que, conscientemente, não tivesse a intenção de um encontro romântico”, lembra Glória. Repetiram a dose uma semana depois e gostaram daquele novo ritual nas rotinas de ambos, feito de trocas de impressões dos respectivos locais de trabalho, histórias e gostos pessoais, pormenores do quotidiano.


Já lá vão três anos de uma sólida amizade, sem haver propriamente regras definidas. “Às vezes, passava-se um mês em que não nos víamos e tínhamos por hábito manter uma certa leveza nos encontros”, explica Glória. E finalmente, a confissão: “Por três ou quatro vezes, tivemos sexo casual.” Glória já teve dois compromissos duradouros e admite que, de momento, não tem em vista uma pessoa suficientemente interessante para partilhar o quarto. Porém, isso parece não incomodá-la particularmente. “Vivo o momento e sei que ele também faz o mesmo. Ambos sabemos que é só sexo e não queremos mais do que isso – nem passar de amigos a namorados, porque nunca foi esse o registo.”

Este “registo”, que vive das (in)certezas de cada dia, marca cada vez mais uma progressiva faixa de pessoas, que não se privam de ter prazer só porque não têm uma relação (como manda – ou mandava – a regra). E se um deles encontrar um parceiro fixo? Estes encontros “em aberto” terão os dias contados? “Não sei”, responde Glória. A verdade é que não pensa sequer nisso, deixando que o momento dite a regra e aceitando, como até agora, as vontades de cada um, sem se forçar ou forçar o outro. “Às vezes, não é fácil”, conclui. “Mas pior seria se nos privássemos de todo, quando nos apetecer a ambos.”

Há ainda quem vaticine o fim do mito da monogamia – não faltam livros sobre o assunto – e a tónica desloca-se agora para um fenómeno emergente, que dá pelo nome de amizades coloridas. O termo nasceu no Brasil e aplica-se para designar relações em que o compromisso fica de fora. “No strings attached”, dizem os americanos. “Sexo com companhia”, dizem os que conhecem por dentro a experiência, mas que ainda não ousam falar disso abertamente ou usando o nome verdadeiro, como os casos anteriores. Afinal, trata-se de uma minoria que nem sequer foi alvo de estudo estatístico ou qualitativo. Porém, revela-se nas conversas de bastidores com pessoas de confiança, que “não vão dar com a língua nos dentes”, por assim dizer.

As regras do jogo são tácitas e nem todos terão perfil para jogá-las. Uma delas é não assumir, à boa maneira do adultério. Talvez por isso sejam mais comuns em faixas etárias superiores aos 30, quando já se tem uma noção de si mais diferenciada, com mais “calo”, e se passou pela turbulência de amores e desamores.

O médico Pedro de Freitas, especializado em Saúde Mental e Sexologia Clínica, confirma este fenómeno. Nas consultas de psicoterapia a que se dedica há vários anos, alguns dos pacientes mencionam "en passant" este tipo de amizades, que funcionam, no entender dos visados, como complemento de uma vida que se quer bem vivida e sem culpas.

“Não posso traçar um perfil, mas consigo afirmar que são mais frequentes em pessoas entre os 35 e os 40 anos, com percursos profissionais bem sucedidos, que já tiveram um ou mais relacionamentos estáveis e não pretendem continuar nesse registo.” Ao clínico, admitem que se sentem confortáveis em amizades, de longa data ou recentes, que por vezes evoluem para “cenas de cama, frescas, discretas e sem segundos pensamentos” (neste caso, de afectos ou compromisso futuro). A leitura que o médico faz deste padrão “não formal” é a seguinte: o medo de um novo fracasso leva-os – homens e mulheres – a fugir do envolvimento, mantendo a actividade sexual sem amarras, com pessoas que conhecem bem.

www.maxima.pt

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Auto-estima: o que ela pode fazer por si


Não estar a par do vocábulo é estar out. Para que serve e por que se fala tanto nela, como de um parceiro para a vida? ...
Por Clara Soares

Publicado na revista Máxima, Agosto de 2010

http://www.maxima.xl.pt/Conhecerse/DetalheConhecer/tabid/313/itemId/412/Default.aspx

terça-feira, 8 de junho de 2010

O factor «Ex»

O factor «Ex»


by roadhouse blues (blog)


Pouco passava da meia-noite quando entrou em casa. Tomou um banho e enviou a ultima mensagem do dia ao homem com quem estivera a jantar. «Dorme bem, amor. Obrigada por seres quem és». O pior foi mesmo conseguir dormir. Agora sentia na pele as consequências de saber «toda a verdade» sobre o passado do outro.

Quando começaram a andar juntos fizeram um pacto: partilhariam uma política de transparência quanto a assuntos passados. Seria esse o garante da intimidade e aceitação mútua. As tão aguardadas «confissões» dele tiveram um sabor amargo. Por momentos, arrependeu-se de ter tido uma atitude tão «moderna», tão «mente aberta». Por momentos, desejou não ter sabido o quão rotineiras passaram a ser as sessões de ménage a trois que ele afirmava fazer habitualmente com a ex mulher.

Passaria bem sem ter conhecimento das qualidades que mais apreciava nas mulheres que foram um dia suas companheiras de viagem. Valeria a pena ter de ouvir coisas como «gosto de ti, porque não és melga nem ciumenta como a minha ex, que ainda hoje me telefonou»? Agarrada à almofada, o corpo aconchegado entre lençóis, sentiu os músculos a relaxar. Acabava de fazer a descoberta da noite.

«Talvez não seja assim tão saudável saber detalhes da biografia amorosa de quem amo; o passado infiltra-se à mesa e na cama, e ganha o estatuto de amante implacável.» Só então dirigiu os seus pensamentos para ele: era capaz de aceitá-la, sem se afectar com as digressões e devaneios dela com outros homens, em dias que já lá vão? Tomou um comprimido para a ansiedade e entregou-se, por fim, ao silêncio envolvente do sono.

Desafio:
Estará preparado (a) para «toda a verdade» sobre os (as) ex que existiram antes de si? Pense duas vezes antes de decidir fazer o raio X às «vidas passadas» de quem conhece há pouco tempo. Ainda que tal seja entendido como prova de confiança e amor, não deixa de ser factor de desconforto e desilusão. O pior que pode acontecer é ter de digerir a evidência de que afinal não se é o melhor, o mais competente, o único na vida de outro alguém.

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A Sombra

A Sombra




É a nossa mais fiel companheira e contudo pouco sabemos dela. A sombra exerce por isso um forte poder de atracção sobre nós. O filósofo Platão conhecia o poder dessa entidade «fantasma», alcunhada, com alguma propriedade, de «controladora». Na Alegoria da Caverna, o mestre da Antiguidade Clássica fala de prisioneiros que nunca saíram de uma gruta, vendo as sombras de homens no exterior, projectadas pelo fogo, na parede da caverna, e tomando-as por reais.

Quem nunca chega a Ver a essência das coisas – à luz do dia - permanece na ilusão sobre si e o mundo. Na escuridão, na cegueira. No crepúsculo, ficamos mais vulneráveis ao poder da sombra, como sugerem as histórias sobre vampiros, lobisomens e outras figuras cinzentas (agentes secretos, que lidam com coisas ocultas ou informações confidenciais, que não podem vir à superfície). Elas falam de coisas universais e humanas, que se passam «às escuras» e fora do controlo da mente consciente.

O cérebro humano processa 2,000,000 unidades de informação por segundo, mas boa parte desse material não está acessível (não apreendido, intuído). Desejos e medos, memórias, competências que aprendemos, crenças acerca de nós e do mundo, e padrões de comportamento são armazenados no «chip», e surgem, frequentemente, sob a forma de respostas automáticas (temo-las sem dar conta).

Há momentos em que essa sombra - sempre à espera de uma brecha, um ponto de fuga qualquer no sistema de defesas – ganha força e contornos diante de nós: assume o comando e não temos mão nela. O confronto enfurece e intimida, mas traz consigo a possibilidade de despertar. O médico suíço Carl Jung costumava aplicar um exercício nas suas aulas, que consistia em «conhecer a sombra». Os alunos eram convidados a pensar, durante alguns segundos, em alguém de quem não gostassem ou com quem não se dessem bem. De seguida, era-lhes pedido que fizessem uma lista de características desconfortáveis associadas a essa pessoa. Após esta tarefa, as pessoas liam em voz alta as suas anotações. No final, era-lhes dito que esse grupo de tópicos eram, nada mais, nada menos, que o retrato do «lado sombra» de cada um.

Aspectos que detestamos nos outros e nos tiram do sério são muitas vezes aqueles que não conseguimos assumir – ou negamos – em nós. Mas estão lá e são reconhecidos – e projectados – nos outros. Assim se explica, no ponto de vista Junguiano, o facto de manter, por exemplo, uma relação conflituosa ou insatisfatória com alguém, a coincidência de atrair sempre o mesmo tipo de parceiro, de chefe ou de situações problemáticas, quando isso se quer evitar a todo o custo.

Os protagonistas desses «infernos» espelham, afinal, coisas que, sendo também nossas, rejeitamos e «empurramos» para fora de portas, como se nunca nos tivessem pertencido. «O mal são os outros», «Eu sou bom, tu é que não me mereces, porque és mau (ou fraco, etc)», são apenas variações da dualidade humana, tão bem ilustrada na lenda clássica da época Vitoriana, Dr Jekyll & Hyde, ou na saga que envolve o sinistro Joker e o heróico Batman.

O lema «já que não o podes vencer, alia-te a ele» aplica-se ao inconsciente. Aceitar a sua própria sombra é reconhecer o poder (do inconsciente) que habita em nós. Conhecê-la, tratá-la por «tu», e descobrir os segredos que encerra, é a chave para a transformação pessoal.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ser, conhecer-se

A essência do ser é conhecer-se. Evoluir, em vez de mudar.
Ser, para Rainer Maria Rilke, era ser poeta.

Cartas a Um Jovem Poeta (1903) - O seguinte excerto é uma excelente sugestão de leitura para os interessados em psicologia, jornalismo e criatividade.
E a todos o que se envolvem na busca da arte de bem viver.



Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?”

Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde.

Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. (...) relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas.

Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar.

Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida.

Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la.

Talvez venha a ser um artista. Aceite o destino e carregue-o com seu peso e grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.