terça-feira, 31 de maio de 2016

Snapchat: Identidade Instantânea?


O programa "Central Parque", na RTP 3 (de 28 de maio, 2016), sobre tendências multiplataforma, foi dedicado ao Snapchat. A migração de jovens para redes sociais onde a privacidade e o efémero se conjugam, é uma tendência que está a ser estudada pelos investigadores sociais e pelas marcas, que querem perceber e captar este segmento de mercado.



Os nativos digitais cresceram na sociedade globalizada e sentem-se à vontade a saltar de rede para rede, interagindo em cada uma consoante as preferências do momento. Eles, a geração que valoriza mais o acesso do que a posse, usam os canais de comunicação visual - privada e temporária - como meios para estabelecer contacto, viver o momento e sem o lema "para guardar" ou "para mais tarde recordar".


  • Que impacto tem o uso do Snapchat e outras aplicações de mensagens privadas (ou em grupos restritos) na nossa forma de estar e, até, de ser?  
  • A velocidade e o esquecimento andam de mãos dadas? 
  • Será esta geração uma geração sem memória (ou com uma memória fragmentada)?
  • Que efeitos tem na Identidade o apagamento automático dos conteúdos pessoais partilhados? 
  • E como dar a volta à ansiedade associada ao estar sempre no momento, sem paragens?
  • Será preciso voltar ao modo (ou moda) "slow", para que as experiências vividas tenham alguma espessura, ou seja, algo que permaneça e devolva um sentido se si mais coeso?

   Para saber mais sobre estas e outras questões, assista ao programa, para o qual fui convidada, juntamente com Joana Carravilla Veja o Vídeo

Ansiedade, Minha Companhia

Somos o país europeu com mais casos diagnosticados de ansiedade e com as doses mais elevadas no consumo de psicofármacos. Para este flagelo contribuem, em parte, o envelhecimento da população e as circunstâncias de vida (separações, desemprego, precariedade), mas o principal “vilão” parece estar na prescrição e no consumo excessivo de medicamentos. Desde que a Direção Geral de Saúde adotou as orientações internacionais, há cinco anos, que a classe médica conhece o período de referência máximo para toma de ansiolíticos (três meses), largamente ultrapassado, como comprovou o estudo realizado pela da DECO, em 2013: um quarto dos 2 069 inquiridos consumia-os (por vezes, durante mais de um ano) e um em cada quatro exibia sinais de dependência.

Como é estar na pele de quem sofre de ansiedade? Ana Clara Ramos (ao centro) vive com esta perturbação há duas décadas e conta como tem gerido os momentos mais críticos e o que aprendeu com isso e o que faz para manter e, até, melhorar a sua qualidade de vida. Com ela, a psiquiatra Teresa Leonardo, que traça o perfil da doença Veja o Video

Limitar consumo sim, mas...
O diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, defende que é urgente inverter a tendência, investindo nas boas práticas médicas (redução da prescrição e formação dos clínicos) e na limitação de incentivos ao consumo (reduzindo as comparticipações, que hoje já têm um limite de 37 por cento). Estamos a falar de benzodiazepinas (BDZ), prescritas para combater sintomas ansiosos, mas “que são altamente viciantes e cujo abuso têm efeitos nefastos nas funções mentais e psicomotoras, a curto e médio prazo”, lembra o psiquiatra Ricardo Gusmão, presidente da EUTIMIA – Aliança Europeia Contra a Depressão em Portugal. O médico refere-se aos casos de “défices cognitivos e demências que deixam de existir após o desmame das BDZ”, bem como aos acidentes de viação e às fraturas por quedas.
“Temos um grave problema de saúde pública e estamos na linha da frente entre os países da OCDE, em matéria de doses diárias de consumo de psicotrópicos”, acrescenta Ricardo Gusmão. Entre as medidas que estão a ser ensaiadas para alterar este cenário, destaca-se um programa de desabituação, promovido pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Resta saber como o Ministério da Saúde vai separar o trigo do joio (real necessidade de toma v.s. abuso) e que recursos vai alocar para este fim (profissionais de saúde, psicoterapias).

terça-feira, 10 de maio de 2016

Educar pelas Emoções

(publicado no site da revista Visão a 9 de maio de 2016)

No jardim-de-infância da escola Pedro Álvares Cabral, no concelho de Oeiras, crianças de quatro e cinco anos movimentam-se na sala e falam entusiasticamente umas com as outras, enquanto brincam, na companhia uns dos outros ou, como também é frequente, concentrados em coisas só deles, sob o olhar atento da educadora, pronta a responder aos vários apelos dos miúdos. Além deles, há duas presenças muito especiais na sala: o Nino e a Nina. Não sendo de carne e osso, eles fazem parte deste grupo desde o ano passado, altura em que a educadora Isabel Dias, ou Bé, como lhe chamam os pequenos, os apresentou ao grupo: “Estes dois meninos, que são de outra escola, enviaram uma carta a dizer que vos querem conhecer.” O contacto com estes protagonistas e as suas histórias e formas de comportar-se tem ajudado estas crianças a conhecer e a lidar com as suas emoções. Atestam-no os desenhos pendurados nas paredes da sala, onde os bonecos aparecem tristes, alegres ou zangados e a fazerem coisas como “esperar pela sua vez” ou “partilhar as suas coisas”.
Desde que o programa Nino e Nina, da associação Prevenir, entrou em funcionamento, em 2006, que a socióloga Lorena Crusellas e as psicólogas Marta Costa da Cruz e Margarida Barbosa se desdobram em contactos e ações de formação em escolas portuguesas e espanholas. A avaliação qualitativa realizada em escolas dos concelhos de Cascais, Oeiras e São João da Madeira, com crianças do pré-escolar e ao longo de dois anos, revelou melhorias significativas (entre os grupos experimental e de controlo) em todos as variáveis medidas: autocontrolo, diferenciação emocional, autoestima e competências sociais. A iniciativa envolveu 600 educadores e 15 mil crianças e a equipa quer ir mais longe. “Temos acordos com autarquias, colégios privados e patrocínios de empresas e o nosso objetivo é alargar o projeto a Espanha”, explica Marta Costa da Cruz. De resto, os resultados da experiência replicada recentemente no país vizinho, por Lorena Crusellas, a fundadora da Prevenir em Portugal, vai no mesmo sentido, como a própria confirma: “Os educadores observaram mudanças a curto prazo nas crianças, manifestas em condutas de cooperação e no reconhecimento dos sentimentos próprios e dos outros.”

Luis Coelho

VER, FAZER, SENTIR

Voltando ao Bairro dos Navegadores, em Oeiras, é chegado o momento para fazer uma pausa e, falando em 'psicologuês', regular emoções. “O Nino e a Nina estão aqui mas nem precisam, porque eles (as crianças) já interiorizaram o que fariam no lugar dos bonecos”, esclarece a educadora Isabel Dias, já depois do exercício de relaxamento. Minutos antes, o grupo, sentado em círculo, respondia ao apelo da Bé. “Como ficam o Nino e a Nina quando não respiram, lembram-se? Ficam com o corpo apertado… Como é que se respira?” Nariz, boca, peito, barriga… os miúdos vão sossegando, alguns soltam alguns bocejos até, com os olhos fechados e atentos ao que se passa no corpo. “Podemos fazer isto quando estivermos zangados”, vai dizendo Isabel. Terminado o exercício, Isabel conta o caso da criança a quem “a Nina a fez perceber que não precisava de morder os outros”. E o de outra, que era agressiva e rejeitada pelos colegas, que mudou da noite para o dia quando, individualmente, eles fizeram o jogo dos óculos mágicos, feitos de cartolina (incluído no guia de competências). “Mal os colocassem, só podiam falar coisas boas da colega; muitos ficaram-se pelos atributos físicos mas só isso bastou para mudar para melhor a relação entre eles”, remata a educadora.

Psicóloga Margarida Barbosa, da Associação Prevenir
Psicóloga Margarida Barbosa, da Associação Prevenir
Luis Coelho

NOVOS RUMOS

Nestas sessões semanais, com a duração de hora e meia, os bonecos – muitas vezes feitos com a colaboração das famílias – funcionam como veículo na relação entre os educadores e os miúdos, que se identificam com as vitórias e os problemas do Nino e da Nina – eles também se sentem ofendidos, com raiva, com medo –, tão parecidos com os seus. Não raras vezes, são detetadas situações de crianças em risco que requerem o acompanhamento das mentoras do projeto. A aposta da Prevenir passa também pelo treino da resiliência, que é feito no terreno, com os educadores e a colaboração dos pais, a quem são fornecidas dicas para reforçar comportamentos positivos (caderneta com estrelas) em casa. A psicóloga Margarida Barbosa explica: “Descobrem outras formas de dar a volta a um problema, sem ser isolar-se ou bater noutros, quando se sentem, por exemplo, provocados ou ignorados”. Foi o caso do miúdo que face ao facto de as irmãs não o quererem a brincar no quarto delas, deixou de importar-se com isso e aprendeu a fazer outra coisa que lhe apetecesse, como pintar. Ou o caso da mãe que dizia ficar triste quando os filhos choravam ou estavam doentes e tristes: após o programa, o seu registo era outro: “Procuro alegrar esses dias e sei que está tudo bem quando os vejo sorrir”. No final, são também as famílias que ganham outra consciência, deles e dos filhos, que lhes permite desmantelar velhos hábitos e fazer diferente. Melhor e mais saudável que antes. Sobre a azáfama da equipa da Prevenir, de escola em escola, pelo Continente e Ilhas, Margarida Barbosa comenta: “Este projeto implica esforço, mas os frutos compensam.”
NINO E NINA: MENINOS COMO NÓS: VEJA O VÍDEO (VERSÃO ORIGINAL EM ESPANHOL) - no site da VISÃO

ELAS SÃO NOSSAS AMIGAS


Isabel Soares criou a coleção de livros Dra Catita, dirigida a educadores
Isabel Soares criou a coleção de livros Dra Catita, dirigida a educadores

Seis personagens com o nome de emoções. E formas simples de aprender a viver com elas. A coleção Dra Catita, lançada no ano passado, é uma ferramenta auxiliar para os educadores do ensino pré-escolar e básico e inspirou-se no trabalho da psicóloga educacional Isabel Soares com crianças institucionalizadas: “Os Catitas têm sempre duas faces e é importante compreendê-las e geri-las desde cedo.” E a brincar. A autora exemplifica: "A Alegria sabe bem mas é preciso controlá-la para não ser demais; o Medo que aparece durante as trovoadas e quando estamos no escuro, está na nossa cabeça." Livros que fazem lembrar o filme Divertida(mente), mas para usar na escola com os mais pequenos.

VIII Encontro Anual da AP - O Estranho

O auditório do CHPL encheu. O Tempo - para uns, o mestre que ensina pela prátic, para outros um conceito abstrato - pareceu claramente pouco face ao tanto para dizer, o muito para escutar e outro tanto para partilhar. 
Foi um prazer ter colaborado na organização deste evento e, mais ainda, ter acesso a múltiplas abordagens de um tema que sempre cativou desde criança e, ainda hoje, me parece fundamental, em tempos de globalização e de standardização. É na abertura ao diferente e ao que nos é estranho, ou estranhamente familiar, para usar a terminologia freudiana, que residem as sementes da mudança, do crescimento e da evolução criativa. 
 




sexta-feira, 18 de março de 2016

O Estranho I - The Strange I



Music: Lykke Li, Interview With the Subconscious

Challenging & Impressive, this piece of work, from a songwriter I follow (and who comes often to Portugal, Faz Fato, Algarve, in a house where I´ve stayed, through bnb, for a short summer holiday).

It captures the essence of "The Strange", a theme Freud studied, and also the focus of ENCONTRO ANUAL DA AP - April 16Th, Lisbon - Anfiteatro Hospital Júlio de Matos. 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Tributo a Bowie

David Bowie (1947 - 2016)
10 de Janeiro: o dia em que escrevi e partilhei este 'post'

Hoje, aproprio-me do título de José Luis Peixoto. "Morreste-me". Hoje, como ontem e amanhã, habitas em mim. Em adolescente, encantava-me com “We can be heroes, just for one day” e questionava-me, contigo, em dias sombrios, sobre se haveria vida em Marte. Rendi-me muitas noites ao teu “Absolute Begginners”, a “Changes”, a “Modern Love”.

Fascinavam-me as tuas metamorfoses, a disrupção (palavra que tanto se usa hoje). Os olhos felinos, cada um de sua cor. A sobriedade britânica. O impacto emocional daquela performance no filme “Fome de Viver” ou do tema “This is not America”. Mas era o poderoso “Putting Out Fire” (banda sonora do filme “Cat People”) que me provocava arrepios. Quase tantos como “Under Pressure”.
Se tivesse que eleger uma das canções a que mais volto, em adulta, não teria dúvidas. Volto sempre ao teu magnífico “Wild is the wind”. Esse lugar seguro, onde lembro a mim mesma: “Don't you know, you're life itself?”
Somos todos criaturas do vento. Os visionários, sobretudo. Capazes de compor um “Space Oddity”. Mantiveste secreta a tua batalha final. Fizeste-me sentir um estranho abalo ao ouvir “Lazarus”, do álbum Blackstar, Era noite e eu conduzia até casa.
Cumpriste o destino das estrelas que, como as velas, brilham e são luz até ao fim. “Planet Earth is blue and there´s nothing I can do”. Por isso, David, ou melhor, Pássaro Azul (tu, que já foste tantos outros), estou grata pelo teu legado à Humanidade. E vem-me esta vontade de desejar-te uma boa viagem interestelar, no registo em que me ensinaste: “Now it's time to leave the capsule if you dare / Check ignition, and may God's love be with you”.

David Bowie (1947 - 2016)
January 10th: the day I wrote and shared this 'post'











Today, I make mine José Luis Peixoto book title. “You died on me”. Today, as yesterday and tomorrow, you live inside me. As a teenager, I was enchanted by "We can be heroes, just for one day" and in dark days, I questioned, like you did, if there was life on Mars. For many nights I surrendered to your "Absolute Beginners", to "Changes", to "Modern Love".
I was fascinated by your metamorphosis, by the disruption (word most used nowadays). By the cat's eyes, each of his color. By the British sobriety. By that performance in the movie "The Hunger" or the theme "This is not America" produced an emotional impact on me. But it was the powerful "Putting Out Fire" (soundtrack of the film "Cat People") which caused me chills. Almost as many as "Under Pressure".
If I had to choose one of the songs to which I return more often, I´d have no doubts. I always come back to your beautiful "Wild is the wind". This safe place where I remind myself, "Don’t you know, you're life itself?" We are all creatures of the wind. Visionaries, in particular. Those who have the ability to compose a "Space Oddity". So, you've kept secret your final battle. You´ve made me feel a strange shock while hearing "Lazarus", from the Blackstar album. It was night and I was driving home.

You fulfilled the destiny of the stars. Like the candles, they shine and light till the end. "Planet Earth is blue and there's nothing I can do." So, David, or better saying, Blue Bird (you, who were so many others), I am grateful for your legacy to mankind. And now comes this will to wish you a good interstellar trip, in the register you´ve taught me: "Now it's time to leave the capsule if you dare / Check ignition, and may God's love be with you."



terça-feira, 24 de novembro de 2015

Marta Carwford: "As pessoas estão confusas, não sabem o que querem"

Dez anos depois do programa de televisão AB Sexo, Marta Crawford fala do seu novo projeto, da campanha de crowdfundinga na plataforma IndieGoGo e faz uma análise da forma como evoluiram, numa década, as práticas e costumes na vida privada dos portugueses


domingo, 22 de novembro de 2015

A batalha pela perfeição: porque estamos todos nela?

Agulhas, laser, bisturi. Numa sociedade glorificadora da imagem, cada vez mais pessoas recorrem a estas 'armas' de combate para apagar as marcas do tempo - e cada vez mais cedo. O recurso à medicina estética deixa de ser exceção para começar a ser a norma

Publicado na Revista Visão 

Rita Charon | Bodies, Stories, and Selves: How Narrative Saves Lives |

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

'Será que todos precisam de ver o que coloca nas redes sociais ou está só a fazer ruído?'

O especialista em tendências digitais emergentes e colaborador da revista Wired Klint Finley explica como é possível não nos perdermos no caos das tecnologias que nos complicam a vida, quando a ideia é facilitá-la. "É preciso interagir com a tecnologia de forma mais sábia e sustentável", avisa

Publicado na  Visão a 20 de Agosto.2015


Não sabe o que é a consciência digital? Então fixe este nome: Klint Finley. Formado em comunicação e media, o jornalista americano especializou-se em tecnologias de informação enquanto fazia trabalhos em part time num laboratório de computação. Assim que acabou o curso, dedicou-se a escrever sobre temas tão diversos como startups, cultura hacker, Internet das Coisas, privacidade e neutralidade na rede. Colaborador da revista Wired e colunista noutras publicações do género, faz incursões na ficção e na música (noise art) - "a minha catarse pessoal" - assumindo a sua faceta autodidata. "Estou sempre à procura de ideias novas", esclarece o freelance, que vive com a mulher e dois gatos numa pacata zona residencial de Portland, no Oregon.
Fomos ao seu encontro para descodificar o conceito Mindful Cyborgs (ciborges - híbridos com partes orgânicas e cibernéticas - conscientes), título do podcast (programa de rádio online) de que é co-autor. Estabelecido o contacto, via Skype - final da tarde em Lisboa, início do dia em Portland - a primeira impressão foi a de estar na presença de uma mente inquieta: acabado de acordar, caneca de café numa mão e a concluir a ligação de um cabo com a outra. Momentos depois, e no tempo estipulado para a nossa conversa,  Klint deixou pistas para conquistarmos literacia digital e viver com equilíbrio na era da quantificação e da aceleração.   

Como surgiu a ideia do programa?
Quando eu e os outros dois autores (ver caixa) nos conhecemos num evento sobre a relação dos humanos com a parafernália que têm ao dispor para monitorizar as suas vidas. Fizemos um videochat ao vivo, na Wired, e dessa experiência nasceu a ideia de um programa cujo foco fosse questionar o que a tecnologia faz as nossas mentes, como muda a forma de perceber e pensar o mundo e discutir novas formas de lidar com o excesso. Em cada edição, acabamos com mais perguntas que respostas. 

Pode dar alguns exemplos dessas perguntas sem resposta? 
Até que ponto os media sociais contribuem mesmo para termos relacionamentos com mais qualidade ou os torna superficiais. Há 30 anos a relação fazia-se um a um, por carta, telefone. Hoje estamos a toda a hora com outros, que não os que estão a nossa frente, sem ninguém em exclusivo. Se um smartphone nos impede de desfrutar de uma experiência de modo mais pleno ou de pensar mais profundamente. Se devemos viver sem culpa o tempo que estamos online, como defende Alex Pang [tecnoentusiasta da universidade de Stanford, autor do livro Contemplative Computing], e usar a tecnologia como agente de serenidade e não de distração.  

Como pratica o uso consciente da tecnologia na sua vida?
Sou parcimonioso na informação que partilho. Apaguei a aplicação do Twitter do meu telefone, vou lá pelo website. Faço meditação diariamente. É preciso interagir com a tecnologia de forma mais sábia, para gerir a pressão e tomar decisões em ambientes complexos de forma humanamente sustentável. 

Que pistas pode dar para ter uma convivência saudável com o mundo digital
Respeite o espaço mental dos outros, nas redes sociais. Será que todos precisam de ver ou ler o que lá coloca ou só está a fazer ruído? Use uma parte do dia para estar só consigo. Se não consegue moderar o uso da tecnologia, pense numa forma de não depender dela e, em vez de repetir-se, ocupar-se com coisas mais criativas. 
Quem são os Mindful Cyborgs?


Klint Finley, jornalista especializado em tendências e tecnologias emergentes, ficcionista e músico

Sara M. Watson, crítica de tecnologia e investigadora no Berkman Center for Internet and Society (Harvard)

Chris Dancy, vice presidente da empresa Healthways, em Nashville e consultor na área da quantificação do self (conhecido por ser "o homem mais ligado na Terra")

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Superar Crises, Começar de Novo

Como começar de novo, quando o céu se abate sobre nós? É possível que nos venha à mente algo semelhante à questão «Can you see the real me?», como cantava Pete Townshend, da legendária banda The Who. Qual a fórmula para voltar a ter esperança, sem medo de cair de novo e ficar entregue ao desamparo, no meio da multidão?

O filme que vi há dias, data de 2007.  Reign Over Me (Em Nome da Amizade, em Portugal), do argumentista e realizador Mike Binder, tem como chamada de cartaz a frase «Let in the unexpected» e conta a história de dois amigos de universidade que se cruzam, bons anos depois, ambos em momentos de crise.


Alan (Don Cheadle), com uma excelente carreira em medicina dentária, uma família feliz e um estilo de vida luxuoso, vive angustiado pela falta de propósito e liberdade. Charlie (Adam Sandler), o seu antigo companheiro de quarto, com a sua vida desfeita, após a morte da mulher e das três filhas, no ataque terrorista do 11 de setembro. A incapacidade de sentir gratificação e desfrute de um e o processo de negação do outro equivalem a duas faces da mesma «tragédia» existencial.

A intensa e perturbadora relação entre ambos - e as diferenças de personalidade que os separam mas complementam - vai tornar possível, de forma inesperada, a emergência de uma versão mais genuína de si mesmos. Charlie aceita procurar ajuda clínica - e arriscar-se a confiar num(a) desconhecido(a). Alan abre-se a uma forma de se conduzir-se radicalmente diferente, porventura mais arriscada, mas certamente mais plena.

                                                           Liv Tyler, no papel de Terapeuta
Nada disto é isento de dúvidas, medos, frustrações e sentimentos avassaladores. Fugir-lhes e tentar esquecer o que magoa, seria renunciar à tomada de consciência, por vezes demasiado dura de suportar. É o que muitas vezes acontece, na vida real. Porém, confiar no processo tem o mérito de manifestar-se, com frequência, em melhores escolhas e ser capaz do impensável: largar becos sem saída, zonas de (des)conforto familiares. «Mais valem os males que conhecemos».  

Pouco importa se foi a atitude disponível e empática da terapeuta, a convicção persistente do amigo na capacidade de superação de «um caso perdido», ou referências musicais partilhadas entre os dois que funcionaram como a «tábua de salvação» e o passaporte de Charlie para um lugar seguro, à prova do caos que quase o conduziu a um desfecho fatal.  

                                           Ver Vídeo: The Who - Love Reign Over Me (1973, álbum Quadrophenia)  
A banda sonora acompanha os diferentes ritmos e ambientes da ficção.  tem esse potente efeito, protetor e catártico, apenas comparável ao que podemos sentir na diversidade e intensidade dos movimentos do mar. Entrar no mundo de alguém, especialmente quando atravessa uma fase de grande perturbação, conseguir conter-se e conter, ficar de pé quando se lhe atira «o barro à parede», é ver mais além, mar adentro. É dessa disponibilidade e entrega, à prova de obstáculos, que se experimenta a plena sensação de estar desperto, livre para ser quem se é (e não é), Na vida, na amizade, no amor.




sexta-feira, 24 de julho de 2015

A vida depois da morte de um filho


A hospitalização da jornalista Judite de Sousa, após ter sido encontrada inconsciente no passado fim de semana, mereceu a republicação de um artigo que escrevi para a revista Visão, aquando do trágico acidente fatal do seu filho, no inicio de Julho do ano passado. 
Em A Dor Sem Nome, pode encontrar testemunhos de quem sofreu a perda - a morte - de um filho, uma das mais duras experiências que se pode ter e a palavra dos profissionais de ajuda que contactam com estes casos na sua prática clínica. 


Pormenor de "A Tragédia", Pablo Picasso

Reprodução

No final, uma mensagem comum aos que são próximos: mesmo que o tempo não cure a ferida, ele é crucial para minimizar a dor. Ou seja, por melhor que seja a intenção, a última coisa que alguém que atravessa este luto é incentivá-lo(a) - pressioná-lo(a) a seguir em frente, saltando etapas.       

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Down The Royal Road

Na quinta dimensão em que entramos, quando adormecemos, tudo é possível. Seguindo o lema de Freud, para quem os sonhos eram a estrada real para o conhecimento do inconsciente, o psicólogo e artista audiovisual Carlo Patrão atreveu-se a explorar estas bandas (largas) e produziu um trabalho inédito, em que tive oportunidade de participar, como psicoterapeuta da AP.
São 28 minutos, onde há lugar para relatos de sonhos, teorias sobre eles e acerca de como podem constituir uma experiência pessoal transformadora, dentro e fora do contexto terapêutico.
Divulgado a 9 de Abril na rádio londrina Resonance FM, esteve igualmente presente no Borealis Festival (Noruega) e na Radiopherina, estação de rádio de arte temporária do Glasgow Centre of Contemporary Arts. Para desfrutar no blog Zepelim ou na Soundcloud


quarta-feira, 6 de maio de 2015

«I know I'm not the only one»

No passado dia 28 de Abril participei no programa da TVI A Tarde É Sua, de Fátima Lopes, para comentar as histórias de duas mulheres que viveram o papel de amantes. Elas contam como se sentiram no lugar da «outra», o que as levou a permanecer na situação e a seguir em frente a partir de certo ponto. Clique AQUI para assistir ao vídeo e ao comentário (time code: 17.36)


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Kurzweil, o visionário (quase) imortal

(publicado na revista Visão - edição especial Visão Futuro. 26.02.2015)

Famoso pelas suas descobertas e previsões, multipremiado inventor americano Raymond Kurzweil quer transcender a fronteira da vida humana e está a trabalhar para isso 
Por Clara Soares

Que idade vai ter daqui a 30 anos? O autor do livro A Singularidade Está Perto, lançado há uma década, fará 97 em 2045, no ano em que, segundo os seus cálculos, a inteligência artificial (IA) vai ultrapassar a inteligência humana e haverá uma fusão desta com a das máquinas. Na prática, teremos nanobots (micro dispositivos do tamanho de uma célula) dentro do nosso corpo a combater doenças e a expandir a memória e as competências cognitivas. Os avanços da tecnologia médica tornarão possível acrescentar mais de um ano à nossa esperança de vida, por cada ano vivido. Bem antes disso – entre 2020 e 2030 – é expectável que ultrapassemos os nossos limites biológicos e nos liguemos à internet por microchips implantados no cérebro. E que experimentemos a realidade pelos sentidos de outra pessoa, via wireless e em tempo real.





















imagem publicada em www.fayerwayer.com

Raymond Kurzweil, agora com 67 anos, há algum tempo que investe na sua reprogramação bioquímica, seguindo uma dieta não convencional, com o apoio de um médico que partilha as suas convicções. O seu regime alimentar inclui a ingestão diária de vários copos de água alcalina e chá verde, um copo de vinho e 150 suplementos alimentares (chegaram a ser 250, desde que, aos 35 anos, lhe diagnosticaram diabetes tipo II). O futurista nova-iorquino tem até um plano B, caso a vida lhe pregue a partida antes do tempo (como aconteceu com o seu pai, vítima de enfarte aos 58). Envolve criopreservação e clonagem. Mas já lá iremos.

Estamos a falar do diretor de engenharia do Google, contratado pelo CEO, Larry Page, para «trazer a compreensão da linguagem natural» ao gigante tecnológico. Do fundador da Universidade da Singularidade, no espaço da NASA e financiada pelo próprio Google, com a intenção de preparar, em nove semanas, uma tropa de elite para lidar com possíveis efeitos adversos da nanotecnologia, como o risco potencial da replicação descontrolada de nanobots (onde é que já vimos isto? Em Blade Runner, de Philip Dick?)

Ray, como também é conhecido, tinha cinco anos quando quis ser inventor. E foi. Conseguiu construir e comercializar sistemas de reconhecimento ótico de carateres, conversores de textos escritos em voz, para invisuais, sintetizadores de voz e outros, capazes de imitar com precisão o som de instrumentos reais, como o piano. Hoje é reconhecido como um dos revolucionários que fez a América e além de aplicar a tecnologia à arte, dedica-se sobretudo à investigação do cérebro humano, que pretende aplicar à construção da inteligência artificial.

Previsões de um Agnóstico
Aos olhos do cidadão comum, Ray Kurweil tem uma vida normal e uma veia empreendedora. Filho de artistas e ascendência judaica, aprendeu com o tio, que trabalhava na IBM, o b-a-ba sobre computação e nunca mais parou (o Wall Street Journal chamou-lhe «o génio Incansável»). Todas as empresas que criou tiveram sucesso e vendeu-as, permanecendo como consultor de boa parte delas, sem nunca lhe faltar espaço para a vida familiar. Casou com a psicóloga infantil Sonya Rosenwald Fenster antes de fazer 30 anos e tiveram dois filhos (Ethan trabalha em capital de risco e Amy é coreógrafa).

O que distingue um visionário são as suas singularidades. Agnóstico e adepto do pampsiquismo (doutrina que advoga a existência de uma consciência universal e a hipótese de as nossas mentes estarem ligadas, de modo não causal), Kurzweil surpreendeu tudo e todos quando as suas previsões (feitas em 1990 para o início do século XXI) se confirmaram. Levá-lo a sério constitui um desafio empolgante, embora arriscado.

Testar e expandir os limites da vida é o seu projeto mais insólito. Pouco depois de atingir meio século de existência, Kurzweil associou-se a uma empresa especializada e, quando morrer, revelou numa entrevista à Wired, será vitrificado em nitrogénio líquido e injetado com criopreservantes. A ideia é
preservar o seu corpo e conseguir restaurá--lo na altura certa e, eventualmente, fazer o mesmo com o pai. Como? Sim, Kurzweil admitiu há alguns anos à Rolling Stone o desejo de fazer uma cópia genética do seu pai, Frederic, a partir da exumação e extração do seu ADN e implantar num clone as memórias que tem dele. Ficção? Talvez sim, talvez não. Perto de 2045, falamos.

Uma Vida Invulgar
Datas marcantes no percurso de Kurzweil

1948: Nascimento
 5 anos: Exposto a diferentes filosofias, decide ser inventor
14 anos: Ávido leitor de ficção cientifica, fazia jogos e teatros robóticos e apresentou a sua teoria do neocórtex à Westinghouse Science talent Search e torna-se um dos vencedores, conhece o presidente Johnson
15 anos: Escreve o seu primeiro programa de computadores
17 anos: apresenta num programa de tv uma peça de piano composta p um computador criado p ele e ganhou um premio, sendo homenageado pela casa Branca
20 anos: No MIT, funda empresa que usava programa para combinar estudantes e universidades, que vende por 100 mil dólares e royalties
22 anos: Bacharelato em ciência de computação e literatura (1970)
26 anos: Funda empresa com o seu nome, com o primeiro sistema de reconhecimento ótico de carateres
27 anos: Casa com a psicóloga Sonya Rosenwald Fenster
28 anos: Digitalizador CCD e sintetizador de voz, que levou Stevie Wonder a comprar a primeira versão e a iniciar uma longa amizade com ele.
30 anos: Vende a empresa à Xerox e ficou como consultor ate meados dos anos 90

34 anos: Funda a Kurzweil Music Systems e, dois anos depois, o Kurzweil k250, o primeiro sintetizador capaz de recriar o piano e outros instrumentos de orquestra, empresa que vende à coreana Young Chang, oito anos mais tarde
35 anos: sofre de intolerância a glucose e conhece o medico Terry Grossman, com convicções não convencionais semelhantes às suas e dedica-se a um regime com 250 suplementos, 8 a 10 copos de agua alcalina e 10 copos de cha verde diariamente, para «reprogramar» a sua bioquímica. 
39 anos: (1987) cria a Kurzweil Applied Intelligence (KAI) para dv sistemas comerciais de reconhecimento da fala 
42 anos: Funda a Medical Learning Company (programas interativos para médicos e a KurzweilcyberArt.com e publica The Age of Intelligent Machines (1990). O seu pai morre com 58 anos, vitima de enfarte
45 anos: Publica livro sobre nutrição em que advoga o corte de calorias/gorduras consumidas para 10% do atual
48 anos: Lança a K Educational Systems (dv tecnologias de reconhecimento de padrões  para pessoas com deficiências como cegueira e dislexia)
51 anos: lança The Age of Spiritual Machines (1999) sobre o futuro da tecnologia, onde prevê que os computadores iriam ser superiores à mente humana e na capacidade de tomar decisões de investimentos lucrativos. Conquista prémio National Medal of Technology (1999), pela mão de Clinton, na Casa Branca
57 anos: K-NFB Reader; dispositivo c câmara e computador, permite a leitura em voz de texto escrito e colectar texto por imagens e lança o livro A singularidade está perto: uma história verdadeira sobre o futuro (2005)
61 anos: Em colaboração com a Google e a Nasa, anuncia a criação da universidade da Singularidade para executivos e oficiais governamentais, com a meta de inspirar lideres a inovar. O programa tem 9 semanas e assenta no conceito de Vernor Vinge, escritor e cientista de computação
62 anos: É lançado um documentário sobre a sua vida, O Homem Transcendente
64 anos (2012): É contratado pela Google para desenvolver projetos de aprendizagem de máquinas e processamento e lança livro, Como Criar uma mente: O segredo do pensamento humano revelado
66 anos: Defende que duplicar a arquitetura cerebral em máquinas pode conduzir a uma super inteligência artificial
2045: É a data em que, acredita, teremos descoberto o segredo da imortalidade. Se lá chegar, terá 97 anos


Burnout: O Fim da Linha

A escassez de recursos e a pressão para obter resultados estão a levar cada vez mais trabalhadores ao esgotamento físico e emocional. 

Leia o artigo, conheça os casos e a análise dos especialistas e teste-se através do link da Revista Visão

segunda-feira, 16 de março de 2015

Did you say... Mindfulness?


We know the word, but do we know the meaning and how to use it in our daily lives? Is it just another trend, destined to fade, or is something else, important enough to be taken seriously, as a business, as an academic and scientific field and as a better way to live and to cope with health problems?
Jon Kabat-Zinn was the man who transformed buddhist meditation into a stress reduction method, giving it the scientific frame it now has, in american culture. The technique, which combines meditation and Hatha yoga, is being used by famous CEOs (from Apple and Google, to quote a few) and is progressively conquering a its own place in the university programs. Designed to to help patients cope with stress, pain, and illness by using what is called "moment-to-moment awareness", Mindfulness has come to stay. Among psychiatrists, also.    

Read more about it in Iva Tarle's post How is Mindfulness Used by Psychiatrists? and check how mental health professionals are incorporating the method in their clinical practice, in Psychology Tomorrow Magazine


quinta-feira, 5 de março de 2015

Conhece a Psicologia do Tempo?

Estou aqui. Estou no agora. Há pouco estava com a cabeça no amanhã. Até me esqueci que já eram horas de voltar a entrar na impagável roda do tempo, das rotinas. O tempo voa. Ontem não era assim. tinha todo o tempo do mundo. O que é o Tempo? O meu, o teu, o nosso? Na Antiguidade Clássica, os gregos tinham mais que uma designação para a 4ª dimensão; o tempo cronológico (Chronos), linear ou sequencial, e o tempo subjetivo (Kairós), humano e indeterminado.

Internamente, tendemos a medir o Tempo em função dos intervalos entre eventos que consideramos significativos - o nascimento de um filho, uma separação, etc. As experiências marcantes e o intervalo entre elas definem o nosso tempo (Kairós), são a timeline da nossa história, distinto do tempo cronológico (Chronos). A dupla natureza do tempo origina insólitas distorções percetivas.

A Persistência da Memória - Salvador Dali (1931)

«Já?! Parece que foi ontem». Percebemos o Tempo de modo mais rápido à medida que somos mais velhos. A aceleração subjetiva do Tempo, à medida que a idade avança (fenómeno conhecido por telescopia) deve-se a factores tão diversos como:


  • aumento do tempo de reacção: fisiologicamente, o relógio biológico tende a desacelerar com o passar dos anos e as horas do relógio parecem-nos, então, mais velozes, um erro de paralaxe: sentimos que não acompanhamos o ritmo, até porque o nosso tempo de reação se torna mais lento
  • perceção e resposta de stresse: são precisas unidades de tempo extra para responder às mesmas exigências e pressões da vida adulta, que passam a correr, umas atrás das outras, ou todas ao mesmo tempo. De tão imersos nelas, damos menos atenção à cronologia. «O tempo foge entre os dedos». 
  • «meteorologia emocional» - no fluxo da consciência, passado, presente e futuro emergem, de modo não linear ou cronológica. A memória é influenciada pelas emoções, são elas que induzem a percepção do Tempo, esse continuum que não tem princípio nem fim. Assim se explica, por exemplo, a nossa tendência para olhar os eventos da adolescência e da infância - as nossas primeiras vezes, as descobertas - como tendo uma duração maior do que a efetiva. "Todo o tempo do mundo"



Somos seres analógicos num mundo digital. O nosso relógio interno pauta-se pelos marcos de vida (a narrativa pessoal): quanto mais espaçados no tempo (eventos menos frequentes, portanto), maior o desfasamento entre o "meu tempo" e o "dos outros". "Ainda ontem era um bébé, já está um homem".

A velocidade de Kairós depende da experiência consciente (consoante estamos acordados, a dormir, a sonhar, sob influência de drogas, em êxtase ou quando estamos a rezar, a meditar, a tocar ou a ouvir uma melodia). Há mesmo quem considere que, em certos estados mentais, se consegue transcender a barreira do Tempo, por se tornar tão lento ao ponto de parar completamente (sim, podemos chamar-lhe Nirvana).

A perspetiva temporal é uma das mais poderosas influências no comportamento humano 
No seu livro Time Paradox (2008), o psicólogo social americano Philip Zimbardo defense que cada um de nós tem uma perspetiva enviezada do Tempo, com implicações óbvias na condução das nossas vidas.

  • A má notícia: sem usar o que ele designa por "a nova psicologia do tempo", podemos ficar reféns de um padrão de pensamento e ação desvantajosos para nós. 
  • Exemplos :  "Vivo o hoje, adapto-me às circunstâncias" (orientação para o presente), "Há que andar para a frente, planear, fazer listas" (orientação para o futuro), "No meu tempo... o tempo é cruel... se eu tivesse outra vez 20 anos" (orientação para o passado).
  • A boa notícia: é possível introduzir mudanças na nossa perspetiva temporal e, com isso, fazer os ajustes necessários para restaurar a nossa qualidade de vida. 

O questionário para quantificar a Perspetiva do Tempo trouxe a Zimbardo tanta ou mais popularidade do que a Experiência da Prisão de Stanford (1971), estudo que foi adaptado ao cinema no início deste ano. A simulação, com estudantes universitários, durou apenas seis dias, altura em que foi interrompida, pelo rumo dramático, e inesperado, dos eventos. Conclusão: pessoas boas podem tornar-se infernais num contexto que o permita (o estudo voltou a estar na ribalta, após os abusos praticados, em 2004, na prisão de Abu Ghraib).

Agora, que a prática do Mindfulness - atenção plena -  está a conquistar executivos, académicos e a chegar, através de workshops, ao cidadão comum, as últimas tendências da investigação neste campo sugerem três pistas para mudar a perspetiva de tempo, com benefícios na saúde e na longevidade:


Abrandar 

Meditar 

Estar atento    

OBS:
Este texto foi escrito entre ontem e hoje. Foi uma agradável supresa descobrir, também hoje, a edição de aniversário do jornal Público, gratuita e inteiramente dedicada ao Tempo. Ainda consegui ir a tempo de encontrar um exemplar e, já que em matéria de tempo, "não há duas sem três", enquanto conduzia até casa,
com o rádio ligado, apercebi-me da abertura da exposição The Clock, de Christian Marclay, a decorrer até 19 de Abril, no Museu Berardo, em Lisboa. 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Velocidade Pessoal



«Devagar, Depressa». O título da crónica Sinais, de Fernando Alves, na TSF, que hoje me fez abrandar as rotinas matinais e mereceu uma segunda audição, em podcast. 

Inspirada num destaque de primeira página da edição do Jornal de Negócios, convida a uma contemplação sobre a velocidade pessoal e a arte de gerir-la nos relacionarmos com os outros.  Ouvir AQUI

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O que as 50 Sombras de Grey trouxeram à Luz


Veja a leitura psicológica do fenómeno AQUI (Entrevista na TVI 24)
e
Leia o artigo sobre o tema AQUI (Sexo: Das Sombras à Luz - Revista Visão)


A sexualidade não tem idade. Tem diversidade. E muitas formas de expressão, movidas por razões igualmente diversas. Pelo prazer da descoberta, por pura diversão, por uma questão de preferência ou como via de transformação pessoal.

Sempre tem sido assim, mas vivido na sombra. Daí que, de tempos a tempos, venha à tona uma música, um livro ou um filme que se converte num fenómeno social e mediático. Que destrone ideias feitas acerca do que é o Normal, o prescrito, em matéria de jogos entre adultos. Cada tempo e transição social e de costumes tem os seus ícones, agents provocateurs incluídos.

Década a década, costumes e práticas de imensas minorias vão saindo do armário. Nesta, a era da tecnologia, do marketing e da globalização, o desafio é dar permissão ao BDSM para entrar, sem culpas nem o rótulo de perturbação mental, na domesticidade conjugal e na vida de cada um. Com aceitação social, portanto.

Será esse o «segredo» da trilogia da best seller americana E L James (e da versão cinematográfica)? BDSM goes mainstream? Como ficção que é, não podem deixar de lá estar os ingredientes clichê que prendam o espetador (as espetadoras, já agora): as tormentas secretas do herói poderoso e as vicissitudes da jovem que se apaixona por ele. Nada de novo, apenas uma nota diferente: face a obras do género (romances, dramas ou thrillers eróticos), a «moral da história» promete ser menos fatalista. E, talvez até, fantasista.