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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Stresse? É preciso ter calma...

I Diário de alguém 'stressado' 


«Estava a enviar uma mensagem e tocou o telefone. Era o miúdo a dizer que perdeu o comboio e vai chegar atrasado à escola. Vesti-me à pressa e fui buscá-lo à estação, levei-o para não levar falta. De novo o telefone. Já não vou à ginástica, senão chego atrasada à reunião da empresa. Falta comprara prenda de aniversário do marido. Estou com má cara e a sentir-me nervosa.»
(...)
O que é que eu estava a escrever na mensagem? Oh, não! O carro não pega. Já não chegava o facto de ter de levar trabalho para casa e agora isto. O melhor é comprar um bolo, não vou a tempo de fazer o jantar. Queria ter ido às finanças mas não houve tempo. E ainda fiquei de passar em casa dos meus sogros para os trazer para o jantar. Chamo um táxi. Telefone, de novo. É a colega de trabalho a dizer que me esqueci da carteira em cima da mesa. Que dia infernal.»
(...)
Podia ter corrido melhor, o jantar. O meu marido achou que eu estava com má cara. Deve pensar que já não lhe ligo como antes. Não admira, estou a ficar com mais peso, voltei a fumar, esqueço-me de tudo e só me apetece ficar no meu canto e que me deixem em paz. Doem-me as costas e tive uma quebra de tensão. Ando nisto há meses. E tempo para ir ao médico? As vitaminas que comprei não estão a funcionar. E o pior é que o meu chefe diz que ando a produzir menos. Se ao menos conseguisse dormir como deve ser...»

II 'Pssst, está na hora de parar e refocar'

No artigo publicado esta semana, na Revista Visão, fui ao encontro de cinco portugueses que contam quais os ajustes que fizeram para tornar as suas vidas mais leves e compatíveis com o seu modo de ser. Uns optaram por ganhar menos, em troca de mais tempo, outros apostaram numa profissão com horário e local de trabalho flexível. Há ainda os que preferiram investir na sua saúde, disciplinando rotinas - pessoais, conjugais e familiares - para ficaram com algum tempo de qualidade. Sem esquecer os que passaram a incluir no seu quotidiano alguns minutos diários de exercício físico, meditação e treino da atenção plena.
Um investigador da Universidade de Coimbra explica porque é que quando estamos tensos e com emoções negativas, acabamos por ter pensamentos que não correspondem à realidade e, apesar disso, nos afetam negativamente. Ou como o treino mental (atenção plena, ou mindfulness) nos permite restaurar a segurança e a paz de espírito, no meio da adversidade e dos momento difíceis. E aceitar o que não podemos controlar, em vez de sermos reativos e ficarmos piores do que estávamos antes.

Uma médica explica como a compaixão e os afetos conseguem fazer muito mais que a farmacologia, porque nem tudo se resolve com comprimidos, por melhores que eles sejam para nos facilitar a vida. Às vezes, é preciso ter uma experiência limite, como aconteceu com ela, e ir «ao tapete» para mudar de filosofia e investir no que é essencial, sem complicar. ´

Na dose certa, o stresse pode ser positivo, dando-nos o «empurrão» necessário para fazer o que precisamos ou desejamos fazer. Em demasia, desregula, produz sintomas e, se nada fizermos, acaba por trazer dissabores e até contribuir para a emergência de doenças crónicas, incapacitando-nos e atrofiando a nossa qualidade de vida.

III Dicas AntiStresse


Anda com dores ou picadas no peito? Não consegue concentrar-se? Tem dificuldades a relacionar-se com os outros e fica irritável ou frustrado com pequenas coisas? Sente que a sua vida escapa ao seu controlo e tem carga a mais para a sua camioneta? Tem momentos em que se sente em baixo e só lhe apetece fugir ou bater na primeira pessoa que lhe aparecer à frente? Tem reações que não reconhece como suas? Ou desliga a toda a hora, perdendo-se nas preocupações quanto ao futuro ou a ruminar no que já passou?  Não está a ter prazer na sua vida?

Talvez esteja no momento de fazer um ponto da situação e perceber o que pode fazer para «arrumar a casa». Comece por si: reduzir a velocidade, fazer pausas e respirar fundo, até sentir o corpo «arrefecer» facilita bastante e faz com que não entre em piloto automático. A mente também precisa de um «recycle bin». Que tal encontrar um momento do dia para sintonizar no seu próprio comprimento de onda? O que quer que lhe venha à cabeça, pode entrar e sair como entrou, desde que se coloque no papel de observador e, mais importante que tudo, sem tecer juizos de valor. Afinal, se aceitar as emoções negativas sem fazer nada, elas acabam por ser «escoadas» e a carga emocional tende a ficar reduzida.

Investir num passatempo, fazer um pequeno passeio a pé, quando vai despejar o lixo ou passear o cão, pode funcionar como um dois-em-um, ou seja, traz benefícios para o corpo e a mente. Se conseguir fazê-lo depois com um amigo, tanto melhor. Estar atento às suas necessidades é meio caminho andado para fazer o mesmo em relação aos outros e, a boa noticia, desenvolve-se com o treino.

Aos poucos, pequenos gestos que nem precisam de recursos financeiros, podem mudar a sua vida. Isto aplica-se à capacidade de estar presente no aqui-e-agora, ao colocar em pratica a disciplina e a gestão do tempo (delimitar/distribuir com  parcimónia o tempo dedicado aos mails, redes sociais, trabalho, família, etc). Se é um fervoroso adepto dos smartphones, saiba que pode valer-se ainda das aplicações para medir o seu nivel de stresse e outras que lhe permitem aprender a reduzi-lo, em momentos sos. Por fim, qualquer atividade que lhe faça bem ao espírito (da leitura a encontros com gente que partilha os seus ideais), só porque sim, será uma mais-valia para a sua saúde e bem-estar.    

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Our endless numbered days

Faltava algum tempo para a meia-noite. A noite estava fria e chovia. Na rua, o vaivém dos veículos com ocupantes apressados. Em casa, as horas eram saboreadas devagar. O felino ronronava, junto ao aquecedor, enquanto a voz sussurrada de Sam Beam (Iron & Wine)* se fazia ouvir na sala, com volume baixo. Ela deixou-se embalar até ao último acorde e deliciou-se, de seguida, com os trilhos fluidos e imprevisíveis das gotas de água na vidraça.

Ele veio da cozinha com um jarro de vinho e duas canecas de barro e estendeu-lhe uma. Brindaram então aos momentos que marcaram o ano: os bons, os assim-assim e os outros, sem os quais não teria sido possível mudar de rumo e, vendo agora, talvez para melhor. 
«O 13 não chegou a ser um 31, mas por vezes pareceu!», brincou ela. 
«Eu não te dizia que com jeitinho e paciência tudo acaba por compor-se, no tempo certo?», acrescentou ele. Ela levantou-se do sofá. «E qual é o tempo certo? Essa é a pergunta que vale milhões!»

O som do relógio de cuco trouxe um toque de suspense ao momento. O jogo da bisca ainda não tinha acabado. O homem pousou na mesa as três cartas que tinha na mão, naipes voltados para baixo e, em tom de fado, entoou a ladainha: 
«O tempo pergunta ao tempo, quanto tempo o tempo tem...»  
Ela sorriu. E vai de acompanhá-lo, à desgarrada: «...O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem.» Bateram palmas e retomaram o jogo, perdendo-se nas horas. Há momentos de sorte. Ou presentes de graça. Foi então que os ponteiros do relógio de cuco se cruzaram, no sentido norte. Abraçaram-se. Estava frio e chovia. Eram os primeiros acordes de 2014.  
*God, give us love in the time that we have

Primeira ficção do ano, em memória do meu pai, que partiu há 4 décadas e com quem aprendi as artes do tempo (e não apenas da relojoaria e do ouro) .




quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Psicologia Quotidiana

«Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos». 

Annais Nin ficou célebre por estar à frente do seu tempo. Mais do que o estilo inovador da sua escrita erótica, ou a intensidade que acompanhou sempre a sua vida amorosa, no meio literário parisiense (ilustrada na obra, Henri, June and Me, adaptada ao cinema), cativam-me as suas reflexões, o que ela filtrava das experiências quotidianas. Os dias contados à luz da qualidade (e riqueza) singular dessas experiências. A sua marca de água reside na espontaneidade, na intenção e nos afetos.

Nessa altura, ainda não existia a neurociência. A psicanálise sim,  e foi um veiculo precioso, afirmou ela, mais tarde, para o seu desenvolvimento pessoal e, consequentemente, para a criatividade e originalidade da sua escrita. 



De Freud até hoje, algumas coisas mudaram. O foco das investigações na área da psicologia e outras ciências deslocou-se do Inconsciente - que se enraizou e vulgarizou no senso comum - para a Consciência. Para o que se passa num momento presente (em '3D' ou '4G', poder-se-ia dizer, na gíria tecnológica). É um território com várias dimensões ou camadas (e em combinações neuronais quase infinitas), não confinada ao plano intrapsíquico. 

O passado, no sentido psicanalítico, atualiza-se no presente. E o que se passa no momento presente? Quanto dura um momento de experiência significativa, vivido com atenção focada e capaz de mudar o rumo de uma vida em escassos segundos? O que faz acontecer essas «explosões» químicas nos circuitos cerebrais? Como se processam os movimentos das interações (com um outro ou durante uma atividade)? Que leitura se vai fazendo delas, em tempo real? 

A investigação neste domínio (Experience Flutuaction Model) sugere que existe um estado de consciência descrito por experiência ótima (ou de 'fluxo'), caracterizado pela sintonia entre desejos, sentimentos e ação, na relação com o mundo.  Esse estado de consciência (gratificante e pleno) produz elevados níveis de bem-estar psicológico (Nakamura & Csikszentmihalyi, 2002) e pode ser alcançado pelo envolvimento e concentração no que se está a viver enquanto se interage, num dado momento e circunstância.

No meio de tantos gestos e rotinas, aparentemente insignificantes, faz-se um 'click'. Num instante, tudo muda. O significado da experiência subjetiva que emerge nos contextos naturais de vida é que vai determinar os pontos de viragem e transformação. As pesquisas centram-se agora nas flutuações da qualidade das experiências vividas, na tomada de consciência do que nos faz sentir vivos (presentes/conscientes) na relação com o mundo. Entrar em 'fluxo' e promovê-lo, numa perspetiva salutogénica.





mindfulyou.com

No seu tempo, Freud marcou a diferença e deixou um legado revolucionário: a ele se deve o foco no mundo mental e suas «prisões», que estão na base do sintoma. Não é por acaso que uma das suas obras mais icónicas seja A Psicopatologia da Vida Quotidiana. Hoje, a Bíblia das Perturbações Mentais (DSM) continua a ser revista (e a incluir sempre novas «disfunções», para as quais haverá uma nova molécula para prescrever), quase sem reservar espaço para aquilo que chamamos «normalidade»: o ser humano, nas suas singularidades e diversidade. 

Um novo paradigma começa a ganhar forma (ou massa crítica): se é em (na) relação que a «doença» (ou o sintoma) se forja, é em (na) relação que ela se pode «curar». Com outros protagonistas, ou em contextos relacionais mais user friendly (como acontece, por exemplo, num processo psicoterapêutico, mas também noutras formas de envolvimento significativas, onde têm lugar todas as formas de arte e de encontro, onde a empatia e o sentido de si têm lugar para existir).

As plataformas tecnológicas parecem ter um papel decisivo neste processo, por serem pontos de partida e criarem oportunidades (mesmo que temporárias ou experimentais) de contacto, descoberta e, eventualmente, de encontro, promotor de mudança (pela qualidade das experiências ótimas, que promovem «insight» e valem por si). 

Annais iria gostar de saber. 

Psicologia Quotidiana 
No Consultório Social da Visão Solidária, tem um espaço para colocar as suas perguntas (visaosolidaria@impresa.pte acompanhar as respostas.