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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os segredos da solidão II


A história de Emily White


Uma advogada sem filhos, a quem nunca faltaram amigos e interesses, passava a maior parte do tempo por sua conta. O problema era a permanente sensação de desligamento face ao que estava à sua volta, sobretudo a partir dos 30 anos. Emily investigou o assunto e escreveu um livro onde revela estudos, testemunhos e relatos na primeira pessoa. Depois de experimentar fármacos contra a ansiedade e depressão, fórmulas herbais, uma linha telefónica de aconselhamento e hipnose, a autora continuava sem perceber a razão de tanto desconforto. 
Recorreu à psicoterapia. Nas sessões, tomou contacto com a raiva não expressa em criança, por sentir-se distante ao lado de um pai de fim-de-semana e de uma mãe sozinha, com a qual se veio a identificar em adulta. As as suas escolhas de vida - decidir não ter filhos, um trabalho solitário e uma morada remota, longe da família – espelhavam isso. Aos 40 anos, aventurou-se numa vida a dois. 

Após quatro anos mergulhada no problema, Emily avançou para as conclusões:

  1. «Quem se sente só raramente o admite, por sentir culpa ou vergonha [que só complicam].»
  2. «Na nossa cultura [tecnológica], passamos cada vez mais tempo sozinhos. Paradoxalmente, impele-nos para uma socialização ativa a todo o custo.»  
  3. «A relação amorosa não mudou o hábito de pensar-me como solitária (…) mas preciso do conforto que pode ser dado por outra pessoa.»
Considerações

Medir comportamentos é próprio do método experimental, usado na investigação psicológica. Um teste deve servir para refletir, mais do que classificar.

Fazer um teste é um convite à auto-análise. Para responder ao que mede a solidão, passei inevitavelmente por memorias de me ter sentido e me foi difícil admiti-lo.


Socializar é desejável, mas estar em grupo, numa base regular, exige uma boa dose de adaptação e dispêndio de energia. 

Alternar o convívio com períodos de isolamento e contemplação, se eles revigoram e inspiram, parece sensato (sobretudo antes de tomar decisões ou após um intenso período de trabalho!)

(cont.)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Os segredos da solidão I


«Mais vale só.» Depende. Do que é, para cada um, estar «mal acompanhado». Se a «má companhia» for alguém com quem se tem uma relação doentia e tóxica, o melhor é fechar contas e dar crédito a necessidades próprias. Quando a sensação de ficar entregue a si mesmo, numa espécie de desamparo sem causa óbvia, se afigura desarmante, a «má companhia» somos nós.

Como viver com os nossos «buracos negros»?
A era da hiperconetividade e do telefone smart tem vantagens preciosas, mas não substitui um abraço, um jantar caseiro ou uma «escapadinha a dois», como prometem os sites de descontos em voga. A possibilidades de interagir sem fronteiras pode valer muito pouco se, mesmo numa sala cheia, tudo parecer distante, superficial e vazio de sentido. 
O Estrangeiro (título do Nobel da Literatura  Albert Camus (1957) é o outro e somos nós. No lançamento da obra póstuma do escritor e pensador, a partir de manuscritos não editados (The First Man), a filha de Camus revelou ao Nouvel Observateur como foi sentir-se invisível, quando ela era ainda criança: «Encontrei o meu pai sentado na sala, a cabeça entre as mãos. Disse-lhe: ‘Estás triste papá?’ Ele levantou a cabeça, olhou-me nos olhos e respondeu: ‘Não, estou só.’ Isso revoltou-me tanto! Eu não sabia como dizer-lhe que comigo ele não podia estar só’». 

Brian Marki Fine Art - L'Étranger I - Oil on canvas 

Quem é o estrangeiro? O estranho em cada um de nós? Quando abri o livro Solidão (Pergaminho, 16,60€), de Emily White, fui surpreendida, na primeira página, com um teste. Respondi aos 20 itens da Escala de Solidão da Universidade da Califórnia. Antes de mergulhar nas 317 páginas que tinha em mãos, segui as pistas apresentadas nas referências finais, googlei e obtive uma interpretação mais completa do resultado: «Você é uma pessoa solitária e provavelmente sabe disso. Se não lhe causa incómodo, é possível que esteja apenas a racionalizar o problema, a inventar desculpas para não enfrentá-lo.» 

(cont.)