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quarta-feira, 6 de maio de 2015

«I know I'm not the only one»

No passado dia 28 de Abril participei no programa da TVI A Tarde É Sua, de Fátima Lopes, para comentar as histórias de duas mulheres que viveram o papel de amantes. Elas contam como se sentiram no lugar da «outra», o que as levou a permanecer na situação e a seguir em frente a partir de certo ponto. Clique AQUI para assistir ao vídeo e ao comentário (time code: 17.36)


domingo, 23 de janeiro de 2011

O papel da 'Outra'

Ser amante é descobrir o lado clandestino que há em si e confrontar-se com medos e desejos secretos.


Jill Del Mace, The Secret Lover

Por Clara Soares

“Eu guardo em mim um segredo. Bem escondido de olhares alheios, este ficheiro secreto é parte de mim. Quando estou com ele, vivo momentos afortunados que compensam o frio da ausência, na hora em que ele retorna a casa.” Para Manuela F., de 33 anos, divorciada, é preferível assim. Mãe de uma criança com oito anos, a assessora trabalha a tempo inteiro num parque de tecnologias. Entre as tarefas caseiras e a função de mãe consegue ter raros, mas preciosos, momentos de lazer. E espaço, pela primeira vez desde o divórcio, para sonhar de novo com o braço de alguém ali à mão. Um dia, deu por si a flirtar com o técnico de marketing do departamento onde ela se dirigia, amiúde, para entregar o plano de trabalhos das reuniões semanais com chefias. Por diversas vezes, cruzou-se com ele no refeitório. Renasceu nela o desejo de voltar a sentir aqueles sinais de arrebatamento, os choques hormonais que levam a cabeça até à Lua. “Deixei-me ser vista, desejada, apreciada. Pela primeira vez, concebi para mim que podia ter um caso com ele.” Ou melhor, ser a amante dele, porque, reparou depois, ele já tinha aliança (que é como quem diz, uma “dona”).


“Um amante é um homem em part-time, um vínculo precário, como o dos recibos verdes”, explica Manuela. Com ela, ele só tem permissão para estar no seu melhor. É a regra de ouro que torna suportáveis os danos emocionais da incerteza e da disponibilidade escassa. Não admira que diga: “Não tenho a obrigação de lhe lavar o pijama, de lhe aturar as neuras e de lhe arrumar as coisas”, como que a convencer-se a si mesma de que é preferível viver as leis da atracção em regime de “colaboração” do que na pele de “funcionária do quadro” – a rival que a faz sofrer, nas fases de ciúme vividas em silêncio. Manuela parece egocêntrica, fria. Como ela, muitas mulheres que se envolvem com homens inacessíveis para um compromisso acabam por, sem se dar conta, desenvolver um mecanismo de defesa para lidar com a eventual frustração de ter um parceiro “a dias”, ou melhor, “a horas”. “Não tinha a intenção de viver uma paixão impossível”, confessa. Porém, acabou por se render ao apelo da paixão secreta. “Perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe”, acrescenta. O bem, esse “consolador” de carne e osso, instalou-se de vez nos hábitos diários, tão natural e necessário como o café da manhã.Tudo correria assim, sem sobressaltos, se não entrasse o factor temporal em cena.Quanto mais tempo se mantém um affair, maiores as probabilidades de um dos dois ficar envolvido ou criar expectativas difíceis de realizar, segundo algumas investigações.


Hoje sabe-se que uma paixão dura, em média, de seis meses a um ano. Segundo as teorias evolucionistas, o corpo dá sinais de desgaste a partir deste intervalo de tempo, mostrando-se biologicamente incapaz de gerir a turbulência dos neurotransmissores e hormonas. Ao fim de algum tempo, uma relação tende a “defender-se” biologicamente dos efeitos do stress passional, mudando o seu registo: o casal entra numa fase estabilizada, mais serena e sexualmente diferente. Aí começam os problemas. A regra de ouro da candidata a “amante” é nunca se envolver. E quem infringe a regra também se candidata a ter muitas dores de cabeça e ressacas de desilusão. Ou não.A amante realista, mesmo sem o saber, é o porto de abrigo, o amortecedor de uma relação conjugal (que se mantém porque é compensada fora de casa). A amante idealista tende a cair no papel de vítima, sonhando com o que não pode ter e punindo-se por não conseguir ser amada. A esta, resta-lhe fazer aquilo que mais teme: renunciar ao triângulo, desistir de lutar (o amor dispensa luta), libertando-se assim do fardo da culpa.

Amantes

Honoré de Balzac disse que é mais fácil ser amante que marido (ou esposa): “É mais fácil ser oportuno e engenhoso de vez em quando do que todos os dias”.

As amantes dividem-se em duas categorias: as libertinas, dadas a viver intensas paixões; e as infractoras (que se envolvem com homens descomprometidos, estando casadas, ou se envolvem com alguém que tem aliança).

www.maxima.pt (in MSN)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Amantes


Amantes são os que amam,
Os que nem sempre se amam,
E aqueles que trocam de pele em segredo.

À boleia dos sentidos,
Entram em transe,
Saem de si.

Há um instante para cada amante,
Fragmentos de fúria, paixão,
E, sempre, a dissolução desarmante.

A chama que aquece, consome,
Nem sempre tira a fome,
O impulso de fugir ou magoar.

Pode não ser brilhante,
O amante,
Na sua sensata nudez.

Pode nem fazer amor,
Nem render-se ou conquistar,
Sem que sinta falta de ar.

Amar é um estado líquido.
Sabe-o todo o militante:
O importante é ser amante.

domingo, 30 de novembro de 2008

«Hoje deixei-te»


















Levantou-se, decidida, pegou nas malas que estavam escondidas no armário e deixou-as junto à porta do seu quarto. Saiu sem fazer barulho. Aquela tinha sido mesmo o encontro da despedida. Ele não o sabia. Ela sim. Na cave dos amores proibidos, as senhoras têm a última palavra. O ponto final é delas.

Maria sempre se viu como uma mulher «ponto e vírgula»; entrava em greve de sms e bloqueava o número do amante sempre que ele a desapontava; mas depois de sarados danos e amargos de boca, dava por finda a fase higiénica das «reticências». Saía do modo em stand by e voltava a entrar em cena, pronta a retomar essa espécie de jogo a que uns chamam vício e outros destino.

As rotinas de outros dias voltavam em força: a sala do escritório a horas tardias, o parque de estacionamento, a casa dele quando a legítima não estava, o motel à hora de almoço. Outras vezes, quando a reserva de tolerância chegava ao fim, prolongava os períodos de carência e desforrava-se nos cigarros, no trabalho, nas idas ao ginásio e, quando o orçamento permitia, a uma gratificante massagem. E proibia-se de ver a série Anatomia de Grey.

A bola ficava então do lado dele. Cada reconciliação funcionava como uma espécie de upgrade, onde o refinamento era norma: um fim-de-semana a dois, durante um congresso noutra cidade; um anel, um relógio; a mala de marca certa; o perfume das ocasiões especiais. Ela retribuiu. Acolheu-o finalmente na sua casa, entregava-lhe com agrado os comandos dos equipamentos hi-tech enquanto estavam no sofá. Enquanto mulher «ponto e vírgula», deleitava-se com a intensidade - e a ilusão de romance com futuro - destes vaivéns incertos.

Nada lhe parecia mais interessante que o sabor da impossibilidade que a desafiava a estar viva e a testar as suas capacidades de sedução e entrega ao limite. «Amo-te assim, furiosa e submissa, porque nunca serás meu». A cada tentativa de despedida, de derradeiro adeus, conspirava «Sim, vou deixar-te, mas não hoje».
Até que um dia fizeram amor em estado líquido, atingiram o nirvana, esse estado de graça que liberta de todos os desejos e da existência individual. Por alguns instantes, ao menos. Uma petite mort que ela não apagaria da memória. Momentos depois, acordou com ele a sonhar em voz alta. Passou suavemente a mão pelo peito do homem satisfeito.

Ele suspirou, e da sua boca saiu o nome da companheira oficial. Nesse instante, levantou-se, decidida.
Pegou no telemóvel do amante, foi à lista de contactos e apagou o nome «Manuel», que correspondia a si própria. E prosseguiu, tal como tinha planeado, para quando o vida lhe desse um sinal de que tinha chegado a hora. Colocou os dois móveis em modo silencioso e mudou a configuração da identidade do seu para «desconhecido». Enviou-lhe uma mensagem. A última palavra.

Pegou nas malas, feitas há três dias e criteriosamente escondidas no seu armário. Abriu uma delas, inseriu os pertences pessoais dele que ainda faltavam: a máquina de barbear, o perfume, o relógio, a escova de dentes. Puxou o fecho. Com uma ponta de vingança e súbitas palpitações de prazer. Deixou tudo à entrada da porta e sentiu-se senhora do seu destino. Saiu sem fazer barulho. Não sem antes levar consigo a cópia da chave do apartamento, que ele guardava na carteira. «Fui», disse.